Brasil precisa tomar partido em conflito colombiano, diz Marcha Patriótica

Porta-voz do movimento político colombiano sugeriu que governo brasileiro poderia estar respaldando política de Santos

Gonzaga Dorneles

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O movimento político colombiano Marcha Patriótica espera um posicionamento mais “proativo” do governo brasileiro diante do conflito histórico entre o governo da Colômbia e as guerrilhas das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ELN (Exército de Libertação Nacional). David Flórez, porta-voz do movimento, afirmou em entrevista a Opera Mundi que "não está muito claro se (o governo brasileiro) está pela paz ou se respalda a política de Santos”, afirma.

Efe (19/05/2013)
Iván Marquez, líder das FARC na negociação de paz com o governo colombiano em Havana

Flórez e outros membros da coalização política e social da qual faz parte a ex-senadora Piedad Córdoba estiveram em Porto Alegre nos dias 24, 25 e 26 de maio como convidados do Fórum Pela Paz na Colômbia, realizado na Assembleia Legislativa do Estado gaúcho. O evento recebeu grupos de militantes sociais da Argentina e do Uruguai que enfrentaram quase 24 horas de ônibus até a capital do Rio Grande do Sul. Por outro lado, a participação de brasileiros foi tímida.

Atualmente, o governo e as guerrilhas estão em processo de conversações mediadas por Cuba, Noruega, Venezuela e Chile para obter um acordo de paz que ponha fim ao confronto armado que, além dos milhares de mortos, desaparecidos, provocou o deslocamento interno de 4 milhões de pessoas e faz com que a Colômbia seja considerado o quinto país mais violento do mundo pela ONU (Organização das Nações Unidas).

 

Representantes de organizações sindicais e partidos políticos de esquerda de outros países, como México, Paraguai, Venezuela, Espanha e, claro, Colômbia, debateram durante três dias o conflito que já se estende por quase 50 anos no país. O resultado foi uma declaração final na qual, entre outras medidas, pedem a restituição dos direitos políticos de Piedad Córdoba, ex-senadora cassada por suspeita de ligação com as FARC, e se comprometem a criar um forte movimento continental para respaldar o processo de paz na Colômbia. Piedad, que lidera um grupo chamado “Colombianos e colombianas pela Paz” e negocia a liberação de reféns pelas guerrilhas, era esperada no evento, mas viajou a Quito para a posse do presidente Rafael Correa e conversou via Skype com os participantes do fórum.

OM: A Marcha Patriótica vê com otimismo as negociações em Havana?
David Flórez: Sim, mas também analisamos com responsabilidade o tema nos termos políticos. Acompanhamos e apoiamos o processo de paz, mas propomos elementos que consideramos que precisam ser melhorados para existir um acordo. E um deles é a participação da sociedade no processo de diálogo e construção da paz. Nós não somos contra a presença dos empresários, militares e setores de muito poder político e econômico na mesa. Isso nos parece correto porque significa que eles têm compromisso político. O que somos contra é que esses setores participem das conversas, mas outras partes importantes da sociedade fiquem de fora, como os trabalhadores, os camponeses. Se o tema agrário está em pauta, por exemplo, o mínimo que esperaríamos é que as organizações de camponeses fossem escutadas.

OM: O senhor acredita que um bom acordo de paz será alcançado?
DF: Ainda faltam esforços maiores. Do jeito que está, provavelmente as vozes governistas vão se impor e o governo utilizará qualquer desculpa para sair da mesa. Não gostaria de ser tão enfático, não é tanto. Mas há duas partes na mesa que têm comportamentos diferentes: a insurgência diz claramente que não deixará a mesa de diálogo, que quer a participação dos movimentos sociais, mas a atitude contrária vem sendo do governo nacional. Então, nessa medida, o que nós estamos dizendo é mais do que ‘isso vai fracassar’, estamos fazendo um esforço muito grande para deixar claro que se esses elementos não forem mudados poderão levar as conversas ao fracasso.

Gabriel Munhoz/Opera Mundi

David Flórez, da Marcha Patriótica, defende uma maior participação da sociedade no processo de diálogo e construção da paz

OM: O senhor acredita que, caso a esquerda vença as eleições de 2014, o caminho pode ser facilitado?
DF: Nós sustentamos que a paz não pode depender da agenda eleitoral. A paz precisa ser um compromisso do Estado colombiano. Porque se você jogar dessa forma, diretamente ligado à agenda eleitoral, estará muito ligado se, nesse momento, se considera eleitoralmente rentável apostar pela paz ou não. É certo que, caso haja um governo alternativo, ele pode desenvolver um processo de paz diferente. Atualmente, o panorama não é muito claro na medida da atual configuração do regime político colombiano que impede a participação direta e com garantias de um amplo espectro da sociedade colombiana que se identifica com a esquerda ou com organizações políticas que têm trajetória na esquerda.

OM: em 2012, Santos disse sim à negociação. Agora, há poucas semanas, ele confirmou que tentará a reeleição em 2014. Não parece que sim, o processo de paz está ligado à agenda eleitoral?
DF: Claro, em princípio, há uma agenda eleitoral de Santos sobre sua reeleição que coloca como elemento fundamental o processo de paz. No entanto, o certo é que o discurso de Santos é sempre ambíguo: na segunda fala de paz, na terça fala de guerra, na quarta fala de paz, na quinta fala de guerra... Ou seja, ele não renunciou à guerra como política para derrotar a insurgência ou à fórmula da guerra para gerar legitimidade e apoio para a competição eleitoral. Há um cálculo político cotidiano e, com certeza, o panorama político que se configurará até novembro determinará se a bandeira para a sua campanha será a paz ou a guerra.

OM: Como o movimento avalia o posicionamento das FARC e do ELN na mesa de diálogo?
DF: Em primeiro lugar há uma coisa que é importante observar: a maior parte das propostas que eles apresentaram foi produto de fóruns que feitos na Colômbia – um fórum de desenvolvimento agrário e outro sobre participação política, ambos promovidos pela ONU e pela Universidade Nacional e convocados pela mesa de diálogo. Ou seja, mostra uma atitude de escutar o que dizem os movimentos sociais para propor não apenas a sua própria posição, mas também o que outros setores da sociedade colombiana buscam. Isso me parece muito significativo. Em segundo lugar, o fato de que a insurgência declarou uma trégua unilateral no final do ano passado e começo desse ano demonstra um gesto humanitário, um gesto de ambientação da paz, sem sombra de dúvidas importante.

Em terceiro lugar, no marco de uma sociedade tão polarizada, na qual se estigmatiza tanto as posições e o que se busca é naturalizar o elemento político do conflito, acredito que é muito importante para a sociedade que conheça a guerrilha. Que se veja que não é esse ogro terrorista. Muitos não concordarão com suas ideias, mas que vejam quais são suas propostas políticos. Vínhamos de oito anos de (Álvaro) Uribe nos quais só se falava ‘os terroristas, os terroristas, os terroristas’... E a sociedade colombiana não sabia por que eles existiam e o que estavam propondo.

OM: Como o movimento avalia a participação de Noruega, Cuba, Venezuela e Chile como mediadores das conversações?
DF: É fundamental. Em um conflito como o colombiano, é necessário que eles possam cumprir esse papel de gerar confiança diante do diálogo e que possam efetivamente reprimir os momentos de crítica ao diálogo. Assim, o respaldo da comunidade internacional é fundamental.

OM: Como vocês avaliam a posição do Brasil diante do conflito?
DF: Sem dúvidas, o governo brasileiro precisa ser mais proativo na defesa da paz e tomar partido. A percepção que há desde os movimentos populares na Colômbia é que, é certo que o Brasil colaborou com helicópteros e elementos logísticos para facilitar as liberações de reféns, mas também é certo que hoje há uma série de acordos em termos militares que são muito fortes entre o governo colombiano e o governo brasileiro. Um dos aviões mais utilizados para bombardear constantemente os campos colombianos é o Tucano, que é de fabricação brasileira. E não estamos dizendo que não deve haver cooperação entre os governos, mas sim exigir que um governo que se vê diferente do de Santos tenha também elementos diferentes na forma de cooperação internacional.

OM: Então os movimentos populares da Colômbia esperavam mais de um governo de esquerda como o brasileiro
DF: Claro que sim. Por isso dizemos que (o Brasil) deveria ter um papel mais decisivo e promover uma cooperação diferente com o governo colombiano visando a paz. Não está muito claro se (o governo brasileiro) está pela paz ou se respalda a política de Santos que, ainda que internacionalmente pareça ser uma política pacífica, na realidade, em grande medida, uma política de guerra.

 

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