Cabo Verde volta dos EUA com zero vitórias e a história mais bonita da Copa
Será difícil que até mesmo um título neste Mundial de Futebol de 2026 consiga ser tão heroico quanto o feito dos tubarões azuis de Vozinha e Bubista
Quanto vale um gol numa Copa do Mundo? Quanto vale uma vitória? Quanto vale um título ou um recorde que pode durar só quatro anos, ou talvez quatro décadas pra ser batido? E como entender uma seleção que fez quase nada disso – poucos gols, zero vitórias, nenhum recorde e uma eliminação a quatro jogos do título – e conseguiu voltar pra casa com algo ainda mais valioso?
Cabo Verde saiu do torneio disputado nos Estados Unidos sem vencer um jogo sequer no campeonato, e terminou sendo eliminada na fase de dezesseis avos de final. Durante o torneio, balançou a rede apenas quatro vezes.
Nenhuma estatística, porém, é capaz de mostrar a fantástica odisseia dos tubarões azuis que disputaram a primeira Copa do Mundo de sua história, e que, de cara, tiveram o azar de cair num grupo com dois campeões do mundo como Espanha e Uruguai, e pegando a atual campeã Argentina no mata-mata.
Em sua estreia, a equipe do técnico Pedro Bubista segurou a Espanha, uma das favoritas ao título, mantendo o 0x0 no placar até o final da partida, graças a uma atuação brilhante de sua máxima figura no torneio, o goleiro Josimar Vozinha, um veterano de 40 anos que o mundo do futebol se arrepende de não ter conhecido antes.
Na partida seguinte, contra o Uruguai, novo empate, por 2×2, no qual se viu um prelúdio do que seria sua épica partida de eliminação, jogando de igual pra igual contra a Celeste Olímpica e flertando em alguns momentos com a vitória.
Sua passagem pela fase de grupos registrou uma única performance questionável, quando não foi capaz de vencer a insossa equipe da Arábia Saudita, ficando em um novo 0x0 em duelo no qual era sua a responsabilidade de impor superioridade, e falhou nessa tarefa.
A batalha em dezesseis avos de final terminou do jeito que se esperava, com a Argentina classificada. Novamente, os números fracassam em dizer o que aconteceu especificamente nesta sexta-feira (03/07), em Miami.
Após um primeiro tempo com amplo domínio, os campeões mundiais foram pro intervalo com uma magra vantagem de 1×0, gol de sua maior estrela, Lionel Messi, um dos maiores jogadores de todos os tempos, mas que só foi capaz de alcançar uma vitória mínima em 45 minutos contra os tubarões azuis.
No segundo tempo, Cabo Verde decidiu jogar de igual pra igual com os argentinos, tornando a dinâmica de partida eletrizante. Atacou os campões do mundo até que Deroy Duarte anotou um merecido gol de empate, que não estivesse no roteiro de 99% dos espectadores, incluindo os que torciam – alguns até apaixonadamente – pela seleção africana.
Cabo Verde não só igualou o marcador como também as ações. O outro lado tinha o fenomenal Messi e outros dez atletas presentes nas maiores ligas de futebol do mundo, e eles eram um grupo de jogadores, parte deles semiamadores, vindos de um arquipélago de pouco mais de 530 mil habitantes – há pelo menos vinte capitais brasileiras mais densamente povoadas. E os insulares faziam o gigante albiceleste suar.
Após o empate caboverdiano, a Argentina voltou a ter certo domínio, mas não conseguiu encontrar o gol. Nem Messi foi capaz de vulnerar Vozinha e a equipe africana segurou seu quarto empate na competição. Considerando apenas os 90 minutos, pode-se dizer que Cabo Verde saiu da Copa sem perder.
Comparação com o Irã
Essa proeza é comparável com outra realizada neste Mundial, realizada pelo Irã, que enfrentou as maiores injustiças já vistas na história do torneio contra uma seleção.
Durante a Copa, os iranianos foram proibidos de pernoitar no país onde se disputavam seus jogos, tiveram que treinar no México e viajar aos Estados Unidos antes e depois das partidas.
Ademais, a equipe lidou com restrições de vistos e outras artimanhas legais, mas mesmo assim terminou sua participação de forma invicta, com três empates.
O que torna o feito caboverdiano maior que o iraniano é a qualidade dos adversários, três deles ex-campeões mundiais, incluindo o mais recente, enquanto os asiáticos passaram por Bélgica, Egito e Nova Zelândia.

Seleção de Cabo Verde conquistou o mundo nesta Copa do Mundo
Reprodução / @vozinha1
A heroica prorrogação
O tempo extra da partida poderia ser todo da Argentina, já que Cabo Verde começou com sua proposta inicial de se defender e segurar o resultado, talvez sonhando com os pênaltis. Mas essa dinâmica durou apenas alguns poucos minutos.
O gol de Lisandro Martínez logo no comecinho do primeiro tempo adicional, mudou o cenário e obrigou a equipe do arquipélago adotar novamente a postura de não ter medo dos sul-americanos. E, novamente, ao igualar as ações, os africanos conquistaram o empate, num golaço do lateral Sidny Lopes Cabral, ainda na primeira metade da prorrogação.
O segundo tempo extra começou como o primeiro, com a Argentina achando um gol rápido numa cabeçada de Cristián Romero que desviou no caboverdiano Diney Borges.
Os últimos dez minutos foram de pressão total dos jogadores semiamadores de Cabo Verde contra os campeões mundiais de 2022. A equipe africana teve ao menos duas claras oportunidades para obter um novo empate e levar a partida pros pênaltis.
Nesse ponto o futebol mostra que as histórias explicam mais que os números. O apito final encerrou um resultado idêntico ao de Bélgica x Senegal, e novamente com a equipe africana sendo eliminada, contra uma seleção mais tradicional cujos jogadores terminaram rezando aliviados por ter sobrevivido a uma quase eliminação inesperada. Mas o choro dos caboverdianos no final da partida foi diferente das lágrimas senegalesas dois dias antes.
A eliminação dos tubarões azuis já era esperada, mas tinha ganho um sabor diferente durante um confronto em que, por alguns instantes, a classificação contra a toda poderosa Argentina de Messi pareceu um sonho possível, alcançável. Fizeram o gigante suar no tempo normal, e o fizeram sofrer na prorrogação, com seus jogadores badalados rogando pelo fim do jogo.
A história mais bonita
A façanha de Cabo Verde nos Estados Unidos não foi um simples gol, ou uma vitória, e claro está que ficou bem longe do título. Eles escreveram a história mais bonita desta Copa do Mundo.
As estatísticas oficiais da partida mostram que a Argentina foi melhor que Cabo Verde, e quem as observa sem ter visto o jogo talvez ache, a partir dos números frios, que os sul-americanos mereciam vencer até por mais que os 3×2 do placar oficial.
O grande feito dos tubarões azuis está nos detalhes. Está nas defesas incríveis de Vozinha parando Messi e seus companheiros uma dúzia de vezes – como fez contra a Espanha no começo da Copa.
Está no amor que levou o jovem Sidny Lopes Cabral a fazer o gol da sua vida e a comemorar daquele jeito, com uma corrida em que driblou até seus companheiros de time, os seguranças do estádio de Miami, os funcionários da organização… ninguém foi capaz de pará-lo até que ele encontrasse o abraço na sua namorada, que estava na arquibancada e também correu para alcançá-lo, e celebraram juntos.
A façanha de Cabo Verde foi vista e ouvida no Brasil inteiro, e provavelmente alguns outros países do mundo, que comemoraram aqueles gols como se fossem dos seus próprios países. Foram as histórias de Sidny, Vozinha, Bubista e outros que conquistaram corações mundo afora, e não os números produzidos por eles em campo.
Os imbecis da objetividade dirão que os números continuarão mostrando que Cabo Verde tem apenas um título da Taça Amílcar Cabral em 2000 (troféu cujo nome vale mais que ouro pro país, em todo caso) e a medalha de ouro nos Jogos da Lusofonia em 2006.
Dirão que, na Copa Africana de Nações, o máximo que os insulares conseguiram foram duas disputas de quartas de final, em 2013 (na África do Sul) e 2023 (na Costa do Marfim). E agora essa passagem pelo Mundial dos Estados Unidos, que acabou com um inexpressivo 32º lugar.
Por isso os números não importam. O que de verdae ficará marcado na memória das pessoas são as histórias vividas e sentidas por aqueles que acompanharam o heroico e histórico jogo contra a Argentina.
A taça do mundo ficará, talvez, com os próprios argentinos, ou com os franceses, os espanhóis, ou talvez até com brasileiros. Mas dificilmente alguma dessas seleções escreverá, em um possível título, uma história tão bonita quanto a desta derrota cheia de honra obtida pela seleção de Cabo Verde.
























