Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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O Bohemian Football Club, de Dublin, atualmente entre os primeiros colocados do campeonato irlandês, lançou em parceria com o grupo britânico Massive Attack uma terceira camisa inspirada em Cuba e na longa tradição de solidariedade entre irlandeses e cubanos.

Segundo a divulgação da colaboração, 30% dos lucros obtidos com as vendas serão destinados a duas organizações que enviam ajuda médica à ilha: Cuba Vive Medical Aid Appeal e mediCuba-Europe.

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O lançamento da camisa ocorre poucos dias depois de Cuba lembrar outro marco histórico: na quinta-feira (13/08), o país celebrou o centenário do nascimento de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana e principal dirigente do país durante décadas.

A iniciativa foi apresentada pelo clube na sexta-feira (14/08), em um momento de destaque esportivo dos Bohemians. A equipe vinha ocupando a terceira posição da Premier Division da League of Ireland, posição que havia recuperado depois de uma vitória por 3 a 0 sobre o Shelbourne, em junho.

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A camisa incorpora elementos da história revolucionária cubana e da própria relação cultural entre Irlanda e Cuba. O desenho utiliza listras cáqui e pretas sobre as quais aparecem trechos do discurso pronunciado por Ernesto Che Guevara em Argel, em 24 de fevereiro de 1965, durante o Segundo Seminário Econômico de Solidariedade Afro-Asiática.

Na ocasião, Guevara apresentou a luta contra o imperialismo e o neocolonialismo como parte de um processo mais amplo de emancipação dos países da África, Ásia e América Latina. O discurso também defendia a cooperação econômica e tecnológica entre países em desenvolvimento e a solidariedade internacional entre povos submetidos à dominação colonial ou neocolonial.

A referência à fala de 1965 não é casual. O discurso de Argel é um dos documentos mais conhecidos da atuação internacional de Guevara antes de sua saída de Cuba para participar de movimentos revolucionários em outros países. Naquele momento, ele ocupava o cargo de ministro da Indústria e havia desempenhado papel central na política econômica do governo revolucionário cubano.

Estrela cubana

Outro elemento da camisa é a estrela branca sobre fundo vermelho, retirada da bandeira cubana e posicionada no centro da gola. O símbolo remete à independência e à soberania nacional cubanas.

Na barra da peça aparece ainda uma representação de Che Guevara criada pelo artista irlandês Jim Fitzpatrick, um dos vínculos mais diretos entre a iconografia revolucionária cubana e a cultura política irlandesa.

Fitzpatrick transformou em 1968 a célebre fotografia de Guevara feita pelo fotógrafo cubano Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Alberto Korda, em uma imagem gráfica de alto contraste que se tornaria uma das representações políticas mais reproduzidas do século 20.

O próprio Fitzpatrick afirma que decidiu não restringir comercialmente os direitos de reprodução de sua versão da imagem para permitir que ela circulasse amplamente. Segundo o artista, essa opção ajudou a explicar a rápida disseminação do cartaz em movimentos políticos e manifestações ao redor do mundo.

A escolha tem um significado adicional na Irlanda. Fitzpatrick é de Dublin e sua representação de Guevara também se tornou parte da memória visual da contracultura e dos movimentos políticos da cidade durante as décadas de 1960 e 1970.

Camiseta tem desenho inspirado na bandeira cubana
Bohemian FC / Divulgação

Dinheiro para saúde cubana

O aspecto beneficente da camisa está relacionado às dificuldades enfrentadas atualmente pelo sistema de saúde cubano. A Cuba Vive Medical Aid Appeal foi criada para arrecadar recursos e enviar medicamentos, equipamentos e insumos hospitalares para a ilha.

A organização informa que, entre fevereiro de 2025 e maio de 2026, dez grandes remessas chegaram a Cuba, representando, somadas às doações de materiais médicos, mais de £ 1,5 milhão em ajuda médica e alimentar.

Já a mediCuba-Europe é uma rede sem fins lucrativos formada por organizações de 13 países europeus. A entidade atua especificamente na área de saúde e afirma trabalhar para contribuir com a manutenção de um sistema de atendimento universal e gratuito em Cuba. Entre suas iniciativas estão campanhas para aquisição de medicamentos, equipamentos e marcapassos.

O governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, intensificou drasticamente o embargo econômico a Cuba, em vigência desde 1962, com uma campanha de “pressão máxima”. As medidas incluem um bloqueio de petróleo, sanções frequentes a empresas estatais e militares ligadas ao conglomerado GAESA, e restrições financeiras para sufocar as receitas do regime cubano.

Em março deste ano, a organização afirmou que a escassez de combustível, as dificuldades de geração de eletricidade e as restrições financeiras internacionais estavam afetando diretamente o sistema de saúde cubano. As sanções americanas dificultam a obtenção de medicamentos e materiais cirúrgicos que estão disponíveis normalmente em outros países. A organização cita, entre os itens afetados, antibióticos, suturas, peças para equipamentos médicos e analgésicos.