Sexta-feira, 10 de julho de 2026
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Há vários fatores que podem explicar a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 e um deles é o trabalho de uma mulher. A equipe de Vinícius Junior e Neymar Junior foi superada pela Noruega, país onde os melhores resultados futebolísticos recentes são fruto da gestão liderada Lise Klaveness, atual presidente da Federação de Futebol local.

A trajetória de Klaveness no futebol começou nos campos, jogando como meia-atacante de diferentes times do país e também pela seleção feminina da Noruega, entre 1997 e 2011. No período, ela foi vice-campeã europeia em 2005 e quarta colocada na Copa do Mundo Feminina de 2007.

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Antes de pendurar as chuteiras, ela estudou Direito, mas atuou pouco tempo como advogada. Em 2016, começou a trabalhar na Federação Norueguesa de Futebol e teve participação decisiva no projeto cujo resultado a longo prazo foi o salto qualitativo nas seleções de futebol do país nórdico.

Naquele então, a Noruega já tinha um projeto de formação de atletas chamado “Landslagsskolen” (“Escola da Seleção Nacional”), mas foi somente a partir da chegada de Klaveness à Federação local que a iniciativa passou a contar com prioridade de investimentos e a funcionar em um novo mecanismo que promovia a igualdade nos trabalhos de formação de equipes masculinas e femininas.

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O diferencial do programa “Landslagsskolen” é a mudança na dinâmica do processo de seleção de atletas, que deixa de focar na centralização – ou seja, encontrar atletas em diferentes regiões e levá-los necessariamente aos centros de alto rendimento em Oslo – e sim incentivar o desenvolvimento desses atletas nos seus clubes locais, o que termina potenciando tanto os jogadores e jogadoras quanto seus clubes e suas comunidades.

Uma das iniciativas do programa foi a construção massiva de campos com gramado sintético e infraestrutura padronizada de treinamento, até mesmo em pequenas cidades onde o frio extremo tornava muito difícil a prática de esporte no inverno – por isso, muitos desses novos campos são totalmente cobertos e com gramado sintético.

Com o “Landslagsskolen”, a gestão de Klaveness reestruturou as categorias de base norueguesas, beneficiando tanto as equipes femininas quanto as masculinas, que passaram a revelar mais talentos destacados a nível mundial.

Três dos nomes masculinos formados no programa brilharam na partida que eliminou o Brasil da Copa do Mundo no último domingo (05/07): o goleiro Orjan Nyland, o meia Martin Odegaard e o atacante Erling Breut Haaland.

Críticas à FIFA

Klaveness também é conhecida por seus questionamentos às decisões tomadas pela Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA).

Essa postura veio à tona em 2022, quando assumiu finalmente a presidência da Federação Norueguesa e também passou a ser membro do comitê executivo da União Europeia de Futebol Associado (UEFA).

Lise Klaveness trabalha na Federação Norueguesa de Futebol desde 2016
Vegard Grøtt / UNRIC

Ainda em 2022, ela criticou a escolha do Catar como sede da Copa do Mundo daquele ano, em função das violações aos direitos humanos dos trabalhadores, muitos deles imigrantes, que construíram os estádios usados no torneio, e também pelo tratamento dado no país às torcedoras mulheres e membros da comunidade LGBTQIAPN+.

Em entrevista à época, ela chegou a usar seu próprio exemplo, devido ao risco de ser presa durante sua passagem como membro da delegação da UEFA, por ser casada com outra mulher – a também ex-atleta Ingrid Fosse Seathre – situação que é considerada pela lei local catari como “abominação” e sujeita a pena de sete anos de prisão.

Ademais, ela é uma forte crítica da escolha da Arábia Saudita como sede da Copa do Mundo de 2034, pelos mesmos motivos com os quais criticou a Copa no Catar.

Após o sorteio da Copa do Mundo de 2026, em dezembro passado, Klaveness voltou a protagonizar uma polêmica com relação à FIFA, ao fazer uma denúncia formal contra o mandatário da entidade, o italiano Gianni Infantino, pela de decisão de criar o Prêmio da Paz da FIFA e entregá-lo a Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, um dos países sede do Mundial deste ano.

Na petição apresentada ao Comitê de Ética da entidade máxima do futebol, a dirigente norueguesa questionou a própria criação da honraria e também a escolha do vencedor sem passar por uma consulta democrática, alegando que tal situação “coloca em xeque a neutralidade política” requerida no estatuto da organização esportiva.

Benefício a clubes do interior

Além dos atletas, também os clubes acabaram se beneficiando com a estrutura criada pelo programa potenciado na gestão de Klaveness.

O caso mais conhecido é o Bodo/Glimt, clube de um povoado de 52 mil habitantes no norte do país, e que se tornou a sensação nos campeonatos europeus, chegando a ser semifinalista da Liga Europa na temporada 2024-2025.

Na última edição da Liga dos Campeões da Europa, temporada 2025-2026, a equipe chegou até as oitavas-de-final, em campanha na qual venceu gigantes do futebol europeu como Manchester City, Atlético de Madrid e Internazionale.

A atual seleção norueguesa possui cinco atletas formados no Bodo/Glimt, dos quais três ainda jogam pelo clube. Um deles, o volante Patrick Berg, foi titular e jogou os 90 minutos na partida contra o Brasil.