Quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
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A National Basketball Association (NBA), principal liga de basquete profissional dos Estados Unidos, e a National Football League (NFL), de futebol americano, realizam nesta quinta-feira (25/12) suas rodadas de Natal. Apesar dos jogos em foco, grandes eventos e novos campeões e atletas, o que mais marcou as ligas norte-americanas em 2025 foram os escândalos de apostas esportivas.

Na NBA, Chauncey Billups, ex-técnico do Portland Trail Blazers, foi detido em outubro pelo Departamento Federal de Investigação (FBI) devido a sua participação em um esquema de apostas esportivas na liga. Além dele, o jogador Terry Rozier, do Miami Heat, foi afastado pelo envolvimento em outro esquema de manipulação.

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Para entender o fenômeno das apostas esportivas nos Estados Unidos, Opera Mundi conversou com John Holden, professor associado do Departamento de Direito Empresarial e Ética da Kelley School of Business, da Universidade de Indiana.

Para Holden, um dos fatores a ser levado em consideração é que a legalização e consequentemente a regulamentação das apostas, iniciadas em 2018, tornou os bilionários donos de times da NBA, NFL, National Hockey League (Hóquei) e Major League Baseball (beisebol) “mais ricos do nunca”.

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Com a regulamentação, “os contratos de transmissão e as propriedades esportivas e intelectuais que essas ligam vendem se tornaram muito mais valiosas. Isso abriu novas fontes de receita para os proprietários — que é justamente uma das responsabilidades de um comissário [cargo de gerência] na NBA”, afirmou.

Holden lembrou que essa foi uma afirmação feita pelo próprio Mark Cuban, um dos ex-donos do time Dallas Mavericks, quando a regulamentação das apostas esportivas foi iniciada. Segundo ele, a decisão “dobrou o valor das franquias [times] que possuem”. “E a razão para isso é porque as pessoas que apostam passam a assistir muito mais aos esportes”, acrescentou.

Legalização e regulamentação em 2018

O professor, que trabalha com questões legais e regulatórias do esporte, com ênfase nas apostas e medidas de prevenção de corrupção, afirma que o resultado visto recentemente na NBA e demais situações extremas, como atletas “vendendo” os resultados de seus próprios jogos, são, de fato, muito negativos.

“Essa é definitivamente a maior desvantagem das apostas esportivas: elas atraíram mais atenção e mais questionamentos sobre a integridade do jogo”, admite.

Contudo, ele ressalta que essa prática acontecia desde antes da regulamentação. “As apostas esportivas sempre existiram nos Estados Unidos. Desde que existem esportes, assim como em todo o mundo, sempre tivemos apostas esportivas ruins. O que nos leva a questionar: temos esportes porque temos apostas ou temos apostas porque temos esportes?”, afirma. “Provavelmente esses escândalos são as razões pelas quais as apostas foram proibidas por cerca de 100 anos”, acrescenta.

Em 2018, no entanto, o cenário mudou. A Suprema Corte derrubou uma lei federal que determinava que apenas os estados norte-americanos que já tinham apostas esportivas quando ela foi sancionada poderiam continuar com a prática, como no caso de Nevada, que abriga Las Vegas — cidade mundialmente conhecida por seus cassinos.

Segundo Holden, o Judiciário decidiu que o governo federal não poderia determinar as decisões dos estados em relação às apostas esportivas. “E então, a partir de 2018, você tem estados começando a legalizar as apostas esportivas”. Hoje são 38 estados, além do Distrito de Columbia (Washington D.C) que legalizaram a prática.

Diante do argumento de que a legalização das apostas esportivas poderia provocar mais manipulação nos jogos e partidas, o professor diz que “um mercado regulamentado permite que mais proteções sejam implementadas”.

Holden compara o cenário com a regulamentação do mercado de ações: “agora obtemos muitas informações porque elas são obrigatórias, monitoramos mais atividades do que nunca justamente porque são regulamentadas”. “O governo está regulamentando, supervisionando, e as empresas de jogos de azar que operavam ilegalmente agora são obrigadas a cumprir certos requisitos”, relata.

Outro viés da aposta esportiva regulamentada nos Estados Unidos é sua participação na economia do país, uma vez que, com a legalização, houve a promessa de que ela traria uma grande receita para os estados norte-americanos. Contudo, segundo o professor, na maioria dos estados elas cumprem um papel “amplamente insignificante porque são um produto de baixa margem [lucro], diferentemente dos cassinos”.

“Os cassinos empregam centenas de pessoas, enquanto as apostas esportivas online provavelmente não precisam do mesmo nível de apoio”, afirma. O cenário apresentado pelo professor é de que apesar de haver “muito dinheiro sendo apostado, esse valor não volta para os estados e para seus problemas orçamentários”.

Ligas esportivas dos EUA realizam jogos nas rodadas de Natal
Siz Islam/Unsplash

Especialistas em manipulação operam fora do sistema

Apesar do sistema de legalização e regulamentação, o professor Holden afirma que ainda há “manipuladores realmente sofisticados, pessoas que são especialistas em manipular jogos” e que operam “fora do sistema”.

É o caso dos escândalos nas ligas norte-americanas, como o mais recente da NBA que teve como alvo Chauncey Billups e Terry Rozier. Outro caso famoso na liga de basquetebol é o do jogador Jontay Porter, banido permanentemente da liga em abril de 2024, ou seja, impedido de atuar em qualquer time, por ter apostado em pelo menos 13 partidas.

Já a NFL “viu vários jogadores serem suspensos por violarem as regras da liga”, não por manipulação em si, mas por apostarem sem permissão. Outro caso é o da MLB, que recentemente teve dois arremessadores, Emmanuel Clase e Luis Ortiz, do Cleveland Guardians, indiciados sob a acusação de manipularem seus primeiros arremessos em jogo.

O professor analisa que “não houve nenhuma liga que tenha sido poupada” dos efeitos negativos das apostas esportivas nos EUA, nem mesmo nos esportes universitários, muito populares no país. “No estado de Iowa, houve um escândalo de apostas envolvendo todos os tipos de atletas que praticavam diferentes esportes em várias universidades”, relata.

“Seria realmente difícil encontrar uma liga que não tenha sentido o impacto dessa oferta ampliada de apostas legalizadas e da acessibilidade delas. Podemos questionar se isso já acontecia antes e simplesmente não sabíamos porque não tínhamos controle. Mas não tem como sabermos a resposta final”, declara.

Falta de financiamento contra vício é maior falha

Sob uma perspectiva demográfica, explica o professor, o perfil do apostador nos Estados Unidos é de homens de 18 a 45 anos. Assim, o consumidor procurado pelas apostas é o mesmo que atrai as ligas esportivas, em especial a parcela jovem.

Segundo o pesquisador, as ligas estão “desesperadas” para alcançar consumidores mais jovens, e nesse caminho encontram as apostas esportivas, que também tentam atraí-los “mais do que qualquer outro segmento da população”.

“Do ponto de vista do marketing, as ligas esportivas veem os homens jovens como um grupo demográfico muito importante que gostariam de conquistar”, avalia. 

Questionado por Opera Mundi como o público espectador vê as apostas nos jogos que assiste, o pesquisador disse acreditar que a maioria das pessoas se incomoda com a quantidade de anúncios sobre o tema. Ao mesmo tempo, essa grande parcela demonstraria “não entender” o porquê das apostas serem consideradas ilegais antes de 2018, uma vez que “estavam acontecendo em todos os lugares de qualquer maneira”. Mesmo assim, ele considera ser improvável que a maioria das pessoas prefira voltar à situação em elas eram proibidas.

Por outro lado, ele pontua que os espectadores defendem uma “melhor proteção ao consumidor” com “menos publicidade e melhor controle em torno da proteção dos dados consumidores, particularmente aqueles com tendências ao vício do jogo”. 

Holden diz isso porque a legalização das apostas esportivas “realmente negligenciou o financiamento para o problema do vício”. Para ele, a legalização “cria oportunidades, reconhece os riscos e danos, mas não fornece financiamento para os problemas de saúde”. “Essa foi, provavelmente, a maior falha” de todo o processo, avalia.

Salários milionários não impedem atletas de apostarem

Diante de um mercado regulamentado, mas que ainda apresenta falhas que levam tanto à má experiência dos espectadores quanto aos escândalos nas grandes ligas esportivas, Holden afirma que, apesar de ser “impossível eliminar toda a corrupção”, há medidas para diminuí-la.

Em sua opinião, primeiramente a NBA, NFL, NHL e MLB “precisam reconhecer que o fato de seus atletas ganharem salários milionários não os impede de agir contra as regras”. “Por que alguém que ganha três milhões de dólares (R$ 16,5 milhões) arriscaria tudo por cinco mil dólares? [como no caso do Cleveland Guardians]. Não acho que seja necessariamente um ato racional. Pensar que eles estão agindo racionalmente é um grande erro”, avalia.

O professor de Indiana também mencionou a importância de “melhorar a educação” dos atletas porque “o que está sendo feito, não está passando a mensagem”. “Isso precisa mudar e precisa ser comunicado de uma maneira eficaz”, afirma, ao reconhecer que as ligas já estão “gastando muito dinheiro” tentando descobrir como fazer isso.

Neste sentido, Holden defende mecanismos já existentes como a emissão de alertas quando atletas tentam fazer apostas. Por outro lado, complementa, a criação de proteção para denunciantes, quando as apostas são feitas fora do mercado regulamentado, é essencial.

“Precisamos estar cientes de que existem dois mercados. O regulamentado, no qual estamos muito bem protegidos com verificações, algoritmos e monitoramento de alta tecnologia, e o não regulamentado. É preciso implementar a proteção aos denunciantes para que possam revelar informações”, afirma.

Segundo Holden, no mais recente escândalo na NBA, se “alguma das pessoas envolvidas tivesse se manifestado, com proteção, talvez parte de tudo isso pudesse ter sido evitada”.