O atacante francês Kylian Mbappé, do Real Madrid explicou nesta quarta-feira (16/09) por que decidiu não exibir a camisa de apoio à cidade espanhola de Ceuta durante uma partida realizada no dia anterior contra o Elche, pela Liga Espanhola de futebol. A postura foi adotada tanto por ele quanto pelo brasileiro Vinícius Júnior e o também francês Ibrahima Konaté.
A camiseta fazia parte de uma campanha promovida por empresários espanhóis e trazia uma inscrição dizendo “Todos somos caballas”, expressão usada para se referir aos habitantes da cidade de Ceuta.
Ao entrar em campo, Mbappé, Vinícius Júnior e Konaté mantiveram a camiseta enrolada na altura do peito, impedindo a leitura completa da mensagem. Em seguida, retiraram a peça antes do cumprimento entre as equipes.
Em sua declaração, Mbappé disse prestar “toda a solidariedade a Ceuta”, mas que não queria “estabelecer uma hierarquia entre os diferentes sofrimentos envolvidos na crise migratória da região”.
“Tenho toda a solidariedade com Ceuta e com todas as vítimas. Antes de ser jogador, sou humano”, enfatizou o atacante francês, em entrevista ao jornal espanhol AS.
A campanha foi lançada após a crise migratória registrada em Ceuta no fim de julho deste ano, quando mais de 70 mil pessoas atravessaram irregularmente a fronteira a partir do Marrocos. O episódio provocou uma série de manifestações de apoio à população da cidade em diferentes partes da Espanha.
A campanha “Todos somos ceutenses” foi criada pela Associação Valenciana de Empresários (AVE) em 11 de setembro como uma manifestação de solidariedade à população de Ceuta após o episódio. Segundo a entidade, o objetivo era “estar perto de Ceuta e de todos os ceutenses”.
Além da frase “Todos somos ceutenses”, a camisa utilizada pelos jogadores trazia a mensagem “Ceuta e seus cavaleiros do mar”. A expressão faz referência à Companhia do Mar, unidade militar espanhola historicamente ligada à defesa de Ceuta e criada em 1415.

A referência provocou críticas à campanha. Para seus críticos, a associação entre a identidade de Ceuta, a defesa militar da cidade e a crise migratória pode contribuir para discursos ultradireitistas que apresentam a chegada de imigrantes como uma espécie de “invasão” ao território.
A mídia espanhola Woke Up levantou hipóteses sobre as razões que podem ter levado Mbappé, Vinícius Júnior e Konaté a não exibirem integralmente a mensagem da camiseta.
Segundo a publicação, os três jogadores podem ter percebido como a situação de Ceuta vem sendo utilizada para alimentar discursos de demonização de pessoas migrantes. A análise também relaciona o gesto às experiências dos atletas com o racismo e à percepção de uma crescente desumanização de pessoas negras e muçulmanas em nome de uma suposta defesa da Espanha.
Além disso, outra possibilidade levantada pelo periódico é que os jogadores estejam incomodados com a forma como parte do debate público sobre a chegada de migrantes a Ceuta vem sendo conduzida. Nesse contexto, as manifestações de Javier Tebas, presidente de LaLiga, que declarou apoio à cidade, afirmando que “Ceuta é Espanha. Ceuta é nossa” e que “Ceuta não se vende. Ceuta se defende”.
Após o gesto dos jogadores, Tebas também criticou a decisão de Mbappé, Vinícius e Konaté de não exibirem integralmente a camiseta.A publicação também considera que os atletas podem estar cansados da cobrança para que sejam constantemente “impecáveis”, tanto no âmbito esportivo quanto pessoal, para receberem o mesmo respeito destinado a seus companheiros brancos.
No enatnto, as hispóteses não foram confirmadas pelos jogadores. Até o momento, Mbappé foi o único dos três a explicar publicamente seu gesto, afirmando que queria demonstrar solidariedade tanto aos moradores de Ceuta quanto aos imigrantes afetados pela crise.
A repercussão da atitude também gerou críticas na Espanha, com manifestações que chegaram a pedir a expulsão dos jogadores do país. Por sua vez, o Real Madrid, afirmou respeitar a decisão individual dos atletas.