O apoio conquistado por Donald Trump entre eleitores hispânicos na fronteira do Texas em 2024 dá sinais de forte erosão a pouco mais de um mês das eleições legislativas dos Estados Unidos. Moradores do Vale do Rio Grande que votaram no republicano relatam forte frustração com a política de deportações e com a situação econômica, segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (30/09) pelo New York Times.
A região teve papel importante na mudança do voto hispânico. Em 2024, Trump conseguiu ampliar de forma expressiva o apoio republicano no sul do Texas, tradicionalmente associado aos democratas. Agora, entrevistas realizadas pelo jornal em cidades como McAllen, Brownsville, San Benito, Hidalgo e Mission mostram antigos apoiadores dizendo que se sentem abandonados pelo governo.
Entre eles está Jessica Cantu Vuittonet, proprietária de uma cafeteria em San Benito, que votou pela primeira vez em 2024 e escolheu Trump. Ela apoiava o endurecimento da fronteira, mas afirma que acreditava que as deportações seriam dirigidas principalmente contra pessoas envolvidas em crimes graves. A percepção mudou depois que seu irmão foi levado para um centro de detenção migratória.
“Eles me traíram, viraram as costas para nós”, afirmou Vuittonet ao jornal. A eleitora, que chegou a participar dos chamados “Trump trains”, as caravanas de veículos de apoiadores do republicano, diz que não pretende votar nas eleições deste ano. Segundo ela, a confiança nos partidos foi rompida.
Nesta terça-feira (29/09), o governo deu uma nova escalada na política migratória, permitindo que as pessoas sejam deportadas para países terceiros que não necessariamente sejam os seus países de origem.
O NYT também ouviu relatos de empresários da construção civil no Texas. Eles contaram dificuldades para encontrar trabalhadores desde a escalada das ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), o que levou ao aumento dos prazos e custos das obras. Segundo eles, projetos que antes levavam cerca de três meses chegam agora a permanecer quase um ano sem conclusão.
Benny Melendez, empresário do setor que votou em Joe Biden em 2020 e mudou seu voto para Trump em 2024, afirma que também foi atingido pelas tarifas impostas pelo governo e que se antes, ele administrava simultaneamente a construção de dez casas; agora, cuida de apenas quatro. “Você tira pessoas que estão contribuindo para a sociedade e não há ninguém para substituí-las. Meu círculo, minha família, nós nos sentimos traídos por isso”, afirmou.
Segundo New York Times, mesmo entre setores conservadores há pedidos para que o governo recue. O pastor Luis Cabrera, que anteriormente mobilizou sua congregação para votar em candidatos republicanos, passou a pressionar pela redução das operações migratórias e por algum tipo de regularização para trabalhadores que vivem há décadas no país.
Sua preocupação agora é impedir que eleitores evangélicos hispânicos simplesmente desistam de votar. “São tantas pessoas que, pela primeira vez, mudaram de partido para votar em vocês”, afirmou Cabrera ao relatar o alerta que tem feito aos republicanos. “Agora vocês estão atacando tudo o que elas amam”, afirmou.

O desgaste aparece também nas pesquisas. Levantamento do Cook Political Report e da Televisa Univision apontou que 18% dos eleitores hispânicos do Texas que votaram em Trump em 2024 desaprovam atualmente seu governo. Entre os hispânicos do estado, 61% têm avaliação desfavorável do ICE.
Quase dois terços afirmaram ainda que teriam menor probabilidade de apoiar um candidato favorável à política de deportações de Trump.
A economia aparece, porém, como a principal preocupação desse eleitorado: 29% dos entrevistados apontaram questões econômicas como determinantes para seu voto, ante 15% que citaram imigração ou ICE.
No mesmo levantamento, os democratas aparecem com vantagem de 53% a 39% entre eleitores hispânicos dos três distritos do Vale do Rio Grande incluídos na pesquisa.