EUA vivem ‘momento turbulento’ para democracia, afirma advogada da NAACP
Kristen Clarke, da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, campanha prejudica voto de eleitores negros, pardos e de minorias étnicas no sul do país
O Parlamento estadual da Louisiana aprovou na noite desta terça-feira (12/05) um novo mapa distrital que poderá garantir ao Partido Republicano mais uma cadeira na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas próximas eleições legislativas. A mudança ocorre após a Suprema Corte dos Estados Unidos invalidar o mapa eleitoral do estado que havia criado um segundo distrito congressional de maioria negra.
Com a medida, a Justiça norte-americana invalidou um dispositivo da Lei dos Direitos de Voto (Voting Rights Act) de 1965, a chamada Seção 2, que permite a intervenção dos tribunais quando mapas eleitorais prejudicam desproporcionalmente eleitores negros e outras minorias em algum estado norte-americano.
Segundo Kristen Clarke, conselheira-geral da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), a decisão “devastadora da Suprema Corte no caso Louisiana v. Callais realmente virou nosso país de cabeça para baixo”. Em entrevista ao Democracy Now!, ela analisa esta e outras ações sob a administração Trump que estão ameaçando o direito de voto, em particular da população negra, neste ano de eleições legislativas.
Em sua avaliação, “sem dúvidas, há uma verdadeira campanha coordenada em curso por parte desta administração para impedir o voto de certos eleitores, incluindo eleitores negros, pardos e de outras minorias étnicas”. Para Clarke, dada a história de discriminação racial nos Estados Unidos, particularmente no Sul profundo do país, “não é surpreendente” ver legisladores “correndo a passos largos para erradicar as conquistas obtidas ao longo das décadas”.
A advogada, que atuou como procuradora-geral adjunta para direitos civis no Departamento de Justiça durante o governo Biden, também relata que, sob Trump, o órgão tornou-se “uma sombra do que já foi”.
“A Divisão de Direitos Civis, que antes era a joia da coroa do Departamento de Justiça, agora não se dedica mais a proteger as comunidades mais vulneráveis do país”, afirmou.

EUA vivem ‘momento turbulento’ para democracia, afirma advogada da NAACP
Matt H. Wade / Wikipedia Commons
Tennessee, Alabama e Virgínia
O direito ao voto também sofreu abalos no Tennessee, onde o governador Bill Lee sancionou uma lei que elimina o único distrito de maioria negra do estado. Memphis, cidade com maior população negra do estado, é historicamente marcada pelo assassinato de Martin Luther King Jr. e considerada o berço da Ku Klux Klan. “Temos uma enorme dívida com o povo do Tennessee”, destacou Clarke, ao lamentar a decisão.
Ela também alertou para outro golpe aos direitos eleitorais no Alabama, onde a Suprema Corte autorizou legisladores republicanos a avançarem com um novo mapa que pode extinguir um distrito atualmente representado por um democrata negro. “É devastador ver o Alabama retrocedendo”, afirmou.
Outro caso citado é o da Virgínia, onde foi derrubado um novo redistritamento que poderia ampliar em quatro cadeiras a bancada democrata nas eleições legislativas de novembro. Com a medida, foram anulados os votos de mais de 3 milhões de eleitores. “Estamos dando cem passos para trás na democracia norte-americana neste momento”, avaliou a advogada.
Clarke, que também foi presidente do Comitê de Advogados para os Direitos Civis, lembrou que os estados do Sul dos Estados Unidos carregam um “histórico estrutural de discriminação racial e de pobreza”. Nesses estados, a Lei dos Direitos de Voto provou “ser a única ferramenta que ajudou a abrir as portas da democracia, dando aos eleitores negros uma oportunidade justa de eleger os candidatos de sua escolha”, apontou.
























