Grandes corporações fornecem base tecnológica e financeira para operações do ICE
Operações anti-imigração conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, a mando do governo Trump, são sustentadas por empresas como Amazon, Palantir, Citizens Bank e AT&T
As operações anti-imigração em larga escala conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) estão sendo sustentadas pelo apoio logístico e tecnológico de grandes corporações norte-americanas.
A morte de Alex Pretti no último sábado (24/01) foi o mais recente de uma série de incidentes violentos e fatais envolvendo agentes federais que participavam de uma operação do ICE em Minneapolis. Segundo informações do Popular Information, poucas horas após a morte de Pretti, o CEO da Amazon, Andy Jassy, estava na Casa Branca para uma exibição de Melania, um documentário produzido pela primeira-dama Melania Trump.
Quando Jassy e outros convidados chegaram, uma banda militar tocou A Valsa de Melania, uma peça composta especificamente para o filme. Os presentes foram servidos com pipoca em caixas comemorativas em preto e branco por garçons de luvas. Segundo informações, a Amazon pagou US$ 59 milhões (R$ 325 milhões) pelos direitos do projeto, com a maior parte do valor indo diretamente para Melania Trump. De acordo com o especialista do setor, Matt Belloni, a Amazon está investindo mais US$ 35 milhões (R$ 185,5 milhões) na promoção do filme.
Apesar do orçamento gigantesco, a Amazon optou por não compartilhar o filme com os críticos antes do lançamento. Embora seja quase certo que o projeto resultará em um prejuízo de dezenas de milhões de dólares para a empresa, o gasto é visto como um custo calculado para manter o apoio do presidente Donald Trump e de seu governo.
Parceria entre Amazon e Palantir
A Amazon detém bilhões de dólares em contratos governamentais e fornece grande parte da infraestrutura tecnológica para os esforços de vigilância e deportação do ICE. A Amazon Web Services (AWS) hospeda o banco de dados de Gerenciamento de Casos Investigativos (ICM, na sigla em inglês), uma ferramenta usada pelo ICE para identificar e deportar imigrantes.
Desenvolvido pela Palantir, o ICM integra um vasto ecossistema de dados públicos e privados para rastrear indivíduos. Esses dados incluem histórico de imigração, laços familiares, conexões pessoais, endereços, registros telefônicos e identificadores biométricos. A AWS recebe milhões de dólares anualmente do governo federal para hospedar o ICM por meio de sua parceria com a Palantir.
Em abril passado, o governo Trump concedeu à Palantir um novo contrato de US$ 30 milhões (R$162 milhões) para desenvolver o “ImmigrationOS”, uma ferramenta avançada projetada para reforçar ainda mais as capacidades de deportação do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA). Analistas do setor sugerem que o ImmigrationOS provavelmente roda na AWS, dada a parceria estratégica entre as duas empresas.
Além disso, a AWS hospeda um sistema de vigilância massivo para o Departamento de Segurança Interna (DHS), órgão ao qual o ICE está subordinado. Conhecido como Sistema Avançado de Tecnologia de Reconhecimento de Dados Internos (HART, na sigla em inglês), esse programa de US$ 6 bilhões (R$ 32,4 bilhões) foi projetado para armazenar os dados pessoais e biométricos de mais de 270 milhões de pessoas, incluindo 6,7 milhões de escaneamentos de íris e 1,1 bilhão de imagens faciais.
Em uma carta de 2022 endereçada à Amazon, críticos argumentaram que, ao hospedar o banco de dados HART, a AWS estava facilitando diretamente a criação de um sistema biométrico invasivo que alimenta a vigilância e leva a violações dos direitos humanos. Apesar dos apelos para que a Amazon retirasse seu apoio ao banco de dados enquanto ele ainda estava em desenvolvimento, a empresa permaneceu em silêncio.

Desde retorno de Trump à Casa Branca, número de imigrantes detidos sob custódia do ICE aumentou drasticamente
Official White House Photo by Molly Riley
Quando funcionários da Amazon pressionaram o então CEO Jeff Bezos a romper relações com o ICE em 2018, ele defendeu a posição da empresa. “Não existe outro país onde todos queiram entrar. Eu os deixaria entrar. Eu os amo, eu os quero todos aqui”, disse Bezos na época. “Mas este é um grande país e precisa ser defendido”.
Essa postura contrasta fortemente com o site corporativo da Amazon, que afirma que a empresa apoia refugiados e imigrantes por razões humanitárias porque “compreende os desafios que eles enfrentam nos EUA”. Em novembro de 2025, a Amazon anunciou um investimento de US$ 50 bilhões (R$ 270 bilhões) para expandir seus serviços de nuvem e inteligência artificial para o governo federal. O ICE e agências relacionadas estão em uma posição privilegiada para garantir que a Amazon obtenha retorno sobre esse investimento. No ano passado, Trump sancionou um projeto de lei orçamentária gigantesco, destinando mais de US$ 170 bilhões (R$ 901 bilhões) para segurança interna e de fronteiras ao longo de um período de quatro anos.
Citizens Bank
Desde o retorno de Trump à Casa Branca para um segundo mandato, o número de imigrantes detidos sob custódia do ICE aumentou drasticamente. De menos de 40 mil em janeiro de 2025, a população carcerária subiu para mais de 73 mil atualmente. Esse aumento repentino gerou uma demanda enorme para que empresas de prisões privadas, como a GEO Group e a CoreCivic, construam novos centros de detenção.
Em 2019, diversas grandes instituições financeiras — incluindo JPMorgan Chase, Wells Fargo, Bank of America, SunTrust, BNP Paribas e Fifth Third Bancorp — prometeram interromper suas relações com a indústria de prisões privadas. Embora o Bank of America e o SunTrust tenham, desde então, suavizado suas posições políticas para fornecer refinanciamento a empresas de detenção em determinados casos, o Citizens Financial Group, que opera o Citizens Bank, continuou financiando diretamente a construção de prisões privadas.
Em julho de 2025, o Citizens concedeu uma linha de crédito rotativo de US$ 450 milhões (R$ 2,38 bilhões) ao GEO Group. Essa medida seguiu-se a uma ação anterior, em março de 2025, quando o Citizens emitiu US$ 500 milhões (R$ 2,65 bilhões) em títulos para a CoreCivic. Em seu site, ao Citizens afirma estar “comprometido em fortalecer as comunidades” e em trabalhar para “promover a equidade social”.
AT&T
Em setembro de 2024, a AT&T assinou um contrato de 10 anos, no valor de US$ 147 milhões (R$ 779,1 milhões), com o Departamento de Segurança Interna (DHS) para fornecer “serviços de comunicação de missão crítica”. O acordo garante ao ICE e a outras agências do DHS “prioridade de voz de ponta a ponta” na rede comercial sem fio da AT&T. Em agosto, o governo Trump concedeu à AT&T um contrato de fornecimento exclusivo, no valor de US$ 11 milhões (R$ 58,3 milhões), para fornecer “serviços de análise e suporte de dados” especificamente para o ICE.
A AT&T comercializou a FirstNet, sua rede dedicada a socorristas, para o governo federal, destacando sua capacidade de usar “fotos, transmissões de voz/vídeo em tempo real e outros bancos de dados de agências estaduais, locais ou federais” para auxiliar na identificação de imigrantes indocumentados.
A Política de Direitos Humanos da AT&T, atualizada pela última vez em agosto de 2025, afirma que a empresa tem como objetivo “não ser cúmplice de violações de direitos humanos”. A política enfatiza ainda que “todas as pessoas, independentemente de sua condição ou circunstâncias, merecem a dignidade e a liberdade que as proteções de direitos humanos garantem”.
Em novembro passado, ativistas em Chicago acusaram a AT&T de “embolsar dinheiro público” do ICE, uma agência que, segundo eles, “aterroriza o público com agentes mascarados e não identificados que operam sem mandados de busca”.
























