Terça-feira, 3 de março de 2026
APOIE
Menu

Em meio aos arquivos divulgados recentemente pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre Jeffrey Epstein, mais especificamente entre os e-mails enviados pelo financista e criminoso sexual falecido em 2019, há um documento com remetente censurado e dirigido a ele, que poderia vinculá-lo ao Brasil.

A mensagem identificada como EFTA02706746 e com data de 13 de fevereiro de 2013, traz, na forma como aparece na base pública, a frase: “Nova brasileira acaba de chegar, sexy e linda, 9 anos de idade” (“New Brazilian just arrived, sexy and cute, =9yo”).

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

A referência, se corresponder ao conteúdo original, aponta para um possível vínculo com o Brasil da rede de exploração sexual infantil associada a Epstein.

Detalhes não ocultados do cabeçalho do e-mail identificam que a mensagem partiu de uma conta configurada em francês (“Envoyé: jeudi 7 janvier 2013, 17:22”) e incluía quatro anexos de imagem (JPG) – que, nesse contexto, poderiam ser fotos da “nova brasileira, sexy e linda”. No entanto, o nome do remetente foi censurado pelo Departamento de Justiça e os arquivos de imagem não foram publicados.

Mais lidas

O teor do e-mail motivou parlamentares dos Estados Unidos, como Ro Khanna e Thomas Massie, a solicitar reunião com o vice-procurador-geral Todd Blanche para questionar a extensão das redações aplicadas ao documento – em especial, a ocultação da identidade do remetente. Eles criticaram a falta de transparência nas publicações do Departamento de Justiça e levantaram dúvidas sobre a base legal para manter em sigilo nomes de adultos potencialmente ligados à rede de exploração sexual e tráfico humano associada a Epstein, inclusive em documentos que mencionariam possível vítima menor de idade. A redação de documentos só é admitida legalmente em hipóteses excepcionais – como para proteger a identidade de vítimas ou por razões estritas de segurança nacional.

A Lead Stories, agência de checagem ligada ao ecossistema do Vale do Silício, alega que a leitura “=9” poderia resultar de erro técnico de “conversão” – isto é, da transformação automática do PDF/imagem em texto pesquisável (OCR) – no qual “19” teria sido convertido em “=9”. Essa hipótese é auditável a partir do arquivo original, dos metadados e da documentação técnica do processo de conversão. No entanto, até o momento, não há informação pública clara de que o Departamento de Justiça tenha produzido ou divulgado metadados ou documentação técnica que demonstre, de forma verificável, o suposto original com “19”.

De acordo com seu relatório de financiamento de 2019, a Lead Stories recebeu US$ 359 mil do Facebook para checagem de conteúdo da própria plataforma, embora se apresente como “autofinanciada e independente”.

Contato francês

A expressão “nova brasileira” no e-mail reforça um ponto já indicado por investigações nos Estados Unidos e na França sobre Epstein: redes de tráfico e aliciamento de menores operaram no Brasil sob o pretexto de “recrutamento de modelagem”, com destaque para a atuação do francês Jean-Luc Brunel.

De acordo com testemunhos em processo judicial na Flórida, Brunel fundou a agência de “modelos” MC2 com apoio financeiro de Epstein, que teria sido utilizado como meio de aliciamento de jovens.

A agência de Brunel no Brasil parecia atuar principalmente no Ceará – um dos epicentros mundiais da exploração sexual infantil. Os arquivos registram que pelo menos duas menores, entre 13 e 15 anos, foram aliciadas pelo francês para Epstein.

Brunel foi encontrado morto em sua cela na prisão de La Santé, em Paris, em 19 de fevereiro de 2022, com a morte classificada como suicídio por enforcamento, enquanto aguardava julgamento pelas acusações de estupro, agressões sexuais contra menores, assédio sexual, associação criminosa e tráfico de menores ligados a Epstein.

Os arquivos do caso Epstein também revelam dezenas de e-mails entre Ramsey Elkholy e o financista discutindo o recrutamento de mulheres brasileiras. De acordo com o The Wall Street Journal, Elkholy é um músico que trabalhava como recrutador para Epstein.

Mensagens enviadas a Epstein fazem alusão a possível vínculo do financista com atividades no Brasil
Reprodução / Departamento de Justiça dos EUA

Em um dos e-mails, Elkholy pede ajuda do empresário para levar “uma garota brasileira (com visto americano) para Nova York” e, sem ambiguidade, “colocá-la na minha cama”. Ele pergunta se Epstein teria contato com alguém ligado à “VS” (provável referência a Victoria’s Secret, comumente usada no jargão da indústria da moda) – por exemplo, um fotógrafo – para fazer um “teste fotográfico” ainda que isso não levasse a contrato algum. O e-mail indica que esse pretexto profissional seria indispensável para aliciar a garota e termina pedindo alternativas igualmente “relacionadas à modelagem” para viabilizar a viagem.

Os documentos do acervo descrevem uma rede internacional inequívoca de exploração sexual e recrutamento de jovens, com menções recorrentes a pessoas, intermediários e estruturas que aparecem com seus nomes, em grande parte, censurados. Vídeos do acervo mostram Epstein recrutando garotas, dançando e posando para ele em seu escritório.

Diante das revelações das atividades de Epstein no Brasil, o Ministério Público brasileiro pode requerer, por meio do Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal Brasil–EUA (MLAT), promulgado no Brasil pelo Decreto nº 3.810/2001, o fornecimento do original e dos elementos técnicos dos documentos aos Estados Unidos que indiquem indícios de organização criminosa associada a Epstein e a seus associados no agenciamento, aliciamento, recrutamento, transporte ou acolhimento de mulheres e crianças brasileiras.

A publicação recente, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de 3,5 milhões dos 6 milhões de documentos dos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein ocorreu em cumprimento ao Epstein Files Transparency Act (Lei de Transparência dos Arquivos Epstein), sancionado pelo presidente Donald Trump em 19 de novembro de 2025, após o projeto ser destravado na Câmara por meio de uma “discharge petition”.

A lei foi aprovada na Câmara com 427 votos a favor e somente um contra e passou no Senado por unanimidade – margem que tornou o veto do presidente Donald Trump juridicamente ineficaz e politicamente difícil, resultando na sua divulgação.

Esse lote abrange os casos de Epstein na Flórida e em Nova York, o julgamento de Ghislaine Maxwell, a investigação sobre a morte de Epstein e apurações do FBI. O material está hospedado no site do Departamento de Justiça e inclui mais de 2 mil vídeos e 180 mil imagens.

Epstein foi encontrado morto em 2019 sua cela sob custódia federal, em Nova York, com a morte registrada oficialmente como suicídio por enforcamento, enquanto aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual de menores, com alegações de que explorou e abusou sexualmente de dezenas de meninas e recrutou intermediários para facilitar o esquema.

 

Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD), em matérias relacionadas ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres.