O que já se sabe sobre as menções ao Brasil nos arquivos de Epstein
Documentos já divulgados mostram financista aliciando meninas para sua rede de tráfico sexual e buscando contato com empresários e políticos de direita
“Nova brasileira acaba de chegar, sexy e doce, nove anos”. Esta é uma das mensagens do pedófilo Jeffrey Epstein, ao selar o destino de mais uma criança, entre as milhares de menores aliciadas por ele para divertir bilionários, enquanto ampliava sua influência, a partir das festas na Little Saint James, sua ilha no Caribe.
Em cerca de 3,5 milhões de páginas dos arquivos do Departamento de Justiça (DOJ) norte-americano, divulgadas no final de janeiro, após meses de pressão pela liberação sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Brasil aparece em quatro mil menções.
Parte delas mostram como o predador sexual agia para aliciar meninas no país. Outra parte tem a ver com documentos, relatórios e e-mails que informam a situação política e econômica brasileira, indicando que o financista acompanhava de perto a conjuntura do país, ao qual viajava, com frequência.
Ao longo das últimas semanas, várias reportagens, na mídia nacional e internacional, buscam reconstruir o roteiro de Epstein no Brasil, a partir de seus arquivos. Opera Mundi traz uma síntese desse material, destacando que pouco mais da metade desses arquivos foi liberada, de um total de 6 milhões de páginas em posse das autoridades norte-americanas.
‘Tapa na cara’
Não se sabe ainda o número total das vítimas brasileiras da rede de Epstein. Marina Lacerda, uma das adolescentes abusadas, mencionou cerca de 50 menores do país. Nos arquivos, um depoimento dado ao FBI, em 2 de maio de 2019, cita a existência de “um grande grupo brasileiro”. As meninas eram levadas aos Estados Unidos com passagem e vistos financiados pelo criminoso, conforme indicam os e-mails, cujos nomes dos remetentes e das vítimas encontram-se tarjados.
Lacerda considerou a forma como esses material foi divulgado como “um tapa na cara” das vítimas. “Estávamos todos animados ontem, antes da divulgação dos arquivos. E quando eles saíram, ficamos em choque e vimos que não havia nada de transparente ali. É muito triste, é muito decepcionante”, afirmou em entrevista à Sky News. O DOJ sustenta que as tarjas foram usadas como forma de proteção. O material pode ser acessado facilmente, tanto no site do DOJ, quanto no ‘jmail’, uma interface construída para facilitar as buscas.
A brasileira foi uma das principais testemunhas nas investigações do FBI, em 2018, que levaram Epstein para a cadeia. Em várias entrevistas, ela contou como as meninas eram aliciadas e levadas à mansão de Epstein em Palm Beach, onde se viam obrigadas a manter relações sexuais com ele. “Pelo que sei, [o número de vítimas] é superior a mil, mas isso é apenas o que o Departamento de Justiça ou o FBI conseguem coletar, e presumo que possa haver mais do que isso”, afirmou à TV britânica.
‘Nem latinas, nem negras’
As tarjas, no entanto, não escondem a existência de intermediários no país que conseguiam meninas para o financista norte-americano. Em um dos arquivos, recuperado pela BBC News, um depoente afirma ao FBI que Epstein “não queria latinas, nem garotas negras”, relatando o caso de uma menina de “aparência amazônica” levada aos Estados Unidos, quando eles ficaram “sem garotas”.
Em outro trecho, o mesmo delator afirma que Epstein estava “apaixonado” por uma criança brasileira de 13 anos e que havia falado sobre fazer um esboço ou pintura da vítima. Ele, inclusive, costumava pedir a identidade das meninas para se certificar de que eram menores.
Um depoimento em junho de 2010, à Justiça da Flórida, também trazido pela BBC News, menciona os serviços de uma “agente mãe”, uma “amiga muito boa” de Epstein, que lhe fornecia meninas e mulheres quando ele estava no Brasil. A intermediadora trabalharia para o francês Jean-Luc Brunel, agente de modelos preso por tráfico de mulheres na França, em 2020.
Pelo menos quatro garotas do Brasil, segundo este depoimento, foram levadas por Brunel à casa do predador sexual para uma festa. Duas tinham entre 13 e 15 anos. “Jeffrey Epstein tem todo aquele dinheiro, ele podia calar todo mundo”, afirma a depoente.
Assim como Epstein em 2019, Brunel também se enforcou na prisão, em 2022. Ele foi cofundador de uma agência de modelos criada em 1977, a Karin Models; e depois da MC2 Models Management, em 1999, com financiamento do bilionário.

Arquivos de Epstein incluem mais de 4 mil menções ao Brasil
Departamento de Justiça dos EUA / EFTA 3388
Expedição de Brunel
A Agência Pública publicou uma longa apuração sobre uma viagem de Brunel a capitais no Sudeste, Sul e Nordeste, à procura de meninas, meses antes do financista ser preso, em 2019. A reportagem relata sua tentativa de aliciar uma menina de 13 anos. Ele chegou a visitar a família de uma jovem, oferecendo um contrato em dólares e prometendo levar a garota para Nova York. Ao mencionar uma visita à Disney, a mãe da criança, por sorte, desconfiou. A reportagem destaca não haver menção a vítimas brasileiras no processo contra Brunel.
Reportagem do The Guardian, de agosto de 2019, também aponta que ele esteve no Brasil para “encontrar novas modelos para levar aos Estados Unidos”. Um repórter do jornal britânico chegou a ir em um dos seus apartamentos, onde relata ter sido recebido por uma jovem brasileira.
A Agência Pública, em outra reportagem, destaca a visita do francês à agência Mega Model Brasilia que, na época, postou nas redes a foto do francês com a legenda: “Brunel e sua equipe sempre serão bem-vindos à nossa casa”. Nivaldo Leite, dono da agência, afirmou à BBC News Brasil afirmando que não teve contato posterior com o agente de Epstein.
“Ele apenas foi na agência fazer uma visita e conhecer nossa estrutura”, disse, reiterando, “certeza absoluta”, que nenhuma modelo da empresa viajou ou fez contato com o criminoso depois. “Não sabia nem de relações dele e nem desta pessoa [Epstein] que está me perguntando. Não conversei absolutamente nada com ele com viés pessoal”, acrescentou.
Ramsey Eklholy
Outro nome que demanda fortes investigações do Ministério Público brasileiro é Ramsey Elkholy, citado pelo The Wall Street Journal, como “um antropólogo e músico que se apresentava como olheiro de modelos e apresentou várias mulheres a Epstein”.
Elkholy levou várias mulheres à casa do bilionário. Seu advogado afirmou ao jornal que o músico não sabia da extensão das atividades criminosas do financista. “Na época, ele não percebeu que Epstein era um manipulador e predador sexual”, disse.
“Meu cliente estava deslumbrado com a presença de Epstein e das celebridades em seu círculo e tentou impressioná-lo… ele se arrepende profundamente de suas interações com Epstein”, acrescentou.
Os e-mails trocados entre ambos dão a dimensão do “deslumbramento”. Em outubro de 2016, destaca reportagem de O Globo, Elkholy encaminhou a Epstein um relatório sobre as três maiores agências de modelos do país: Elite, Ford Models e L’Équipe.
Em agosto de 2016, ele havia sugerido a compra da Ford Models. “Não tenho certeza se você quer ser dono de 100% de qualquer agência, a não ser que você encontre algum outro incentivo para manter as principais pessoas que estão lá gerenciando o negócio. Estou presumindo que você está mais interessado no acesso às…[emoji de uma garota loira]”, escreveu.
O CEO da agência, Decio Restelli Ribeiro, negou à Folha de S. Paulo qualquer contato com Epstein, disse que a empresa nunca esteve à venda e que tampouco recorda o episódio.
‘Garotas caipiras’
A compra das agências foi apenas uma das ideias da dupla. No mesmo e-mail de 2016, Elkholy sugere um concurso de modelos visando atrair “garotas caipiras e sem experiência”, com um investimento inicial de US$ 500 mil. “Eles basicamente vasculham o país e muitas garotas aparecem. Foi assim que eles descobriram a maioria das principais modelos brasileiras que fizeram sucesso em Nova York”, diz.
E acrescenta: “isso implicaria ter acesso a todas as garotas, com as quais você poderia decidir o que fazer”; ele ainda afirma: “você poderia basicamente levar essas garotas para qualquer lugar nos Estados Unidos (há uma agência brasileira que cuida dos vistos para os Estados Unidos), ou para Paris ou o Caribe”.
Outra proposta também surge na conversa: a de comprar uma revista de moda. “Se conseguirmos comprá-la por um preço baixo, você gostaria de comprá-la conosco? Todos os castings podem ser feitos em Nova York, então você poderia facilmente ter de 20 a 30 garotas tentando a capa todos os meses. É só uma ideia”, insiste Elkholy.
Um ano depois, ele afirma ter conseguido um acordo “ainda melhor”, dizendo ter um dos editores da revista “em seu bolso”. “Sempre que quero que eles fotografem uma garota, eu simplesmente dou a ele alguns milhares [não especifica a moeda, supõe-se que de dólares]. É muito mais barato assim… não ia dar lucro mesmo”, afirmou.
Controle emocional
Além das “negociações” dos corpos femininos, os e-mails evidenciam o controle emocional de Epstein sobre as meninas. A BBC News Brasil trouxe à tona várias mensagens escritas entre 2006 e 2012. Em um desses e-mails, enviado dias antes de sua prisão em 2008, o bilionário recebeu uma lista de nomes e e-mails de diversas modelos e empresários do setor.
Outra mensagem, trocada em 2012, indica o envio de dinheiro e um pedido dele para uma modelo ir à sua ilha no Caribe, demonstrando algum tipo de relacionamento entre eles, com mensagens afetuosas de ambos. Em outro caso, mensagens trocadas entre 2007 e 2010, expressam a aflição de uma moça em ter desapontado o financista: “acho que estava um pouco com medo ou preocupada… que um dia você não gostasse mais de mim e mandasse para casa”.
No corpo da mensagem, ela diz que Brunel teria dito a ela que Epstein costumava ficar com “costumava ficar com uma garota por pouco tempo”, e depois a mandava para casa. “Eu tinha certeza que se você se cansaria de mim mais cedo ou mais tarde”, diz e menina. Epstein responde à mensagem dizendo “não se preocupe” e, meses depois, pede que ela apresente amigas a ele.
Há ainda um caso, descrito em mensagens de 2010, sobre uma modelo desesperada, que pede a ajuda dele para pagar uma dívida de US$ 26 mil, relacionada a uma casa em Nova York. “Por favor, me ajude. Eu só quero trabalhar, fazer uma carreira e ir para o Brasil”, diz a moça. Ele responde afirmando que ela deveria dar algo em troca. E ela responde: “eu não conheço muitas garotas”.

Reportagens revelam contatos e negócios de Jeffrey Epstein no Brasil
Departamento de Justiça dos EUA / EFTA 3517
Alone ou Alana
Uma reportagem do jornal O Potiguar, do Rio Grande do Norte, destaca a presença de uma interlocutora em Natal, intitulada Alone (ou Alana) que manteve uma relação próxima e continuada com Jeffrey Epstein, incluindo intermediações com terceiros e recebimento de valores.
Em mensagem datada de 2009, a interlocutora informa a Epstein sobre o paradeiro de sua irmã, “minha irmã ainda está no Brasil”, respondendo o pedido do financista que a convida para ir a alguma atividade não explicitada na mensagem. “Você, sua irmã, uma amiga”, diz Epstein. Ela diz que irá pensar “em outras pessoas”.
Outras comunicações apontam que Alana apresentou contatos e intermediou aproximações entre Epstein e terceiros, inclusive referência a um “Andrew”. Ele também menciona a necessidade de que “Alexia fosse até seu escritório” prestar um serviço, sem especificar o objetivo do encontro.
O caso está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) de Natal e está conectado às trocas frequentes de e-mails entre Epstein e a brasileira entre 2009 e 2013, nas quais ela solicitava recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, e se comprometia em apresentar outras mulheres para o bilionário.
Investigações
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou uma investigação, que corre em sigilo, sobre a existência de uma rede de aliciamento de mulheres no país. O caso é conduzido pela Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes.
Reportagem do ICL e da BBC News Brasil revelam que o financista foi proprietário de um apartamento de 93 metros quadrados na Vila Olímpia, em São Paulo. O ICL, inclusive, destaca que o financista tinha um Cadastro de Pessoa Física (CPF), ainda ativo.
O apartamento comprado em 2003 por Epstein pertence, hoje, à modelo Ana Maria Gomes Macedo. A venda ocorreu em 2005. Nas mensagens, eles não mencionam o imóvel, mas revelam o auxílio financeiros de Epstein. Em julho de 2010, Macedo comemorou a saída do financista da prisão: “ótimo que você está de volta! Eu nunca vou esquecer tudo o que você fez comigo, meu amigo. Te amo”.
Além das pessoas possivelmente vinculadas à rede de prostituição de Epstein, outros brasileiros também aparecem nos documentos do predador sexual, mas sem qualquer vínculo com seus crimes. São empresários, políticos, personalidades que mostram a rede de influência que o financista buscava construir no país.
Silva e Mandelson
Entre eles está o nome de Reinaldo Ávila da Silva, marido do ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, Peter Mandelson, que foi acusado de passar informações sigilosas do governo britânico para Epstein, entre 2008 e 2010. Na época, o político era ministro no governo do premiê Gordon Brown.
Segundo a acusação, ele teria avisado previamente o financista sobre um pacote de € 500 bilhões articulado pela União Europeia para sustentar o euro. Um prato cheio para um agente do mercado financeiro.
Indicado em dezembro de 2024 para o alto posto de embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, quando seu nome surgiu nos arquivos, Mandelson foi destituído, em setembro de 2025, abandonando o Partido Trabalhista. O escândalo levou à queda, no domingo (08/02), do chefe-de-gabinete do premiê Keir Starmer, Morgan MacSweeney. Ele assumiu a responsabilidade pela indicação de Mandelson para o cargo e, por isso, pediu demissão.
A relação do caso com o Brasil, apontada em reportagem do Financial Times, se dá através de Reinaldo Ávila da Silva, marido de Mendelson, que recebeu dinheiro de Epstein, entre 2009 e 2010, para custear seus estudos de osteopatia, terapia que usa técnicas manuais para movimentar e alongar o corpo.
Em um dos vários e-mails ao brasileiro, Epstein confirma os pagamentos: “vou transferir o valor do seu empréstimo imediatamente”. Silva agradece. Em outra mensagem, o próprio Mandelson entra em cena: “você suspendeu permanentemente os empréstimos de Reinaldo?! Eu posso ter de colocá-lo para trabalhar nas ruas”.
O casal diz não se recordar dos empréstimos. Já o órgão regulador da profissão de osteopatia no Reino Unido garante que Silva não concluiu o curso.
Arthur Casas
Entre outros brasileiros citados nos arquivos, destacados em reportagem pela Folha de S. Paulo, está o arquiteto Arthur Casas, que detém escritórios em São Paulo, Nova York e Lisboa. Em janeiro de 2016, ele e outra arquiteta visitaram a casa de Epstein à ilha de Saint James. Em nota, Casas confirma ter recebido uma proposta para o desenvolvimento de um projeto arquitetônico relacionado a uma possível reforma na ilha.
“No contexto dessa abordagem inicial e em caráter estritamente preliminar, Arthur Casas realizou uma visita técnica, acompanhado de uma arquiteta que atuava como gerente de projetos internacionais”, diz o texto.
Apenas citados
Os arquivos de Epstein também trazem listas de contatos, notícias de imprensa, e-mails e vários outros documentos. Nessas listas, dada a atuação profissional do financista, surgem nomes como o de Mario Garnero Jr., fundador do Brasilinvest; e de Cecília Szalman, casada com Abram Szajman, atual presidente da Fecomércio-SP.
A BBC News Brasil também revela que o financista tentou se reunir com empresários brasileiros como Eike Batista e Jorge Paulo Lemann; e com o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Os três negam qualquer contato com Epstein.
Personagens da política brasileira, como Lula e Bolsonaro, são temas de conversas de e-mail, assim como a modelo Luma de Oliveira, quando Epstein pergunta a Brunel, se ela havia se casado com Eike Batista. De forma ainda mais indireta, surgiu o nome da apresentadora Luciana Gimenez, dentro dos registros que, sem qualquer seleção prévia, o Deutsche Bank forneceu ao governo norte-americano.
Cliente do banco, Gimenez viu seu nome exposto e, também, sua movimentação bancária de até US$ 12 milhões (R$ 62 milhões) a partir de sua conta de investimento para outra de pessoa física. Após ser notícia em vários perfis de redes sociais e em alguns sites de notícia, a apresentadoraa afirmou, em nota: “nunca conheci Jeffrey Epstein e jamais teve qualquer tipo de contato pessoal, profissional ou financeiro com ele”.
Elogios a Bolsonaro
O presidente brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023) aparecem de forma indireta, ou seja, citados por outras pessoas. No caso, por duas figuras internacionais ligados a extremos espectros políticos: o estrategista de extrema-direita Steve Bannon e o linguista e ícone da esquerda Noam Chomsky.
Essas conversas permitem acompanhar a visão política de Epstein e seu jogo duplo em busca de influência. Como destaca a BBC News, nas mensagens com Bannon, ele faz diversas menções elogiosas a Bolsonaro. Em 8 de outubro de 2018, afirma: “Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO”.
Eles também discutem a vinda de Bannon ao Brasil, naquele ano, para apoiar Bolsonaro. “Se você está confiante na vitória [de Bolsonaro], pode ser bom para sua marca se você fosse visto lá”, aconselha Epstein.
Outra mensagem revela um encontro, intermediado pelo financista, entre Bannon e Chomsky, no Arizona. Epstein aconselha Bannon a não mencionar Bolsonaro: “vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula”, diz, salientando que Chomsky é “uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política” com ele.
“Vou colocar vocês em contato por e-mail, para que possam se coordenar diretamente. Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados”, alerta Epstein. Bannon retruca: “diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno”; e Epstein responde: “Bolsonaro é de verdade” (“the real deal”).
Cavalo de Tróia

E-mail de Chomsky a Epstein
Departamento de Justiça dos EUA / JMail
Em meio a troca de mensagens, Epstein mente a Bannon, afirmando que Chomsky havia ligado para ele da prisão, ao lado de Lula, durante sua visita ao político brasileiro. A afirmação foi categoricamente negada tanto pelo Palácio do Planalto quanto pela esposa do intelectual.
Dois e-mails enviados por Chomsky a Epstein, inclusive, evidenciam a mentira. Neles, o acadêmico informa sobre a visita, o que, se Epstein tivesse participado, não faria sentido. “Conseguimos visitar Lula, o prisioneiro político mais importante do mundo, encarcerado pouco antes da eleição que ele provavelmente venceria na última etapa do golpe de direito que já dura vários anos. As acusações são ridículas”, escreve o intelectual, em dezembro de 2018.
No texto, Chomsky descreve as condições vividas pelo presidente Lula na prisão, onde permaneceu por 500 dias: “ele está em confinamento solitário, sem acesso a qualquer material impresso, com direitos de visita muito limitados, uma televisão sintonizada em um canal estatal e proibido de fazer qualquer declaração pública”, e lamenta “a falta de atenção dada a isso no mundo”, completamente alheio às intenções de Epstein e de seus elogios a Bolsonaro.
Valeria Chomsky, em carta sobre o caso, destacou que o financista se aproximou do casal, apresentando-se como um filantropo que apoiava a ciência e como um especialista financeiro. “Ao se apresentar dessa forma, Epstein despertou o interesse de Noam, e eles passaram a se corresponder. Sem perceber, abrimos a porta para um cavalo de Troia”, afirma.
























