O que se sabe sobre o acordo entre os EUA e a Otan envolvendo a Groenlândia
Acordo foi negado por dinamarqueses e não teve detalhes divulgados; Trump diz não ter interesse nos minerais e querer evitar que China e Rússia se aproximem da região
A participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial, na quarta-feira (21/01), teve como um dos focos a anexação da Groenlândia. Nas redes sociais, o republicano anunciou ter chegado a “estrutura de um futuro acordo” com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo território e retirou as ameaças militares de invadir a região.
O acordo, no entanto, não só foi negado por dinamarqueses, como também não tem detalhes divulgados. Trump disse que não tem o menor interesse nos minerais e na exploração de recursos naturais no que chamou de “pedaço de gelo”. Ele afirmou que a única questão envolvendo a Groenlândia é estratégica, evitando que China e Rússia se aproximem da região.
“Definimos a estrutura de um futuro acordo com relação à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico. Essa solução, se concretizada, será excelente para os EUA e para todas as nações da Otan. Com base nesse entendimento, não imporei as tarifas que entrariam em vigor em 1º de fevereiro”, afirmou Trump nas redes sociais.
Apesar dessa sinalização de arrefecimento da tensão, nesta quinta-feira (22/01), Trump voltou a ameaçar a Europa. Em entrevista à Fox News, o republicano ameaçou impor “grandes represálias” caso os países europeus comecem a vender títulos do Tesouro norte-americano, o que poderia pressionar os juros e aumentar o custo da dívida pública dos EUA.
E o acordo?
O único veículo que divulgou o desenho de um acordo até agora foi o The New York Times. Segundo a publicação estadunidense, a proposta da Casa Branca é fazer um modelo parecido com o que o Reino Unido tem no Chipre, com a soberania sobre pequenas áreas para a instalação de bases militares.
No caso cipriano, as regiões de Akrotiri e Dhekelia estão sob controle do Reino Unido desde a independência de Chipre, em 1960. De lá para cá, o acordo teve mudanças, mas a soberania sobre esses territórios continua sendo britânica.
A reação dinamarquesa sobre a divulgação desse acordo foi imediata. A deputada da Groenlândia no parlamento dinamarquês Aaja Chemnitz chamou a declaração de Trump de “absurda” afirmou e que a região não será negociada sem uma participação ativa dos moradores do território.
“O que estamos testemunhando hoje em dia nas declarações de Trump é completamente absurdo. A Otan não tem absolutamente nenhum mandato para negociar absolutamente nada sem a nossa presença na Groenlândia. Nada sobre nós, sem nós. Estão criando uma confusão total”, disse nas redes sociais.
Em seu discurso na Suíça, Trump retirou a ameaça de tarifas para aliados europeus que resistissem na anexação pelos EUA e disse que não usaria a força para discutir essa questão.

Apesar de sinalização de arrefecimento da tensão, Trump voltou a ameaçar a Europa
Official White House Photo by Daniel Torok
EUA x Otan
A tensão envolvendo os EUA e a aliança militar nos últimos dias se deu pela sinalização de Trump de que poderia invadir a Groenlândia para garantir a soberania sobre a região. O presidente chegou a dizer que já fez muito pela Otan e pela Dinamarca e nunca recebeu nada em troca.
As declarações ligaram o sinal de alerta já que a Dinamarca integra a organização. O tratado entre os países do bloco militar define que os países-membros têm a obrigação de atuar em caso de ataques contra um outro integrante. O problema é que os EUA também fazem parte da aliança e um conflito na Groenlândia poderia levar a uma escalada bélica sem precedentes.
A resposta se deu com o envio de uma missão militar da Otan para a Groenlândia. Com isso, Trump também ameaçou impor tarifas de até 25% a oito integrantes da Otan por apoiar a Dinamarca, incluindo Reino Unido, Alemanha e França. O presidente francês Emmanuel Macron havia pedido à União Europeia para “usar” suas ferramentas comerciais para responder. Os líderes do bloco se reuniram na quinta-feira (23/01) em Bruxelas, em uma cúpula de emergência.
Macron prometeu na terça-feira (20/01) enfrentar os “valentões”, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que daria uma resposta “firme”.
Já a organização tratou de botar panos quentes e reforçou o discurso de Trump sobre ameaças russas e chinesas. Em comunicado, a Otan disse que “as negociações entre a Dinamarca, a Groenlândia e os Estados Unidos prosseguirão com o objetivo de garantir que a Rússia e a China jamais consigam estabelecer uma presença — econômica ou militar — na Groenlândia”.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou, em entrevista à Fox News, que a continuidade do controle da Dinamarca sobre a Groenlândia é um tema que “não voltou a surgir” em suas “conversas com o presidente” estadunidense.
Dinamarca responde
O governo dinamarquês também fez questão de marcar posição nessa disputa. O ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, foi à televisão pública dinamarquesa DR e chamou de “mensagem positiva” o recuo de Trump sobre a invasão e as tarifas aos europeus.
A primeira-ministra Mette Frederiksen disse que a Dinamarca quer ter um “diálogo construtivo com seus aliados” para pensar a segurança na região, mas pediu que seja respeitada a integridade territorial dinamarquesa neste caso. Ainda, de acordo com ela, o país tem mantido um contato com o governo da Groenlândia para “coordenar seus esforços” e a resposta foi de que o governo local rejeita “qualquer dominação dos EUA”.
“Podemos negociar todos os aspectos políticos: segurança, investimento, economia. Mas não podemos negociar nossa soberania. Fui informada de que isso não tem acontecido”, disse Frederiksen em um comunicado.
De acordo com a AFP, na Groenlândia, o governo começou a orientar os cidadãos, em uma eventual crise, para armazenar alimentos, preparar armas de caça e ter equipamentos de pesca.
Os Estados Unidos já têm bases militares na região. De acordo com a AFP, será renegociado o acordo de defesa de 1951 sobre a Groenlândia. O documento autorizou a instalação de três bases estadunidenses de maneira permanente na Groenlândia: Thule, Narsarsuaq e Sondestrom. Ainda de acordo com o documento, Washington poderia abrir novas bases a partir da autorização da Otan.























