Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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A inauguração do Centro Presidencial Obama, em Chicago, no início de junho, reacendeu o debate sobre o governo de Barack Obama, primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.

Com o intuito de preservar a trajetória política do democrata e desenvolver programas de formação de lideranças, o complexo também chama atenção para as diferentes interpretações sobre os impactos de seus oito anos (2008-2016) na Casa Branca para a população negra norte-americana.

Para o professor Flávio Thales Ribeiro Francisco, pesquisador da área de relações étnico-raciais e docente da Universidade Federal do ABC (UFABC), o governo de Obama continua dividindo opiniões, principalmente porque o ex-presidente optou por uma agenda voltada ao conjunto da população norte-americana, sem desenvolver políticas públicas específicas para a comunidade negra.

O pesquisador aponta que, durante a campanha e ao longo do mandato, o 44º presidente dos Estados Unidos “sempre afirmou que exerceria a função de presidente dos Estados Unidos e não de ‘presidente dos negros’”.

Segundo Francisco, Obama cumpriu sua promessa de campanha porque “não formulou nenhuma política de impacto específico para a população negra”.

Embora sua eleição tenha representado um marco histórico por ter se tornado  o primeiro negro a ocupar a Presidência dos Estados Unidos, seu governo continuou sendo alvo de avaliações divergentes. Além disso, o professor ressalta que sua vitória foi celebrada como um símbolo da representatividade racial em um país historicamente marcado pela escravidão, pela marginalização e pelo racismo.

No entanto, a chegada de Obama à Casa Branca também despertou expectativas de que seu governo promovesse mudanças significativas na redução das desigualdades raciais. Passados os oito anos de sua gestão, porém, seu legado continua dividindo opiniões.

De acordo com ele, para parte da população e para os movimentos negros estadunidenses, sua eleição representou uma conquista histórica e seu governo ampliou o acesso de milhões de pessoas a direitos sociais.

Já outros grupos avaliam que sua administração deixou de promover mudanças estruturais capazes de enfrentar o racismo institucional e as desigualdades vividas pela população negra norte-americana.

Pontos positivos

Entre as principais iniciativas do governo Obama está a a Lei de Cuidados de Saúde Acessíveis, conhecida como a “Obamacare” principal reforma do sistema de saúde implementada durante a gestão democrata.

De acordo com Francisco, a iniciativa foi importante porque “através de subsídios governamentais, aumentou o número de pessoas negras com planos de saúde. As desigualdades raciais e sociais na questão da saúde eram profundas”.

Outro ponto destacado pelo docente da UFABC é que a permanência de Obama na Presidência representou uma espécie de proteção institucional às políticas de ações afirmativas. Para ele, o governo democrata funcionava como “um seguro institucional”.

Segundo o pesquisador, esse cenário começou a mudar com a eleição de Donald Trump e a formação de uma maioria conservadora na Suprema Corte. De acordo com ele, a partir desse momento, “as disputas na Justiça passam a ser desfavoráveis aos negros”.

Barack Obama, 44º presidente dos Estados Unidos, governou o país entre 2009 e 2017 e foi o primeiro negro a ocupar o cargo
Obama Foundation

Enfrentamento ao racismo

Em relação ao posicionamento do ex-presidente, o pesquisador afirma que Obama demorou a reconhecer o racismo institucional como um problema que deveria ocupar posição central durante seu governo.

Segundo ele, diante dos casos de violência policial contra pessoas negras, o então presidente atribuiu, em diversos momentos, a responsabilidade às famílias negras, sem considerar de forma suficiente fatores estruturais, como a pobreza e a atuação das instituições de Segurança e Justiça.

“Quando se manifestou sobre a violência, sempre responsabilizou as famílias negras e não levou em consideração a pobreza e o racismo institucional das forças policiais e dos operadores da Justiça norte-americana”, frisa.

De acordo com Francisco, somente após a intensificação das manifestações do movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”), a administração Obama passou a tratar o tema de forma mais direta. “Somente no último ano dos seus dois mandatos, depois de vários levantes do movimento, é que (o governo de Obama) passou a tratar do racismo nas instituições públicas, mas sem nenhum desdobramento político”, ressalta.

Na avaliação de Francisco, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o governo de Obama continua dividindo opiniões entre aqueles que enxergam sua eleição como um marco histórico e aqueles que consideram insuficientes as mudanças promovidas durante sua gestão.

Estratégia política?

Além disso, a inauguração do Centro Presidencial Obama, que motivou a retomada desse debate, também levanta discussões sobre o papel dessas instituições na construção da memória de ex-presidentes norte-americanos.

Para Francisco, espaços como esse costumam valorizar a trajetória política de seus idealizadores, em vez de estimular uma reflexão crítica sobre seus governos. “Basicamente, o papel dessas entidades é construir uma memória positiva da trajetória de um político, raramente se abre espaço para argumentos críticos”, pondera.

O pesquisador conclui que o principal objetivo do complexo é preservar a imagem pública de Obama e mantê-lo como uma referência no debate político norte-americano. Em sua visão, o Centro Presidencial trabalha para “promover a imagem do ex-presidente e garantir um espaço para ele no debate público. É preciso ressaltar que, entre os presidentes ainda vivos, ele é o de maior popularidade”.