Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
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Após a comoção provocada pela morte de Alex Pretti, em 24 de janeiro de 2026, e a de Renee Good, algumas semanas antes, surgem nos Estados Unidos questionamentos sobre o perfil, o recrutamento e a formação dos agentes da polícia de imigração (ICE). Os dois eram cidadãos norte-americanos mortos a tiros por agentes federais.

No sábado (24/01), as imagens de Alex Pretti, um norte-americano de 37 anos morto por agentes da Border Patrol enquanto filmava uma abordagem policial em Minneapolis, circularam pelo mundo. Pouco antes, na mesma cidade, em 7 de janeiro, a morte de Renee Good — baleada dentro do carro por um agente do ICE — também causou repercussão internacional. Os dois casos ocorreram durante operações federais vinculadas ao que Donald Trump anunciou como “o maior programa de deportações da história” dos Estados Unidos.

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Para viabilizar esse plano, o presidente norte-americano reforçou de forma inédita o ICE, um órgão até então pouco conhecido das forças de segurança. Seu orçamento saltou de US$ 10 bilhões antes da chegada de Trump ao poder para US$ 85 bilhões, montante que poderá ser gasto ao longo de até quatro anos.

O volume de recursos permitiu ao órgão lançar a maior campanha de recrutamento de sua história. Em 3 de janeiro, o ICE — que tinha cerca de 10 mil funcionários — comemorou um “aumento histórico de 120% do efetivo” e a contratação de 12 mil oficiais e agentes. Com isso, a corporação passou a ter mais novatos do que agentes experientes.

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“Eles recrutam qualquer um”

A ofensiva levanta dúvidas sobre os critérios de seleção e a qualificação dos candidatos. “Esse é o problema do ICE hoje. Há metas de deportação gigantescas, que não são realistas com o efetivo atual, então eles precisam recrutar. E recrutam de qualquer jeito, pessoas com disposição para o confronto, com um perfil meio hooligan, colocando armas nas mãos delas”, resume Lauric Henneton, professor da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines e especialista em Estados Unidos.

Embora não seja possível traçar um perfil preciso dos recrutados, a própria campanha do ICE dá pistas do tipo de agente buscado. Na página inicial do site da instituição, aparece o Tio Sam — símbolo clássico do recrutamento militar na Primeira Guerra Mundial — apontando para o leitor e convocando-o a defender uma América “invadida por criminosos e predadores”. “Precisamos de VOCÊ para caçá-los”, diz a mensagem.

Surgem nos Estados Unidos questionamentos sobre o perfil, o recrutamento e a formação dos agentes da polícia de imigração (ICE)
Flickr/Sharon Mollerus

Publicidade direcionada

Segundo documento revelado pelo Washington Post, o ICE foi ainda mais longe ao adotar o que chama de estratégia de “recrutamento em tempo de guerra”. De acordo com o jornal, a campanha se espalhou pelas redes sociais com apelos a pessoas dispostas a cumprir seu “dever sagrado” e “defender a pátria” contra “invasores estrangeiros”.

Vídeos inspirados em jogos de tiro em primeira pessoa, como Call of Duty, também foram divulgados, assim como anúncios que retratam migrantes como pokémons a serem capturados.

Para alcançar a meta de recrutar mais de 10 mil pessoas, o ICE recorreu ao chamado georreferenciamento, técnica que permite veicular anúncios em celulares de usuários localizados perto de bases militares, corridas da Nascar, campi universitários ou feiras de armas, segundo o documento.

O plano previa ainda direcionar a publicidade a pessoas interessadas em “assuntos militares e veteranos”, “treinamento físico” e “noticiário e política conservadora”, além de perfis com estilo de vida “patriótico” ou “de inclinação conservadora”.

Também estavam no alvo ouvintes de “programas de rádio conservadores, música country e podcasts ligados ao patriotismo, a interesses masculinos e a notícias policiais”, assim como seguidores de líderes conservadores, entidades pró-armas e marcas de equipamentos táticos, afirma o jornal.

Ações de recrutamento também são realizadas em estádios e em eventos específicos, como corridas da Nascar, competições do UFC (MMA) e rodeios.

O governo Trump tenta ainda atrair agentes aposentados, oferecendo bônus de retorno e a possibilidade de acumular salário e aposentadoria. “Você serviu os Estados Unidos da América com distinção e honra. Hoje, seu país volta a chamá-lo”, diz o site do ICE.

“Inexperiência e falta de treinamento”

Para facilitar o alistamento, o ICE promete bônus de contratação de até US$ 50 mil e reembolso de dívidas estudantis. Também eliminou o limite de idade, permitindo candidaturas a partir dos 18 anos. “Há pessoas experientes entre os recrutados, mas também jovens que podem ter o dedo fácil no gatilho”, alerta a historiadora e especialista em Estados Unidos Nicole Bacharan.

A preocupação é compartilhada por John Sandweg, ex-diretor do ICE no governo Barack Obama, sobretudo porque o tempo de formação dos novos agentes foi reduzido de cerca de cinco meses para apenas 42 dias. “O problema não é só onde e como eles foram recrutados, mas o rebaixamento dos critérios de seleção. Os padrões de treinamento também foram reduzidos para colocar rapidamente esses agentes nas ruas, basicamente para aumentar o número de prisões”, afirmou à emissora MS Now.

Sobre as mortes em Minneapolis, Sandweg avalia que os agentes “se viram em situações nas quais nunca deveriam ter estado. Não é para isso que são treinados”. E conclui: “Cada caso é diferente, mas, no fundo, todos revelam um problema de inexperiência e de falta de treinamento”.

Em nota, o governo Trump afirmou ter “otimizado a formação para eliminar redundâncias e incorporar avanços tecnológicos, sem sacrificar o conteúdo essencial do programa”. Enquanto isso, cresce a indignação diante de uma polícia de imigração envolvida em episódios cada vez mais frequentes de uso excessivo da força.

“Resta saber se haverá algum controle sobre a qualificação dos membros do ICE. É possível imaginar que isso aconteça, mas por enquanto não há nenhum anúncio nesse sentido”, conclui Nicole Bacharan.