Parlamentares republicanos estão investigando alguns dos principais sindicatos norte-americanos às vésperas das eleições legislativas nos Estados Unidos, programadas para novembro. Eles acusam as entidades sindicais de usarem recursos provenientes das contribuições dos trabalhadores para financiar atividades políticas em prol do Partido Democrata.
Reportagem do britânico The Guardian, publicada nesta terça-feira (01/03), aponta que a ofensiva, conduzida pelo Comitê de Educação e Força de Trabalho da Câmara dos Representantes, tem como base relatórios produzidos pelas organizações conservadoras American Accountability Foundation (AAF) e Freedom Foundation.
A AFF, destaca o texto, possui vínculos com a Heritage Foundation, o think tank que liderou a elaboração do Projeto 2025, criticado pelos sindicalistas. Em 2024, a entidade concedeu US$ 100 mil à AAF para financiar pesquisas, relatórios e outras atividades.
Pela legislação norte-americana, os sindicatos podem realizar atividades de defesa de pautas políticas, mas estão proibidos de usar contribuições regulares de seus filiados para financiar diretamente candidatos ou comitês de ação política (PACs). Os trabalhadores, no entanto, podem fazer contribuições voluntárias aos fundos políticos dos sindicatos.

Republicanos ampliam investigações contra sindicatos nos Estados Unidos
O.J. / Wikimedia Commons
A investigação da Casa legislativa visa a Federação Americana de Professores (AFT), o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW), o Sindicato dos Trabalhadores Siderúrgicos (USW), a Divisão de Transportes da SMART (SMART-TD), a Irmandade dos Maquinistas e Trabalhadores Ferroviários (BLET) e a Divisão da Irmandade dos Trabalhadores de Manutenção Ferroviária (BMWED).
O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW) aparece relacionado a uma ação judicial movida contra medidas do governo Trump destinadas a restringir direitos de negociação coletiva. A BLET apoiou a iniciativa judicial apresentada pelo UAW, o que vem sendo usado pela AAF em suas críticas às entidades sindicais.
O Sindicato dos Trabalhadores Siderúrgicos (USW), por sua vez, foi acusado de direcionar recursos e atuar de maneira desproporcional para candidatos e organizações ligados aos democratas. A AAF alega especificamente que o PAC federal do USW destinou cerca de 90% de suas contribuições eleitorais aos democratas entre 2017 e 2024 e também questiona gastos ou apoio a iniciativas políticas contrárias ao governo Trump.
O sindicato informou que está colaborando com a investigação e trabalhando para responder integralmente às solicitações do Comitê. “Nosso sindicato valoriza a transparência e relata anualmente nossos gastos ao Departamento do Trabalho”, afirmou um porta-voz do USW ao The Guardian.
Outra frente da ofensiva republicana é direcionada contra Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores (AFT). A investigação foi aberta depois que a Freedom Foundation alegou que contribuições dos sindicalizados teriam sido utilizadas para financiar o livro Why Fascists Fear Teachers: Public Education and the Future of Democracy (Por que os fascistas temem os professores: educação pública e o futuro da democracia), publicado por Weingarten em 2025.
Michael Bromwich, advogado de Weingarten e da AFT, classificou o relatório da Freedom Foundation como “um ataque partidário disfarçado de jornalismo investigativo”. “Os documentos apresentados ao comitê da Câmara refutam essas alegações e demonstram que o projeto do livro foi realizado de forma legal e ética para avançar a missão da AFT, com supervisão adequada e arranjos financeiros transparentes”, afirmou.
The Guardian também informa que o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) teve acesso a registros financeiros do Sindicato Internacional dos Trabalhadores de Serviços (SEIU) e solicitou informações financeiras do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicações da América (CWA), no âmbito de uma investigação federal em Minnesota sobre um suposto “financiamento de terrorismo doméstico”.
Cathy Creighton, diretora do Co-Lab de Buffalo da Escola de Relações Industriais e Trabalhistas da Universidade Cornell, afirmou ao jornal britânico que as finanças sindicais estão submetidas a rígidas regras de transparência nos Estados Unidos.
Para Creighton, o fato de a maioria dos trabalhadores sindicalizados votar nos democratas está relacionado às posições do partido sobre os direitos trabalhistas. O Partido Democrata “tem uma plataforma que apoia o movimento trabalhista, o direito de se organizar [e] o direito de negociar”, afirmou.
Em sua avaliação, há evidente motivação política por trás da ofensiva. “A administração Trump tem tentado eliminar direitos de negociação e sindicatos, ponto final”, concluiu.