Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Os riscos de uma possível anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos foram levantados por dois especialistas ouvidos, nesta quarta-feira (07/01), pelo Democracy Now. O analista russo Pavel Devyatkin, membro do Arctic Institute, e o advogado inuíte groenlandês Aaju Peter analisaram os impactos geopolíticos, sociais e ambientais de uma ingerência de Washington sobre o território controlado há 300 anos pela Dinamarca.

O tema voltou à pauta quando a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a Casa Branca está discutindo “uma série de opções”, inclusive a militar, para anexar a Groenlândia. “Eles estão realmente apostando no poder militar bruto para tomar território de uma nação soberana”, salientou Devyatkin, que também é pesquisador do Quincy Institute.

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Em sua avaliação, a proposta representa uma ameaça ao direito e às instituições globais: “ao tentar adquirir a Groenlândia, os Estados Unidos estão agindo como um Estado fora da lei, com uma política externa imprudente”. Ele qualificou como “falsa” a alegação de Trump de que existiriam navios russos e chineses no entorno da ilha.

“Não existe absolutamente nenhuma ameaça militar à segurança dos EUA vinda da Groenlândia”, destacou, ao  lembrar que o país já controla a segurança militar do território por meio de uma base militar no extremo norte do território.

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Interesses

Devyatkin salientou o interesse norte-americano nas grandes reservas de minerais críticos no território, apontando que bilionários do setor de tecnologia, como Elon Musk e Peter Thiel, estão “por trás do impulso para extrair esses minerais”.

Ele também destacou o timing das declarações: após a ofensiva contra a Venezuela e diante do surgimento de novas revelações sobre o envolvimento de Trump no caso do escândalo sexual de Jeffrey Epstein. E lembrou que a maioria dos estadunidenses são contra a guerra na Venezuela e a tomada da Groelândia.

Vista noturna de Nuuk, capital da Groenlândia
Wikimedia Commons

O pesquisador alertou para o risco político de uma possível anexação do território na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), reiterando as palavras da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, de que tudo pararia, inclusive “a OTAN e a segurança que tem existido desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Outro risco é o ambiental. O pesquisador frisou que o Ártico vem sendo “o marco zero da catástrofe climática” e que o derretimento acelerado da Groenlândia pode elevar o nível do mar em até 24 pés, causando impactos globais. “Em vez de liderar a cooperação climática, Trump quer militarizar o Ártico e a Groenlândia”, apontou.

“Isso devastaria Nova York, eliminaria a Flórida, deslocaria milhões”, destacou, ao mencionar que os indígenas da Groenlândia já estão vendo seu modo de vida tradicional desaparecer frente ao degelo, sendo obrigados a se deslocar de suas residências.

Direitos indígenas

Já o advogado Aaju Peter destacou que “a Groenlândia não está à venda”, frisando que a população do território luta por sua soberania há anos. Ele relatou que as lideranças indígenas querem conversar com Donald Trump para saber o que ele pretende com suas terras. “Não se pode simplesmente tomar um povo indígena porque alguém acha que é superior; é preciso conversar com os povos indígenas da Groenlândia e do Canadá”, afirmou.

Ele também destacou que as ameaças de anexação da Casa Branca suspenderam o debate sobre a independência do território. “A Groenlândia queria se tornar um país independente, mas agora isso ficou em segundo plano por causa das ameaças de Trump”, disse.

Venezuela

O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela também entrou no debate. Devyatkin destacou o rechaço de Moscou nas Nações Unidas, quando os representantes russos classificaram a agressão como “uma violação do direito internacional e um ato de terrorismo de Estado”.

“Moscou investiu fortemente em manter [Nicolás] Maduro no poder, implantando sistemas de defesa antimísseis na Venezuela, enviando conselheiros militares e usando portos venezuelanos para navios navais russos. Em poucas horas, esse investimento evaporou”, afirmou.

Em sua avaliação, o ataque dificulta qualquer negociação futura com Moscou sobre a Ucrânia. “Como a Rússia pode negociar com uma América que acabou de demonstrar que usará força militar para tomar territórios e derrubar governos que não gosta?”, questionou.

Confira o debate.