Os primeiros anos de Canudos depois do massacre

Pesquisas de Manoel Neto, do Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade Estadual da Bahia, adiantam para 1898 o ano do retorno de habitantes para a área destruída

Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, em 15 de agosto de 2002.

Um ano depois da destruição do povoado de Canudos pelas tropas do Exército, a reconstrução do povoado recomeçou. É o que defendeu o historiador Manoel Neto em uma das mesas-redondas da Semana Euclidiana, que ocorre em São José do Rio Pardo, cidade em que o escritor Euclides da Cunha (1866-1909) produziu grande parte de Os Sertões, sua mais consagrada obra e que narra a guerra conduzida pelo recém-instalado regime republicano contra os moradores da comunidade.

Neste ano de 2002, são comemorados cem anos de publicação do livro, um dos mais discutidos e festejados do cânone literário brasileiro. As pesquisas de Manoel Neto, pesquisador do Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade Estadual da Bahia, adiantam para 1898 o ano do retorno de habitantes para a área destruída.

Normalmente, a data utilizada para marcar essa volta é 1910. O fato é significativo porque pode ajudar a reconstituir e explicar a história dos primeiros anos da região de Canudos depois do massacre de 1897. Segundo Neto, o relato oral é confirmado pelo salvo-conduto concedido pelo jornalista Lélis Piedade à família de João Reginaldo de Matos, conhecido como João de Régis, hoje com 95 anos e uma das mais importantes fontes de pesquisas sobre a história da região.

Piedade, como Euclides, foi correspondente de guerra; depois tornou-se membro de uma entidade chamada Comitê Patriótico da Bahia, que colaborou no atendimento médico de militares e sertanejos vítimas do conflito.

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Fotografia de Canudos após o massacre em 1897.

Também favorece essa hipótese vários depoimentos que apontam que o coronel José Américo Camelo foi consultado e autorizou a reocupação de antigas propriedades e a reconstrução de casas no local. Como Camelo, nascido em 1839, morreu em 1902, essas consultas indicam que no início do século já havia um movimento de reocupação de Canudos.

Segundo João de Régis, “o coronel José Américo autorizou, agora quem ajudou foi o coronel Janjão de Macedo”, que era intendente de Monte Santo.

O resultado das pesquisas de Manoel Neto deve ser publicado em 2003, num livro intitulado Canudos - 1898-1969: A Reconstrução do Arraial.

Depois de longo processo de reconstrução, a cidade foi transferida para a construção de um açude.

Comparação - Manoel Neta participou de uma mesa-redonda com o historiador Marco Antônio Villa, autor de Canudos: O Povo da Terra. Villa fez uma comparação das reportagens de Euclides para o Estado, jornal que o enviou como correspondente, com os episódios da guerra que integram Os Sertões.

Entre os casos que apontou, estava o do menino Agostinho, que nega haver milagres atribuídos a Antônio Conselheiro. Euclides, na reportagem, afirma que a entrevista com o menino é de um valor inestimável, mas não o inclui em Os Sertões. Na opinião de Villa, porque o informante não respaldava sua tese de Canudos como uma comunidade milenarista.

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