Euclides da Cunha entre a ciência europeia e a experiência brasileira: o sertanejo como outro

Num primeiro momento, a consagração d’Os Sertões pode ser compreendida a partir do “espírito do tempo”, eivado de sensibilidade nacionalista e vontade realista

Euclides da Cunha (1869-1909) foi homem atormentado e escreveu um livro que até hoje assombra a consciência brasileira. A memória d’Os Sertões de certo modo se confunde com a de Euclides da Cunha. Quando se pensa em sua obra, imediatamente remete-se ao autor. A obra de Euclides é fruto de multiplicidades de experiências, que vão da formação intelectual até a sensibilidade ética e estética do autor, do clima de época à própria historicidade do Brasil daquela virada de século. Não se pode esquecer que o livro nasceu de uma viagem de apenas dezesseis dias ao sertão da Bahia, em 1897. Euclides havia escrito dois artigos de jornal, intitulados “A Nossa Vendeia”1, o que lhe proporcionou o convite de O Estado de S. Paulo para acompanhar in loco a guerra. As notas da viagem ao teatro (trágico) dos acontecimentos, somadas à pesquisa que certamente fez, foram reescritas e estilizadas, gerando em 1902 uma obra singular: Os sertões. O jovem e desconhecido autor publicou o livro que mudaria a sua vida, garantindo-lhe um lugar de destaque no cânone literário brasileiro2.

Durante toda a vida adulta de Euclides da Cunha, o Brasil debateu-se com um monstro que habitou as consciências letradas de seu tempo: a inexorável condição mestiça do país, cujo único “branco”, no dizer jocoso do conde francês Arthur de Gobineau, teria sido o próprio Imperador3. Euclides viveu um tempo de fortes apelos nacionalistas, o que, ao menos em parte, explica o pessimismo que grassava entre as elites brasileiras, afinal como poderia o Brasil ser um país próspero, moderno e civilizado com as gentes que dispunha? No auge do prestígio das teses racialistas, a presença de uma vasta população negra e uma vastíssima gama de mestiços de todos os tons atormentou o espírito de classe e mobilizou a consciência racista de boa parte das inteligências da época. Fenômeno que abarcou inclusive intelectuais progressistas, como o próprio Euclides da Cunha, que logo se desiludiria com a República liberal, mas oligárquica e conservadora, que Sérgio Buarque de Holanda definiu como o verdadeiro “império dos fazendeiros”4.

A junção tensa entre raça, mestiçagem e ciência foi um dos temas mais recorrentes no debate sobre a modernidade não apenas no Brasil, mas também em outras sociedades multirraciais, especialmente nas Américas . A noção de “degeneração” das populações mestiças, desde a segunda metade do século XIX, foi comum entre cientistas, viajantes e intelectuais, cujas crenças racialistas condenavam os países formados por uma acentuada heterogeneidade étnica. A intelligentsia latino-americana e brasileira, inclusive, ou principalmente, deixou-se afetar pelas teorias raciais vindas da Europa, procurando elaborar correntes no debate sobre a modernidade não apenas no Brasil, mas também em outras sociedades multirraciais, especialmente nas Américas2. Euclides da Cunha partilhou dessa tradição intelectual.

O século XIX foi marcado, intelectualmente, por um organicismo sociológico cujos vasos comunicantes com o naturalismo eram pronunciados. Esse fundo epistemológico tende a ver o pesquisador e o pesquisado como instâncias separadas; postura “positivista” que marcou o nascimento das ciências sociais, o que implicaria em um projeto político destinado a administrar as populações e gerenciar os espaços públicos. Euclides da Cunha é, claramente, herdeiro dessa cultura intelectual3.

A recepção d’Os Sertões

Nos sete anos que separam a publicação d’Os sertões, em 1902, e sua morte trágica, em 19091, o livro de Euclides ganhou três novas edições. De acordo com Sílvio Romero, “de Euclides da Cunha pode-se dizer que se deitou obscuro e acordou célebre”2.  Os Sertões atingiu 10 mil exemplares vendidos apenas naqueles poucos anos. Independente das qualidades da obra, o livro adquiriu uma força simbólica que transcende sua condição eminentemente intelectual3.

Num primeiro momento, a consagração d’Os Sertões pode ser compreendida a partir do “espírito do tempo”, eivado de sensibilidade nacionalista e vontade realista; daí a força do naturalismo e das perspectivas cientificistas na crítica literária então predominante4. O livro de Euclides de algum modo atendeu a essa agenda, ao descrever o que se poderia ser definido como “realidade sertaneja”, a partir de modernos métodos científicos. Essa perspectiva foi decisiva para catapultar o livro à condição de monumento das letras pátrias, já pelos seus contemporâneos.

Sílvio Romero, ao discursar na posse de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras, em 1906, pronunciou um discurso inflamado, em que se pode apreender o sentido político da recepção de Os Sertões, pois reúne o elogio ao livro à crítica contra as condições políticas e sociais do país. Na frente de ninguém menos que o então Presidente da República, Afonso Pena, Romero afirma que a República havia restabelecido os governos oligárquicos nos Estados, “governichos criminosos”, dos quais o país só se livraria por meio de uma revolução violenta. Para ele, o Brasil passava por uma evolução social desencadeada pela Abolição, mas a República teria comprometido a possibilidade de uma verdadeira revolução, impossibilitando a superação do legado colonial. Romero, não satisfeito, foi ainda mais radical, ao afirmar que a elite intelectual brasileira leu mal Os Sertões, elegendo a linguagem e as imagens literárias como um modo de esconder a radicalidade da crítica, pois Euclides da Cunha teria sido um escritor que sabia não apenas empregar pronomes, mas ter ideias e pensar o Brasil. 

A aceitação de teses fundadas na suposta superioridade da “raça branca” representou um problema de grandes proporções, pois embargava a confiança de grande parte dos intelectuais brasileiros no futuro do país. Euclides da Cunha não partilhava dos grupos intelectuais elegantes que frequentavam os cafés da Rua do Ouvidor, liderados por Machado de Assis, José Veríssimo, Joaquim Nabuco e muitos outros. Quando o Presidente Floriano Peixoto, em 1893, recebeu Euclides no Palácio perguntou-lhe que cargo gostaria de ocupar no governo. O engenheiro recém-formado respondeu que queria que fosse cumprida a lei, ou seja, um ano de estágio na Central do Brasil. 

O livro assumiu, desde de seu lançamento, um papel de “obra sagrada” e “bíblia da nacionalidade”1. Essa construção remonta às primeiras resenhas de Araripe Junior e José Veríssimo, passando pelo discurso de Silvio Romero na recepção de Euclides na Academia Brasileira de Letras (1906), chegando aos elogios fúnebres de Coelho Neto e Edgar Roquette-Pinto (1909). Juscelino Kubitschek, às vésperas da inauguração de Brasília, cita Euclides da Cunha, colocando-se como o presidente-pioneiro, desbravador dos ermos profundos do Brasil. Euclides era apresentado como “o novo bandeirante de uma nova entrada para a alma da nacionalidade brasileira”2

Em Os Sertões, a ciência racialista (europeia) herdada da segunda metade do século XIX ocupa um lugar importante, mas a recepção da obra euclidiana elegeu como “lugar da memória” a dimensão literária do texto e a certa sensibilidade nacionalista que perpassa à obra.

Ciência e linguagem

O enredo d’Os Sertões é conhecido. O autor narra o confronto de um movimento messiânico, milenarista e sertanejo. Entre 1896 e 1897 Antônio Conselheiro lidera 30 mil pessoas, provenientes de todo o Nordeste brasileiro. Após quatro expedições o movimento é derrotado pelos melhores equipamentos militares de que o Brasil dispunha.

O livro está dividido em três partes: A TerraO Homem e A Luta1. Pode-se ler A Terra como uma analogia do homem do sertão, duro, seco e hostil. Só penetra em suas entranhas quem a conhece. Nos mandacarus e outros cactos ficam farrapos das fardas dos soldados, punindo-lhes a intromissão.

No capítulo O Homem Euclides descreve os mestiços do Brasil do interior: de três raças em guerra-e-paz, em três séculos de história. A narrativa euclidiana é embalada pela antropologia biológica da Europa de seu tempo. No texto, vemos a autoridade da ciência condenar as gentes “cruzadas”, “degeneradas” e “neurastênicas” do Brasil profundo, mas absolve o homem do sertão de juízo mais severo.

Antes da Guerra, os jornais do Rio e de São Paulo consideram Canudos uma conspiração monarquista, cujo objetivo seria restaurar o Império. Terminada a Guerra foi possível perceber aquela experiência de outro modo: o autor foi para o sertão da Bahia com a mesma cabeça dos seus pares do Rio e de São Paulo que, como ele, pertenciam aos círculos letrados. Ele – um republicano exaltado e radical educado na escola de engenharia do Exército – foi para Canudos para ver de perto “a conspiração monarquista”, que fatalmente significaria um retrocesso para o país. Não foi o que viu. Ainda em solo baiano Euclides começou, aos poucos, a mudar sua percepção. Ao voltar da Guerra, finda em 1897, começou a estudar a história do Brasil e de seu povoamento. Queria entender o homem de modo científico, de acordo com o cientificismo de fins do século XIX, com suas formulações sobre as raças, as supostas inconveniências da miscigenação, entre outros legados do darwinismo social1.

Em conformidade com o espírito positivista de fins do século XIX, ele busca o relato preciso, a decifração da natureza, inclusive humana. Do compromisso com a ciência, evidenciado na linguagem e patente no arsenal teórico, preside a narrativa. Junto à fúria cientificista, há um elemento redentor, como uma espécie de verdade revelada, na qual emergem os homens de Canudos, seus valores, sua coragem, seus deuses, suas misérias e grandezas. Todos esses elementos representados enquanto verdade transcendente, religiosa, mais que uma mera verdade positiva, científica. O estilo, aqui, não é retórica ou verniz, mas fundante, capaz de fazer emergir a história e a geografia e a etnologia. O estilo alimenta a interpretação e não se dissocia dela. 

O estilo “decadentista” se ajusta à obra, cujo texto narra a desventura de uma guerra que opôs os mestiços dos sertões profundos do Nordeste brasileiro aos mestiços do litoral a serviço do Exército, expondo nos confins da Bahia o drama de um país inteiro. Os Sertões foi capaz de tocar uma multiplicidade de questões que vão do econômico-social ao político, do intelectual ao religioso. Por essas razões, Os Sertões pode ser entendido reflexo e reflexão de um país carregado de temporalidades polissêmicas e contraditórias. 

A narrativa de Euclides da Cunha fundamenta a legitimidade de seu discurso na autoridade de quem presenciou os acontecimentos, como um viajante que observa a cena em questão. E nisso dialoga implicitamente com a tradição dos relatos de viagens e das expedições científicas. Tradição que remonta a Alexander Von Humboldt1. Euclides filia-se “a uma tradição extensa de representação do real”, em que o narrador se pleiteia “a sinceridade do relato, o desenho correto dos eventos sem, todavia, fazer perder seu colorido e, por conseguinte, sua própria realidade”2. Outra fonte de autoridade d’Os Sertões está no compromisso com a ciência, fundada na prova empírica, capaz de conduzir a leis gerais, de modo que decifrar a sociedade implicaria em seguir as mesmas leis que regiam a química ou a matemática, observa ainda Regina Abreu3

Além das influências do cientificismo positivista de August Comte é importante atentarmos para a ambiência literária que circunda a obra. Naquela virada de século, o prestígio da literatura de Emile Zola (1840-1902). O autor de Germinal (1883) foi uma espécie de paradigma do romance naturalista. Zola acreditava que o literato deveria emular o método do cientista, a fim de reportar a natureza (inclusive dos homens), o que produzia um efeito de verdade, impossível à imaginação romântica (contra a qual ele se insurgia)4. Nicolau Sevcenko notou que Os Sertões radicaliza a herança de Eça de Queiroz, contribuindo para formar um caldo de cultura realista, naturalista e cientificista, na qual Euclides bebeu, levando-o a ceder à ficcionalidade em benefício das potências naturais e das (supostas) realidades sociais5.

O estilo não é um modo de pensar, na medida em que a linguagem não é uma variável neutra. O estilo cientificista não era exclusividade de Euclides da Cunha, mas partilhado por outros escritores da época, como Júlio Ribeiro (1845-1890), Aluísio Azevedo (1857-1913) ou Raul Pompéia (1863- 1895), assim como a crítica a maneira de Silvio Romero. Machado de Assis (1839-1908) estava noutra trincheira, cujo estilo era francamente oposto à linguagem objetivista dos cientificistas. Machado em O alienista (1882) ironizou o cientificismo e o determinismo reinantes em seu tempo.

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Num primeiro momento, a consagração d’Os Sertões pode ser compreendida a partir do “espírito do tempo”, eivado de sensibilidade nacionalista

Raça e mestiçagem

A mobilização dos referencias evolucionistas e cientificistas levaram Euclides da Cunha a vocalizar um profundo mal-estar em relação aos mestiços do litoral, especialmente os mulatos. Muito diferentes eram os mestiços do sertão. O sertanejo, adaptado ao meio, misto de europeu e indígena era uma “sub-raça”, muito mais homogênea que mestiços “degenerados do litoral”. Em geral a mestiçagem é, para Euclides, negativa, “ante as conclusões do evolucionismo”, tornando o mestiço “quase sempre, um desequilibrado”, quando não um “decaído”, sem “a energia física dos ascendentes selvagens” e sem a “altitude dos ancestrais superiores”. Seriam “as fatalidades das leis biológicas”1, que vão da incapacidade intelectual à fragilidade física. O mestiço, insiste Euclides, “não é uma integração de esforços; é alguma coisa de dispersivo e dissolvente”2.

Mas de onde vem a “instabilidade” e o “desequilíbrio” do mestiço? Viria, argumenta Euclides, da “sobrecarga intelectual e moral de uma civilização”. Os artefatos da civilização seriam tão pesados para quem não atingiu o estágio evolutivo compatível, levando o mestiço ao desajuste mental. Em outras palavras, a “raça inferior” seria ferida pela “superior”, pois “neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização”3. O sertão, onde a civilização moderna não havia chegado, permitiu que o sertanejo se adaptasse ao seu meio, podendo aguardar a paulatina incorporação dos valores e dos instrumentos do mundo civilizado, diferentemente do “mestiço neurastênico do litoral”, atropelado pela civilização que o “degenera”.

Euclides destaca a existência de muitas “raças mestiças” no interior do território brasileiro, fruto da multiplicidade do “meio”, da “raça” e do “momento”. O fato de não haver “um tipo étnico único, quando há, certo, muitos”, leva-o a argumentar, em tom pessimista, que “não temos unidade de raças. Não a teremos, talvez, nunca”, restando uma nesga de esperança, na medida em que o futuro e as circunstâncias haviam reservado ao Brasil “a formação de uma raça histórica em futuro remoto”. Como se alcançaria o futuro? Pela evolução (biológica, social, civilizacional), daí a frase famosa: “Ou progredimos, ou desaparecemos”1. O problema é que “progresso” do Sul,40 de clima “ameno” e maior incidência de “brancos”, e o “atraso” do Norte, “mestiço”, de clima “tórrido”, herdeiro de outra história, poderiam inviabilizar o Brasil como uma nação étnica culturalmente integrada. 

O sertanejo, tal como Euclides formulou, seria síntese do clima, do solo, das raças, das múltiplas mestiçagens. É um homem em “contrastes e confrontos”. O sertanejo seria valente, mas supersticioso; magro, raquítico até, mas forte; fanático, mas generoso. Crédulo, mas desconfiado. Não haveria uma “raça brasileira”, definida, mas teríamos um exemplo de formação futura. Embebido das teorias europeias, afirma que: ‘’A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial’’ e o mestiço é “quase sempre” um desequilibrado – e dá-lhe termos negativos (“decaído”, “híbrido moral”, etc). Mas usa esse “quase sempre”, “na maioria das vezes”, para salvar o sertanejo. Ou seja, diferentemente do mestiço do litoral, esse sim um “decaído”, o homem do sertão seria um “retrógrado”, mas não um “degenerado”, e, por fim a sentença célebre: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”2. Fortes e estáveis, os “rijos caboclos” formariam “o núcleo de força da nossa constituição futura, a rocha viva da nossa raça”3.

Euclides foi para Canudos a fim de assistir, senão aplaudir, a uma guerra legítima, mas a complexidade do que enxergou o levaria a ver outra realidade, fora da ciência. O intelectual embebido de teorias raciológicas, sem suspender seu juízo, acabou por ver o homem do sertão com simpatia, apesar da artilharia cientificista. Horrorizou-se com as degolas e as torturas, levando-o a denunciar os massacres cometidos pelas forças republicanas. A rigor, o centro da narrativa não está na revolta, mas na repressão. O sertanejo, em princípio, arcaico e bárbaro, torna-se aos poucos objeto de sua admiração. Os militares, seus companheiros de formação, os proclamadores da República pela qual militara são, ao fim, criminosos.

Euclides da Cunha, de certa maneira, contradiz seus próprios pressupostos, o que acaba por condenar duas barbáries: por um lado, o misticismo “retrógrado” dos seguidores de Conselheiro e, por outro, a modernidade cega e violenta representada pelo Exército. O autor insistia em assinalar os equívocos que levaram os republicanos a se engajarem contra Canudos, colocando, frente a frente o fanatismo dos militares que gritavam “Viva a República!” diante de homens que não a entendiam, pois dela estavam fora. E, por outro lado, o messianismo dos revoltosos. Ao opor a “sub-raça sertaneja” em formação à mestiçagem “generalizada” e “degenerada” do litoral, alude à diversidade racial e à multiplicidade cultural do país. Ao afirmar que os soldados quando perdiam seus uniformes tornavam-se indistintos dos sertanejos, acabou por mostrar, talvez involuntariamente, o quão semelhante eram mestiços do litoral e do sertão.

A admiração que, por vezes, os sertanejos lhe causaram não foi capaz de reverter sua consciência mobiliada à ciência europeia. Para Euclides, a sociedade moderna era um destino inexorável. A violência do exército republicano pode ter-lhe embargado o otimismo com o regime, mas não a fé no progresso, na civilização e na ciência, que permanecia senão intacta, ao menos em pé. O sertão permanece o “outro”, outra gente, outro tempo. 

Euclides articulou uma relação complexa e imbricada entre a natureza e as formações sociais, entre literatura e ciência. Os Sertões narra uma sociedade “doente” e Canudos era uma expressão perfeita da chaga da nação. Mas a guerra que destruiu aquela sociedade “velha” e “retrógrada”, que habitava no corpo da modernidade brasileira, foi, no entanto, um crime, ou pior: uma covardia. A “sub-raça sertaneja”, condenada ao desaparecimento deveria progredir e, como um organismo vivo, progrediria ou morreria. Logo, a “rocha viva” da nacionalidade deveria ser arrastada para o “nosso tempo”, ainda que a guerra brutal não fosse remédio. A guerra foi a barbárie (do litoral e da civilização) contra a barbárie (do sertanejo místico e retrógrado).

A autoridade do texto euclidiano reside não apenas na ciência, mas também no olhar do “observador-viajante”, na expressão de Leopoldo Bernucci. Não se trata de mero relato de viagem, mas de uma complexa composição, em que os determinismos cientificistas, oriundos da cultura europeia de seu tempo, resultam relativizados pela observação direta. Já ao acolher um mestiço sertanejo como positivo, Euclides está a subverter a condenação das “raças mistas”.

*O texto faz parte do livro "Capítulos de História Intelectual", lançado pela Editora Alameda


1 Cf. NASCIMENTO, José Leonardo & FACIOLI, Valentim. Juízos críticos: os sertões e os olhares da sua época. São Paulo: Nankin Editorial / Editora da Unesp, 2003

2 Cf. SOUSA, Ricardo Alexandre Santos de. “A extinção dos brasileiros segundo o conde Gobineau”. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 21-34, jan./jun. 2013.

3 HOLANDA, Sérgio Buarque. “Do Império à República”. In História Geral da Civilização Brasileira, vol. 7. São Paulo: Difel, 1983.

4 Cf. STEPAN, Nancy Leys, 1991. A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

5 Manuel Bomfim – em América Latina: males de origem, livro de 1905 – foi um dos poucos intelectuais a descartar a noção de “raça” como um problema, preferindo questionar o passado colonial ibérico e o desprezo pelo educação e a ciência. Bomfim criticou a mentalidade aristocrática e formalista das elites ibero-americanas.

6 BLANCKAERT, Claude. La nature de la société: organicisme et Sciences Sociales au XIX siècle. Paris: L’Harmattan, 2004.

7 Esse homem trágico, que viveu uma vida privada infeliz, morreu pelo gatilho ágil de Di- lermando de Assis, o cadete do exército que fora o amante de sua esposa e de quem ela engravidara em uma de suas longas ausências.

8 ROMERO, Silvio. “Academia Brasileira de Lettras: Discurso pronunciado aos 18 de de- zembro de 1906, por occasião da recepção de Euclides da Cunha”. In: Provocações e Deba- te: contribuição para o estudo do Brazil social. Porto: Livraria Chardron, 1910.

9 NASCIMENTO, José Leonardo. Os Sertões de Euclides da Cunha: releituras e diálogos. São Paulo: Editora da Unesp, 2003.

10 Sobre a crítica em fins do século XIX, princípio do XX, ver: WEBER, João Hernesto. A nação e o paraíso: a construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira. Florianópolis: Editora da UFSC, 1997; GUIMARÃES, Hélio de Seixas. “Romero, Araripe, Veríssimo e a recepção crítica do romance machadiano”. Estudos Avançados. Vol.18 no 51 São Paulo Mai/Ago. 2004.

11 Cf. ABREU, Regina. O Enigma de Os Sertões. Rio de Janeiro: Rocco: Funarte, 1998, p. 22 e 24.

12 Cf. ABREU, Regina. “Veredas dos Sertões”. Caderno Mais. Folha de S. Paulo. 02/08/2009.

13 Na primeira parte Euclides narra a constituição geológica do continente americano, en- volvendo a flora, a fauna, o clima, com ênfase no fenômeno da seca. No capítulo O Homem, o autor trata do povoamento, da miscigenação entre as “três raças”, fundindo história e biologia, segundo a tradição intelectual organicista do século XIX. A Luta é a última parte do livro, a mais longa e a mais dramática, na qual Euclides narra a guerra.

14 Especificamente sobre cientificismo, evolucionismo e racialismo em Euclides da Cunha, ver: BERNUCCI, Leopoldo. “Cientificismo e Aporias em Os Sertões”. In: BERNUCCI, Leopoldo. Discurso, Ciência e Controvérsia. São Paulo. Edusp, 2008. 

15 SOUZA, Vanderlei Sebastião. “O Naturalismo de Euclides da Cunha: Ciência, Evolucionismo e Raça Em Os Sertões”. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Vol. 7, 2010. Ano VII nº 2; LIMA, Nísia Trindade. “Missões civilizatórias da República e interpretação do Brasil”. Revista Manguinhos – História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, vol. 5, suplemento, 1998.

16 De acordo com o depoimento do repórter Alfredo Silva, do jornal A Notícia, Euclides, ainda em Monte Santo, observava com precisão a natureza à maneira de um viajante-naturalis- ta. Sobre isso, ver: VENTURA, Roberto. “Visões do deserto: selva e sertão em Euclides da Cunha”. In BRAIT, Beth (org.). O sertão e Os sertões. São Paulo: Arte & Ciência, 1998.

17 NICOLAZZI, Fernando. “O narrador e o viajante: notas sobre a retórica do olhar em Os sertões”. História da Historiografia. Nº. 02, março. 2009, p. 68.

18 ABREU, Regina. “O livro que abalou o Brasil: a consagração de Os Sertões na virada do século”. Rio de Janeiro. Revista Manguinhos – História, Ciências, Saúde, vol. 5, suplemen- to, p. 80, jul./ago. 1998.

19 Cf. ZOLA, Emile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1982.

20 SEVCENKO, Nicolau. A Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Pri- meira República. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 200.

21 Cf. CUNHA, Euclides da, Op. Cit., 1995, p. 97.

22 Ibidem, p. 97;

23 Ibidem, p. 99.

24 Cf. CUNHA, Euclides da, Op. Cit., 1995, p. 63.

25 Cf. CUNHA, Euclides da, Op. Cit., 1995, p. 102.

26 Ibidem, p. 547.

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