Atualizado em 06/09, às 14h30
A primeira projeção divulgada pela emissora pública alemã ARD de boca de urna aponta que a AfD (Alternativa para a Alemanha) venceu neste domingo (06/09) a eleição estadual em Saxônia-Anhalt, no leste do país, com 44,5% dos votos. Se confirmado, o resultado representa mais que o dobro dos 20,8% obtidos pela legenda em 2021 e estabelece o melhor desempenho do partido de extrema direita em uma eleição estadual no país.
A CDU (União Democrata-Cristã), partido do primeiro-ministro estadual Sven Schulze e do chanceler federal Friedrich Merz, ficou em segundo lugar, com 18,5%, uma queda expressiva em relação aos 37,1% registrados na eleição anterior.
Se os números se confirmarem, a AfD se tornará pela primeira vez a legenda mais votada em uma eleição estadual. Também leva pela primeira vez a extrema direita ao poder desde o final da Segunda Guerra Mundial. Mas ainda não está definido se conseguirá formar o governo.
A legenda tem defendido que só assumirá o comando do estado se conquistar maioria absoluta e, até o momento, os demais partidos representados no Parlamento rejeitam uma coalizão com a extrema direita.
Os demais resultados ainda podem sofrer alterações com a apuração. A primeira projeção indica que A Esquerda, SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha) e Verdes devem superar a cláusula de barreira de 5% e permanecer no Parlamento estadual. O BSW, partido de esquerda populista liderado nacionalmente por Sahra Wagenknecht, ainda está próximo da marca necessária para conquistar cadeiras.
A legislação eleitoral de Saxônia-Anhalt prevê 83 cadeiras, distribuídas proporcionalmente entre os partidos que obtiverem pelo menos 5% dos votos. O resultado oficial provisório deve ser divulgado somente após a conclusão da apuração, prevista para a noite deste domingo ou para a madrugada de segunda-feira (07/09).
A liderança da AfD apresentou o resultado como uma autorização para assumir o governo estadual. Alice Weidel, uma das líderes nacionais da legenda, afirmou que a votação representa um mandato para governar Saxônia-Anhalt. O candidato do partido a primeiro-ministro estadual, Ulrich Siegmund, também classificou o resultado como histórico.
Siegmund, no entanto, havia condicionado sua candidatura ao cargo de primeiro-ministro estadual à conquista de uma maioria absoluta da AfD. O partido pretende governar sozinho e enfrenta a resistência dos demais partidos, que mantêm a chamada Brandmauer, a barreira política contra acordos de governo com a extrema direita.
A CDU sofreu uma das maiores derrotas de sua história no estado. A legenda governava Saxônia-Anhalt desde 2002 e havia obtido 37,1% dos votos na eleição de 2021. Com a projeção de 18,5%, passa a ter de negociar uma nova fórmula de governo sem contar com uma maioria formada apenas pelos partidos tradicionais que já integram ou apoiam a administração estadual.
O resultado também aumenta a pressão sobre Friedrich Merz, que assumiu a chancelaria federal em 2025. A derrota da CDU em um estado onde a legenda tradicionalmente tinha forte presença ocorre em meio ao crescimento nacional da AfD e pode ampliar o debate dentro dos conservadores sobre a estratégia para enfrentar a extrema direita.
A Alternative für Deutschland (AfD) foi fundada em 2013 por economistas e políticos inicialmente concentrados na oposição ao euro e nas críticas às políticas de integração europeia. Sob a liderança de Bernd Lucke, apresentava-se como uma formação nacional-conservadora e economicamente liberal. A crise migratória de 2015 acelerou a transformação do partido.
Frauke Petry substituiu Lucke na liderança, enquanto setores nacionalistas e mais radicais ganharam espaço. A legenda passou a concentrar sua atuação na imigração, no asilo e na identidade nacional e, em 2017, entrou no Bundestag com 12,6% dos votos. A Agência Federal de Educação Política alemã (Bundeszentrale für politische Bildung, bpb) registra uma progressiva deslocação da AfD para a direita radical e o fortalecimento de uma corrente nacionalista e völkisch.
Um dos principais polos dessa transformação foi o “Flügel”, corrente liderada por Björn Höcke. O grupo foi classificado pelo serviço alemão de proteção da Constituição, o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV), como uma organização de extrema direita e acabou formalmente dissolvido em 2020. O órgão, contudo, registrou que seus integrantes continuaram atuando dentro da AfD.
A AfD não é formalmente um partido neonazista, conceito que, na Alemanha, designa organizações que assumem explicitamente a tradição do nacional-socialismo e defendem sua restauração. A própria bpb diferencia neonazismo de outras formas de extrema direita. Há, porém, uma extensa documentação oficial e acadêmica sobre elementos de extrema direita, nacionalismo étnico, revisionismo histórico e referências ao vocabulário nazista dentro da AfD.
A bpb registra, por exemplo, a atuação de Höcke e sua defesa, em 2017, de uma “virada de 180 graus” na política alemã de memória histórica, além da sua caracterização do memorial do Holocausto em Berlim como um “monumento da vergonha”. Pesquisadores citados pela instituição classificaram a linguagem de Höcke como völkisch, palavra que designa um movimento cultural e político surgido na Alemanha entre o final do século XIX e o início do século XX, centrado na exaltação da identidade alemã, do folclore, das tradições rurais e da pureza racial.
Mais recentemente, a bpb registrou que Höcke foi condenado pela Justiça alemã por utilizar uma palavra de ordem associada à SA, a organização paramilitar do Partido Nazista. O órgão também cita o trabalho do sociólogo Andreas Kemper, que documentou o uso da expressão em círculos neonazistas e por integrantes da AfD.
O historiador Wolfgang Benz, especialista em história do nazismo e do Holocausto, escreveu em março deste ano que especialistas, políticos e órgãos de proteção constitucional classificam pelo menos setores da AfD como extremistas de direita. Para Benz, declarações e propostas de dirigentes da legenda apresentam elementos que correspondem a características da ideologia fascista.
Em 2025, o BfV classificou a AfD nacionalmente como “gesichert rechtsextremistisch”, ou seja, organização comprovadamente extremista de direita. A legenda contestou a classificação na Justiça. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Administrativo de Colônia impediu provisoriamente o órgão de utilizar essa classificação enquanto o processo principal não for concluído.
Ao mesmo tempo, os serviços de proteção constitucional dos estados de Saxônia-Anhalt, Turíngia, Saxônia e Brandemburgo classificam seus respectivos diretórios da AfD como organizações comprovadamente extremistas.