Após meses de atraso, França deve aprovar orçamento de 2026
Antes da adoção do texto, que prevê reduzir déficit público, premiê enfrentará duas moções de censura apresentadas pela esquerda
Após vários meses de atraso, o orçamento da França para 2026 deve ser aprovado nesta segunda-feira (02/02). Antes da adoção definitiva do texto, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu enfrentará duas novas moções de censura na Assembleia Nacional, que, segundo a imprensa francesa, não devem ser aprovadas nem provocar a queda do governo.
As duas moções foram apresentadas separadamente pelos partidos de esquerda – com exceção do Partido Socialista – e pela Reunião Nacional, de extrema direita. A oposição tomou a iniciativa depois que o premiê acionou o artigo 49.3, que permite a adoção do orçamento sem votação no Parlamento, apesar de ele ter se comprometido a não utilizar esse procedimento. Com a rejeição das moções de censura, que não devem obter a maioria absoluta necessária, o orçamento será definitivamente aprovado.
O jornal Le Monde avalia que o desfecho representa uma vitória para Lecornu. O premiê conseguiu se impor em apenas cinco meses, algo considerado improvável quando ele foi nomeado, em setembro de 2025. Apesar das dificuldades, o primeiro-ministro articulou uma estratégia para aprovar o orçamento, garantir a sobrevivência do governo e manter o controle da agenda política até as eleições municipais de março e, posteriormente, a eleição presidencial de 2027.
O projeto de orçamento, que prevê, entre outros pontos, reduzir o déficit público a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), não satisfaz plenamente ninguém, mas grande parte dos parlamentares parece querer finalmente virar a página dessa longa discussão orçamentária. Para obter apoio, Lecornu fez várias concessões significativas aos socialistas, entre elas a suspensão da reforma das aposentadorias até a eleição presidencial e a manutenção da sobretaxa sobre os lucros das grandes empresas.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu enfrentará duas novas moções de censura na Assembleia Nacional da França
Wikimedia Commons/Ecole polytechnique
Ressaca
Le Figaro classifica o orçamento como um “desperdício” e afirma que o país vive uma “ressaca” após cinco meses de debates e polêmicas no Parlamento. A dívida pública continuará alta, enquanto o desemprego cresce e as falências se multiplicam. Le Parisien afirma que o partido Os Republicanos, de direita, está dividido e sai enfraquecido dessa batalha, sendo criticado por boa parte de seus militantes.
Les Échos já projeta os próximos desafios de Lecornu. O primeiro-ministro precisa agora lidar com várias questões delicadas, como a crise agrícola – intensificada no fim de 2025 e início de 2026, em parte devido ao acordo União Europeia-Mercosul –, a reforma constitucional sobre a Nova Caledônia, considerada politicamente arriscada, a reforma da simplificação administrativa e o programa militar. A margem de manobra do governo é estreita, pois Lecornu não possui maioria parlamentar e dispõe de pouca flexibilidade financeira, destaca o jornal econômico.
Libération ressalta que diversos partidos e figuras políticas importantes agora pedem uma reforma constitucional profunda. A crise em torno da discussão orçamentária mostrou que o atual modelo constitucional francês está mal adaptado a um cenário político sem maioria parlamentar.
























