Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
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Portugal volta às urnas no domingo (08/02) para escolher o próximo presidente da República em um segundo turno, algo que não acontecia há 40 anos. Na disputa estão o candidato apoiado pelo Partido Socialista (PS), António José Seguro, e o líder da extrema direita, André Ventura. Este último, viu seu partido, o Chega, saltar de um para 60 deputados no Parlamento em apenas seis anos.

No primeiro turno, realizado em 18 de janeiro, Seguro venceu com oito pontos percentuais de diferença, ao obter 31% dos votos válidos, contra 23% do seu adversário. Apesar de ser ligado a figuras mais à direita dentro do PS, neste cenário de segundo turno sua candidatura aparece como a que representa a defesa dos valores da Revolução dos Cravos.

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Caso Ventura vença, a extrema direita volta ao poder no país 52 anos após o movimento revolucionário que derrubou a ditadura salazarista, a mais longa da Europa – que durou 36 anos desde a chegada de António Salazar ao poder, em 1932, até a queda do regime do Estado Novo, em 1974, embora alguns historiadores incluam seis anos mais, contando o período desde o golpe de Estado de 1926.

A Opera Mundi, o filósofo e historiador Carlos Hortmann acredita que esse fenômeno não deve ser entendido como algo meramente local, mas parte de um problema transversal aos países do chamado “Ocidente”, que vivem hoje uma crise no regime político liberal enquanto formas de gestão dos conflitos sociais sobre o capitalismo.

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“André Ventura tem sabido captar politicamente o desamparo e a desesperança política de setores da classe trabalhadora, via o racismo colonial e, também, no discurso lusotropicalista presente ao longa da história portuguesa”, afirma o pesquisador que tem se dedicado aos estudos sobre o crescimento do fascismo e do neofascismo na política europeia no Instituto Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE-IUL).

Mesmo com a vitória de Seguro no primeiro turno, a soma dos votos em candidatos da direita foi maior do que em candidatos à esquerda. Para Carlos, esse cenário revela haver uma divisão e uma disputa dentro da direita no país. Por outro lado, o professor afirma existir um descontentamento com o atual regime político, algo que a extrema direita neofascista tem conseguido mobilizar e galvanizar.

“Existe também uma reconfiguração na própria direita, em que o Chega procura tomar a hegemonia política desse campo a fim de ser governo executivo nos próximos anos. Um pouco do que o bolsonarismo fez no Brasil com a direita tradicional ou dita moderada: formar um bloco social hegemônico que, através de sua força, atrai vários eleitores e quadros da direita tradicional”.

Na visão de Carlos, a vantagem de Seguro daria-se muito mais por ele ser da ala mais à direita dentro do PS, e por não ter “anticorpos” entre muitos políticos da direita tradicional lusitana, mesmo que haja liberais e grandes setores da classe dominante portuguesa apoiando o Chega.

Cotrim de Figueiredo, candidato da Iniciativa Liberal que ocupou o terceiro lugar nas eleições, já havia declarado um possível apoio a Ventura caso não estivesse no segundo turno. Já o Almirante Gouveia e Melo, que apareceu em quarto lugar na disputa, declarou voto no socialista, bem como Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo governo de Luís Montenegro, que acabou amargando o quinto lugar no pleito.

Apoio neonazista

Há duas semanas, a Polícia Judiciária de Portugal deteve 37 suspeitos de integrarem a organização neonazista 1143, na “Operação Irmandade”. A ação, conduzida pela Unidade Nacional Contraterrorismo com 65 buscas, resultou na apreensão de propaganda de extrema direita violenta, armas proibidas e equipamento tático. Os crimes investigados incluem discriminação, incitação ao ódio e à violência, ameaças, coação e ofensas à integridade física.

Entre os detidos, estavam um policial, um militar da Força Aérea e militantes do partido Chega, presidido por Ventura. O líder do grupo, Mário Machado, já estava preso e condenado a mais de dois anos. No entanto, sua pena foi atualizada para quatro anos após a investigação revelar que, mesmo na cadeia, ele continuava no comando da organização.

Machado planejava ataques contra a comunidade muçulmana em fevereiro, mesmo mês do segundo turno das eleições presidenciais. O grupo, que declarou voto no Ventura, também tem como alvos jornalistas e imigrantes de diferentes nacionalidades, incluindo brasileiros.

O Chega usa constantemente a retórica anti-imigração e defende a teoria de que Portugal está enfrentando uma “islamização” forçada, que seria a causa da elevação das taxas de criminalidade no país.

Para Carlos Hortmann, essas contradições exigiriam uma longa digressão sobre a ideologia racista que forjou a mentalidade de diversos povos que vivenciaram impérios coloniais, articulada com a força das correntes da chamada “ideologia tradicionalista”, que visam associar a crise social, política, econômica e ambiental com a “decadência do Ocidente”.

Contudo, ao invés de identificarem no modo de relação social e de produção capitalista o eixo dessa estrutura “decadente”, a explicação dada por movimentos que apoiam o ultradireitista é a de que a culpa vem da imigração, especialmente a de matriz muçulmana e a asiática, além, claro, da comunidade cigana.

Segundo o pesquisador, o cerne dessa questão está no fato desses emigrantes portugueses, que viveram condições similares aos que muitos imigrantes brasileiros vivem em Portugal, não reconhecem essa contradição. Muitos afirmam que “não desrespeitam” e procuram “se integrar” na ordem existente do país em que estão inseridos, formando uma espécie de “ethos-moral superior”.

André Ventura durante evento de campanha
Chega / X

Legitimação do ódio como projeto político

Os reflexos dessa escalada de ódio são nítidos no país. No início de janeiro, a portuguesa e muçulmana Mariana Tavares, de 27 anos, denunciou um episódio de negligência médica e islamofobia durante atendimento no Hospital São José, um dos maiores do país. Segundo seu relato, médicos e enfermeiros teriam agido com violência, além da ridicularização que diz ter enfrentado por conta de sua religião. Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde lamentou a situação e garantiu que um processo administrativo seria aberto para investigar o caso.

Em novembro, Opera Mundi também noticiou o caso de uma criança brasileira de nove anos que teve os dedos das mãos decepados por meninos da mesma idade em uma escola em Cinfães, no distrito de Viseu. A mãe, Nívia Esteves, já havia comunicado aos professores e à direção que o seu filho estava sofrendo xenofobia e racismo no ambiente escolar, além de “puxões de cabelo, pontapés e enforcamento”. Hoje, a comunidade brasileira é a maior em Portugal. São mais de 500 mil residentes no país.

“A tentativa de responder todas as outras perguntas nos dá pistas sobre como o Chega foi sendo naturalizado na sociedade. Esse processo ocorreu com a conivência de setores da comunicação social, de políticos e quadros da direita”, lembra Hortmann, dando como exemplo o atual governo, que buscou “pautar as pautas” do partido de André Ventura, legitimando a agenda do Chega.

Segundo o historiador, “essa retórica serviu de justificativa para a criação de uma lei de imigração excessivamente restritiva, que, paradoxalmente, pode fomentar a imigração ilegal e o tráfico de pessoas”.

Quanto à ligação de membros neonazistas ao Chega, Carlos afirma ser crucial entender que a atuação violenta e criminosa desses grupos extremistas, amplamente denunciada pela mídia e punida pela polícia, acaba por criar, segundo ele, um contraste enganoso.

“É preciso ter consciência de que essa gente perigosa e violenta acaba por normalizar o Chega. Mesmo diante de denúncias e prisões, o partido consegue se apresentar no imaginário social, ainda que de forma falsa, como uma direita moderada. Na realidade, porém, trata-se de duas vertentes políticas de um mesmo projeto societário neofascista”, analisou.

Aliado de Trump

Outro ponto observado por Hortmann é sobre o fato da extrema direita, ao longo dos anos, ter conseguido juntar força política para incorporar o sentimento “antissistema”. De acordo com ele, partidos e movimentos da esquerda acabaram por ser “domesticados” politicamente a partir desse aspecto.

“A esquerda não está disposta a construir um imaginário de superação do capitalismo, mesmo que a longo prazo, mas vive numa eterna luta para ‘remendar’ os estragos que o capitalismo faz na sociedade. Estragos que são cada vez maiores, principalmente a destruição do meio ambiente. No final do dia, populações inteiras ficam sem nada, com dívidas e sem casa. Mas os donos das seguradoras e os grandes capitalistas continuam ricos e a viverem bem”, pontua.

Mesmo sendo a força de esquerda com capilaridade social, para o pesquisador e historiador o PCP não conseguiu captar as transformações no capitalismo em Portugal, mantendo sua estratégia política presa a uma memória histórica importante, como o 25 de Abril, mas perde de vista o que chama de “consequências regressivas e reacionárias” que a vitória de legendas como o PS, PSD, CDS e afins, tivera na constituição do capitalismo e do Estado pós Revolução dos Cravos.

Sobre a possível influência da “política pela força”, promovida por Donald Trump, nas eleições presidenciais portuguesas, Hortmann avalia que esse impacto pode, sim, ocorrer. Segundo ele, esse efeito torna-se ainda mais plausível quando se observa a Estratégia de Segurança Nacional publicada pelos Estados Unidos em dezembro de 2025. Hortmann lembra ainda que Ventura vê em Trump um aliado, o que pode reforçar essa influência no contexto político português.

Porém, o pesquisador lembra que Portugal não tem grande relevância geoestratégica para o imperialismo capitalista. O principal interesse da Casa Branca estaria na Base das Lajes, nos Açores, que utilizam com ampla autonomia.

“A Europa, por sua vez, tornou-se uma espécie de vassala dos norte-americanos e, pela primeira vez na história geopolítica, não ocupa o centro de uma reconfiguração hegemônica. Mas acredito que Trump concentra sua atenção em potências como França, Reino Unido e Alemanha, que representam as principais economias e forças produtivas do continente”, finaliza.