Índia e UE assinam acordo que cria maior zona de livre comércio mundial
Considerado 'histórico', pacto comercial abrange dois bilhões de pessoas e 25% do PIB global, abrindo mercado indiano a produtos e serviços europeus
A Índia e a União Europeia concluíram um acordo comercial de proporções inéditas nesta terça-feira (27/01). Descrito como “histórico” e “o maior de todos”, o pacto cria uma ampla zona de livre comércio abrangendo cerca de dois bilhões de pessoas e aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) global.
O acordo foi anunciado em Nova Déli pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, após décadas de negociações, iniciadas em 2007.
Von der Leyen afirmou que o momento é histórico e que o pacto comercial é a “mãe de todos os acordos comerciais”. “Fazemos história hoje. Concluímos o acordo mais importante de todos. Criamos uma zona de livre comércio para dois bilhões de pessoas, com benefícios para ambos os lados”, afirmou em postagem na plataforma X.
Segundo ela, o acordo garante à União Europeia “o nível de acesso mais elevado alguma vez concedido a um parceiro comercial no mercado indiano, tradicionalmente protegido”, assegurando “uma vantagem competitiva significativa em setores industriais e agropecuários chaves”.
‘Maior da história’
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, celebrou o desfecho das negociações, destacando seu impacto econômico e social. “Este acordo trará muitas oportunidades para os 1,4 bilhão de habitantes da Índia e para os milhões de cidadãos da UE”, disse.
Modi ressaltou que o pacto cobre cerca de um quarto da economia mundial e dará impulso direto a setores estratégicos da Índia, como têxteis, pedras preciosas e joias, além de artigos de couro. O premiê afirmou que “as duas maiores potências democráticas do mundo estão acrescentando um capítulo decisivo às suas relações”, classificando o pacto como “o maior acordo de livre comércio da história”.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, destacou o significado político do pacto. “Este acordo envia uma mensagem clara ao mundo num momento em que a ordem global está sendo fundamentalmente remodelada”, afirmou.

Índia e UE assinam acordo que cria maior zona de livre comércio mundial
@narendramodi / X
O acordo
O acordo abre o vasto e protegido mercado indiano aos produtos e serviços europeus, ao mesmo tempo em que amplia o acesso de exportadores indianos ao mercado da UE, formado por 27 países, prevendo a eliminação ou redução de tarifas sobre 96,6% das exportações de bens da União Europeia para a Índia.
Máquinas, produtos químicos e farmacêuticos terão tarifas total ou quase totalmente eliminadas. No setor automotivo, as tarifas — hoje em torno de 110% — serão reduzidas gradualmente para 10%, dentro de uma cota anual de 250 mil veículos. Aeronaves e produtos aeroespaciais europeus terão taxas zeradas, enquanto prestadores de serviços da UE passarão a ter acesso privilegiado a áreas estratégicas na Índia, como serviços financeiros e marítimos.
No setor agroalimentar, o acordo estabelece reduções graduais: tarifas sobre vinhos europeus cairão para a faixa de 20% a 30%, e sobre cervejas para 50%. Já tarifas sobre sucos de frutas e alimentos processados serão eliminadas. Documento divulgado pela Comissão Europeia descreve o pacto como “a maior abertura comercial que a Índia já concedeu a qualquer parceiro comercial”.
Com a criação da zona comercial, Bruxelas e Nova Déli buscam diversificar mercados e se proteger da agressiva política tarifária do presidente norte-americano Donald Trump. A Índia enfrenta tarifas de 50% sobre as exportações para os Estados Unidos, enquanto a UE está sob constante ameaça tarifária por sua resistência às intenções de Trump de anexar a Groenlândia.
Paralelamente ao acordo comercial, também foi anunciada uma parceria de segurança e defesa, nos moldes das que a UE mantém com Japão e Coreia do Sul.
Apoio dos países europeus
Os líderes europeus saudaram o tratado firmado nesta terça-feira (27/01). O presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, Bernd Lange, disse que “a conclusão das negociações com a Índia oferece um vislumbre de esperança em meio a uma situação geopolítica caótica”.
“A UE não está sozinha na sua insistência numa ordem baseada em regras. Este é apenas o início de uma estreita cooperação com a Índia. Podemos construir sobre esta base no futuro”, afirmou.
O chanceler Friedrich Merz, após sua viagem à Índia, já havia classificado a relação bilateral como “alta prioridade” para seu governo. O ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, afirmou que “o acordo cria novas oportunidades de crescimento e bons empregos – tanto na Europa quanto na Índia – ao mesmo tempo que aprofunda a parceria estratégica com a maior democracia do mundo”.
O presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, manifestaram apoio ao acordo anteriormente. O líder francês deve visitar a Índia no próximo mês.
O acordo agora passará por uma revisão jurídica e terá de ser aprovado pelos membros da UE e do Parlamento Europeu, o que deve levar de cinco a seis meses, com implementação efetiva dentro de um ano.
























