Novo governo britânico ignora pressão parlamentar para reconhecer genocídio em Gaza
Oitenta congressistas cobraram adoção do premiê Andy Burnham ao inquérito da ONU, incluindo embargo de armas contra Tel Aviv; Ministério responde sem mencionar pedidos
O governo britânico, agora liderado pelo primeiro-ministro Andy Burnham, rejeitou os apelos de oitenta parlamentares para reconhecer oficialmente como genocídio as ações de Israel na Faixa de Gaza.
Liderados pela trabalhista Kim Johnson, oitenta membros da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes, de diferentes forças políticas, encaminharam uma carta ao Burnham cobrando que o Reino Unido reconheça as conclusões do relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU.
O Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento, respondeu o documento, no entanto, não abordou o uso específico do termo “genocídio”, nem as demais demandas dos parlamentares.
Em comunicado, o porta-voz da chancelaria britânica, Ed Miliband, disse que “o Ministério deixou claro que o Reino Unido trabalhará incansavelmente para alcançar uma paz sustentável na Palestina e em Israel, incluindo o fim do terrível sofrimento do povo de Gaza e a garantia da segurança dos israelenses”.
Sem mencionar o pedido dos congressistas, o texto destaca medidas tomadas pelo governo Starmer, incluindo quatro rodadas de sanções contra entidades e indivíduos ligados à violência de colonos na Cisjordânia e as sanções britânicas contra os ministros israelenses Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.

Novo governo britânico ignora pressão parlamentar para reconhecer genocídio em Gaza
X / @andyburnham
O que pedem os parlamentares
Na carta, os parlamentares britânicos afirmam que Burnham, que tomou posse em 20 de julho, tem “a oportunidade de realmente abrir um novo capítulo” na política britânica em relação ao povo palestino. Para isso, ele precisa “reconhecer as conclusões da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU de que Israel está cometendo genocídio e implementar a decisão do Tribunal Internacional de Justiça”.
Em relatório divulgado em junho de 2026 – e em outros anteriores –, a Comissão das Nações Unidas concluiu que as forças e autoridades israelenses cometeram genocídio em Gaza, citando, inclusive, os ataques deliberados contra crianças palestinas.
Os parlamentares cobraram a aplicação de “todas as medidas razoáveis para prevenir ou mitigar o risco de genocídio em Gaza”, sugeridas no relatório, começando pela imposição de “sanções abrangentes a Israel, incluindo um embargo total de armas” e a interdição do comércio de bens e serviços oriundos de assentamentos israelenses nos territórios palestinos.
A carta também menciona que o Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) considerou ilegal a ocupação israelense nesses territórios, condenando as violações de obrigações internacionais relacionadas à segregação racial e ao apartheid.
Os parlamentares frisam, ainda, que o governo Starmer não adotou as medidas necessárias diante dessa decisão.
Desculpas de Burnham
Antes de tomar posse do governo britânico, Burnham reconheceu a falha de Starmer, inclusive pediu desculpas, em entrevista dada ao The Guardian, em 9 de julho, pela maneira como o Partido Trabalhista lidou com o conflito: “sinto muito por isso. A resposta muitas vezes não foi boa o suficiente. Precisamos melhorar”, disse.
Ele descreveu o sofrimento em Gaza como uma “cicatriz em nossa consciência coletiva” e se comprometeu com a questão palestina. “Precisamos fazer mais para pressionar o governo israelense”, afirmou, apontando que “o Reino Unido foi lento demais para pedir um cessar-fogo”. “Agora precisamos fazer mais para fortalecer nossa abordagem”, declarou.
No entanto, já frisava The Guardian, Burnham não usou a palavra genocídio, salientando que embora houvesse “evidências crescentes” de crimes de guerra, cabia aos tribunais internacionais tomar essa decisão.
“Deve haver responsabilidade pela profundidade do sofrimento que o povo de Gaza experimentou. No entanto, em última análise, deve ser a decisão dos tribunais internacionais, e não dos políticos”, afirmou, ao jornal britânico.
























