Em seu discurso durante Assembleia Geral das Nações Unidas, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, denunciou a tentativa “planejada e coordenada” de desmantelamento da ordem multilateral e acusou governos “reacionários” de violarem regras internacionais, promover guerras ilegais e atacar as instituições multilaterais, criadas após a Segunda Guerra Mundial.
“Subo a esta tribuna com um único objetivo: defender aquilo que muitos estão tentando destruir” e “reivindicar os princípios e as ambições que inspiraram a criação desta organização” e que “vários governos aqui presentes desprezam e pretendem desmantelar”, disse Sánchez, nesta quarta-feira (24/09).
Sanchez disse os princípios de paz, sustentabilidade e igualdade de oportunidades estão sendo atacados por governos que pretendem levar o mundo de volta a “um passado sombrio”. “Não é preciso apontá-los. Todos sabemos quem são e qual é seu *modus operandi*”, afirmou.
Ele destacou que esses governos começaram questionando as regras internacionais e passaram a descumpri-las por acreditarem que ninguém exigirá responsabilidades. Ele citou a redução das contribuições aos organismos multilaterais, comemoradas por Donald Trump anteriormente, e o bloqueio à capacidade de atuação da ONU, para apresentá-la como uma instituição inútil.
Segundo Sánchez, trata-se de uma ‘tentativa de demolição planejada e coordenada”, afirmou.

Sánchez apontou que essa ofensiva é sustentada pelo “egoísmo, ignorância e crueldade”. O primeiro estaria baseado na ideia de que as relações internacionais funcionam como um jogo de soma zero, no qual o ganho de um país necessariamente representa a perda de outro. O segundo, pelo desprezo à ciência e pela crença de que as nações mais poderosas podem prosperar isoladamente. O terceiro, que classificou como o pior, pela indiferença diante da pobreza extrema, da morte de crianças e da destruição de hospitais.
“Eu estou aqui e subo a esta tribuna para dizer, alto e claro, que eles estão errados e que não vamos nos calar. Que os espanhóis não vão dar um passo atrás. Que não vamos deixar de acreditar que a humanidade pode continuar progredindo e que, entre todos e todas, podemos construir um mundo melhor”, declarou.
Na sequência, Sanchez defendeu multilateralismo como “o melhor instrumento que a humanidade tem para gerir sua diversidade e sua interdependência”. Ele destacou a necessidade de uma profunda reforma nas Nações Unida e a ampliação da representatividade do Conselho de Segurança, o fim do poder de veto dos cinco membros permanentes e o fortalecimento do Tribunal Penal Internacional (TPI).
“A humanidade levou séculos para substituir o direito do mais forte pela força do direito, e nós não podemos ser a geração que percorra esse caminho no sentido contrário”, afirmou.
Sánchez também criticou o fato de as Nações Unidas nunca terem sido comandadas por uma mulher. “Como pode uma organização que pretende falar em nome de toda a humanidade nunca ter tido uma mulher à frente?”, questionou. “Chegou o momento de saldar uma dívida histórica: que uma mulher da América Latina ocupe pela primeira vez a Secretaria-Geral da ONU”, afirmou.
Sánchez salientou que enquanto outros países reduzem recursos destinados à cooperação internacional, a Espanha duplicou seus investimentos nessa área e elevou em 60% sua contribuição ao sistema multilateral. E reiterou o compromisso de seu governo com a paz.
Ele pediu a reconstrução de uma arquitetura global de não proliferação e desarmamento nuclear. Também defendeu a regulamentação e regras mais rígidas para as grandes empresas de tecnologia, salientando a necessidade de se colocar os interesses das novas gerações acima dos interesses econômicos.
Sobre os conflitos globais, Sanchéz afirmou que a Espanha se posicionou contra as guerras contra o Irã, Líbano e Ucrânia, destacando que seu governo recusou-se a elevar os gastos militares a 5% do PIB, conforme a pressão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobre as nações europeias.
Ele lembrou também a imposição do seu governo do embargo de armas ao governo israelense, “condenando, sem ressalvas, o genocídio que Netanyahu continua perpetrando em Gaza”.