Vítimas de abuso da Igreja Católica criticam ausência de encontro com o papa na Espanha
Entidades reclamam que ‘vítimas estão se sentindo realmente maltratadas’ pelo Vaticano, que alega ter agenda apertada (apesar de que ficará seis dias no país) e que já as teria recebido em Roma
A Espanha se prepara há várias semanas para receber o papa Leão 14, cuja visita oficial ao país, nesta semana, terá início neste sábado (06/06), e continuará até a próxima sexta-feira (12/06).
As ruas do centro estão cheias de flores amarelas e brancas, centenas de outdoors e faixas espalhadas dão as boas-vindas ao pontífice na capital madrilenha, 14 mil policiais farão a segurança do evento e 16 mil voluntários esperam ansiosos para ajudar durante a visita.
Em contraste com a atmosfera festiva, grupos de vítimas de abusos sexuais cometidos no seio da Igreja Católica espanhola afirmam estar indignados por ainda não terem confirmação de um encontro com o Papa durante sua passagem por Madri.
“Dizem que o tempo é limitado e que vão participar de muitos eventos, alguns até mesmo completamente irrelevantes, na minha opinião. Mas o tempo das vítimas também é limitado e isso não está sendo levado em consideração. O meio eclesiástico sempre tentou nos silenciar, nos menosprezar e nos minimizar. Acho que já passou da hora da estrutura da igreja mudar e cuidar das suas vítimas”, reclama Juan Cuatrecasas, porta-voz da Associação Nacional da Infância Roubada (ANIR).
Diversas associações que representam centenas de vítimas enviaram um e-mail ao Vaticano solicitando uma audiência com o pontífice durante a visita, mas até agora não receberam uma resposta positiva.
O porta-voz oficial do Vaticano, Matteo Bruni, afirmou que por enquanto não há previsão de encontro privado entre o Papa e as vítimas de abusos da Igreja católica durante esta ocasião.
Protesto e indignação
Cuatrecasas considera a ausência de resposta um gesto ofensivo e fala em descaso.
“Se o Papa nos recebesse, seria uma maneira de conforto espiritual. Eu explicaria a ele qual é a postura real da Igreja Católica em relação à violência sexual contra crianças e pediria que ele tentasse mudar a atitude dos seus bispos e cardeais, pois eles não estão fazendo nada. As vítimas estão se sentindo realmente maltratadas pela Igreja”, diz.
O vice-presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), o cardeal José Cobo Cano, também se pronunciou e disse que há milhares de grupos pressionando para serem ouvidos durante a visita e destacou que o Papa já se reuniu com vítimas em Roma várias vezes.
O porta-voz da associação de vítimas avisa que se esse encontro não acontecer, vários grupos vão se reunir para protestar enquanto o papa visita Madri, na frente da Nunciatura apostólica, na capital espanhola, na próxima segunda-feira. O local é a representação diplomática da Santa Sé na Espanha, equivalente a uma embaixada do Vaticano.

Visita do papa Leão 14 à Espanha durará seis dias
Lucila Runnacles / Opera Mundi
Visita oficial
Depois de 15 anos sem uma visita papal ao país, o evento terá duração de uma semana e custo estimado em cerca de 25 milhões de euros, aproximadamente R$150 milhões, segundo os organizadores. O financiamento será compartilhado entre instituições públicas, empresas, fundações, doações e a Conferência Episcopal Espanhola.
Além de três dias em Madri, o Papa também visitará Barcelona, Tenerife e Canárias. Ao longo da viagem, estão previstos cerca de 21 compromissos oficiais, incluindo uma missa massiva na capital, um discurso no Congresso espanhol e um encontro com fiéis no estádio Santiago Bernabéu.
Em Barcelona, o Papa Leão 14 celebrará uma missa na Sagrada Família e visitará um centro penitenciário. Já nas Ilhas Canárias, o foco serão vários encontros com imigrantes.
























