Dez dias em Caracas, parte 2: vida que segue, apesar de tudo

Fotógrafa Amanda Cotrim foi à capital venezuelana movida pela vontade de retratar o cotidiano da cidade; veja a segunda parte do ensaio fotográfico

Amanda Cotrim

Caracas (Venezuela)

Parte 2: Travessia 

Todos os dias, com ou sem crise, precisamos de um sentido que nos faça levantar da cama, escovar os dentes, tomar um café, caminhar até onde quer que seja... 

Até um trabalho, um bar, um lugar que nos mostre que a vida segue, apesar de tudo. 

Atravessamos muitas ruas, algumas que não nos damos conta. Pegamos ônibus, paramos em lojas e, mesmo que não compremos nada, entramos, porque o que importa talvez não seja comprar, mas ver e pensar que um dia poderemos comprar.  

Enxergo no cotidiano um universo rico de significados e a fotografia que apresento quer mostrar os pequenos e banais eventos do dia-a-dia, construindo uma narrativa visual que dialoga com o contexto social atual da Venezuela: a aparente normalidade e a sensação de que o pior pode acontecer a qualquer momento, seja uma intervenção externa, seja uma guerra interna, falta de comida e serviços essenciais. 

Há uma aparente paz em Caracas, nesse momento: os mercados estão abastecidos, os serviços de transporte têm funcionado, ainda que, uma vez ou outra, para não dizer diariamente, falte energia elétrica e água em muitas regiões da cidade. Eu estive hospedada em uma casa, localizada próxima ao centro, onde por cinco dias consecutivos tiveram os famosos “apagões”, mas, no mesmo dia, várias zonas de Caracas não sofreram tal impacto. 

Há dias em que o frango está acessível, outros dias...comer ovos é um luxo. Há dias em que se ouve no rádio que há um risco de intervenção militar externa, no outro dia o governo afirma que está trabalhando para fazer um acordo de paz com a oposição. É uma linha tênue. E a vida segue, apesar de tudo. 

Motorista de transporte público, em Caracas. O ônibus na capital custa 1000 bolívares. O valor de um dólar, atualmente, é 20 mil bolívares





América Latina: Um povo sem pernas, mas que caminha. Centro de Caracas
 

Manifestação contra o governo, no bairro de classe média, Chacao, considerado uma zona divida entre pessoas que apoiam o legado de Chávez e contrários












 Ruas do centro de Caracas
 












Ruas do bairro La Pastora, o primeiro bairro de Caracas
 

Cotidiano. Vendedor ambulante, no centro de Caracas 

Amanda Cotrim
Fotógrafa foi à capital venezuelana movida pela vontade de retratar o cotidiano da cidade

Manifestação pelo fim das sanções econômicas impostas a Venezuela pelos EUA, em Caracas. Setembro de 2019 


Mãe empurra a cadeira de rodas da filha, que sofre com uma enfermidade que é degenerativa. Ela recebe 5 dólares por mês por trabalhar como enfermeira.  A filha, que hoje tem 29 anos, recebe menos de um dólar por mês do governo em razão da sua condição. Nesse momento, um dólar custa 20 mil bolívares
 

Homem faz "fezinha" e aposta em sorteio 

Homem carrega galões de água pelas ruas do bairro La Pastora. Há muitas zonas em Caracas que a falta de abastecimento de água se tornou regra e não mais exceção  

Mercado anexo ao mercado de Chacao, uma zona de classe média, em Caracas  

É muito comum encontrar pela cidade de Caracas pessoas consertando automóveis, como no caso desse ônibus  

Homem procura em meio a caçamba de lixo. Uma cena não muito comum, apesar da crise, mas existente, como em todas as grandes cidades da América do Sul  

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