Guerra afasta Irã de vizinhos do Golfo e aproxima Paquistão e China, avalia especialista
Segundo Reginaldo Nasser, EUA precisam apresentar resultados com urgência na guerra: ‘Trump anunciou diversos objetivos e não conquistou nenhum’
Após 40 dias de guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário geopolítico tem apresentado alguns indícios de que mudanças importantes podem ser produzidas em função desse conflito. Na avaliação do professor Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o status dos países no tabuleiro geopolítico pode passar por transformações, embora essa dinâmica esteja em pleno desenvolvimento, já que o conflito continua vigente.
Para Nasser, o recuo do mandatário estadunidense sobre o ataque ao Irã se deve a diferentes fatores, incluindo a pressão de países aliados do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes e Kwait), com medo de que um ataque mais forte dos Estados Unidos pudesse levar a uma retaliação ainda maior de Teerã, especialmente através do bloqueio de petroleiros no Estreito de Ormuz.
“As monarquias do Golfo têm muita influência na elite norte-americana, e seus países têm sido duramente atingidas pelo Irã”, analisou.
O analista internacional examina o cenário das relações regionais entre os países da Ásia Ocidental a partir da guerra e considera que ainda há uma incógnita sobre como será a relação entre o Irã e seus vizinhos do Golfo Pérsico. “É difícil haver uma aproximação com o Irã depois de tudo isso. A tendência é que países como Arábia Saudita e Emirados Árabes vão se armar muito mais, por considerar Teerã como uma ameaça muito maior”.
Nasser acredita que, ao se distanciar dos países do Golfo, a República Islâmica tende a “reforçar algo que já vinha fazendo”, que é desenvolver uma estratégia voltada para a Ásia. “E a presença do Paquistão no conflito é muito relevante nesse aspecto, assim como a da China”.
Em uma análise sobre as consequências a longo prazo, Nasser sugere “observar os próximos passos de países europeus do Ocidente, e também das monarquias do Golfo, e tentar entender como estão pensando”.
“Certamente, (os países do Golfo) devem estar avaliando uma alternativa para a questão do Estreito de Ormuz. Se eles não são capazes de recuperar o controle do Estreito, o que vão fazer? Há oleodutos e gasodutos que estavam em processo de elaboração, mas essa construção precisará ser acelerada, para permitir que esses países possam ter uma saída pelo Mar Vermelho para escoar sua produção petrolífera”, comentou.
Trump sem conquistas
Segundo Nasser, quando a guerra teve início, Trump apresentou diversos objetivos, e isso foi uma estratégia para, no momento oportuno, “ele escolher um desses objetivos e dizer que ele foi alcançado”.
“O problema é que, na verdade, nenhum dos objetivos foi alcançado até agora: não houve mudança de regime no Irã; o programa nuclear não se interrompeu, o país continua enriquecendo urânio; a infraestrutura balística pode ter sido afetada, mas não foi destruída; tampouco foi cortada a relação de Teerã com seus aliados. Enfim, os Estados Unidos não cumpriram nenhum dos objetivos anunciados naquele início por Trump”.

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RS/via Fotos Publicas
Sobre a declaração dada por Trump horas antes de ser anunciado o acordo, quando o presidente norte-americano disse que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”, Nasser acredita que, para além dos exageros retóricos, um ataque mais duro contra o Irã provavelmente foi cogitado, até porque, “ao não conquistar nenhum dos objetivos anteriores, Washington precisava produzir algum resultado substantivo, e possui armas suficiente para isso”.
O Irã está vencendo?
O professor pondera sobre o fato de que a nação persa, diferente do país norte-americano, sim teria alcançado alguns objetivos, ainda que não de forma definitiva, ao menos por enquanto. “O Irã conseguiu sobreviver, o sistema de governo continua vigente, e mais do que isso, conseguiu algo estratégico que foi aumentar seu controle sobre o Estreito de Ormuz. Foi uma demonstração de poder”.
Porém, na questão militar, Nasser considera que a Guarda Revolucionária Islâmica “provou ter uma alta capacidade de destruição, atingindo Israel e as monarquias do Golfo de uma forma nunca tinham sentido antes, mas ainda possui um problema importante em sua defesa”.
“Os ataques dos Estados Unidos e de Israel afetaram fortemente a infraestrutura civil, infraestrutura energética, e também houve destruição de bases militares”, afirmou.
Perspectiva humanitária
Além do lado geopolítico, Nasser aponta a importância de avaliar as questões humanas em uma guerra, lembrando que, “mesmo em façanhas históricas”, como a vitória do Vietnã sobre os Estados Unidos, morreram dois milhões de vietnamitas nesse conflito.
“No caso do Irã agora, há muitas mortes de civis, e também muitas mortes de lideranças iranianas importantes. Além disso, a infraestrutura civil destruída afeta a vida das pessoas. O país está muito danificado e o processo de reconstrução será doloroso”.
























