“Vocês, o povo americano, têm o poder de impedir esse destino sombrio”, é com esse apelo que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) se dirige diretamente à população dos Estados Unidos em uma extensa carta aberta, divulgada nesta terça-feira (29/09).
O documento é um chamamento para que os norte-americanos atuem e pressionem o governo Trump pelo cessar-fogo. A Guarda Revolucionária afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem levando o país ao declínio e defende uma mudança profunda na política externa de Washington.
O documento, dirigido nominalmente ao “honrado povo” dos Estados Unidos, seus estudantes, acadêmicos e imprensa, separa o governo dos Estados Unidos e sua população e traz a visão iraniana das últimas sete décadas da relação Washington/Teerã.
Segundo a Guarda Revolucionária, de maneiras diferentes, tanto o Irã quanto o povo norte-americano são vítimas de uma mesma elite política e econômica. O texto frisa que as políticas externas de Washington prejudicam tanto outros povos quanto os próprios cidadãos norte-americanos e pede para que eles efetivamente atuem para mudar os rumos do país.
A relação dos Estados Unidos com Israel também é mencionada. A Guarda acusa sucessivos governos norte-americanos de colocarem os interesses israelenses acima dos da própria população dos EUA e responsabiliza o apoio político, financeiro e militar de Washington pela continuidade dos massacres em Gaza.
“O genocídio na Palestina, no Líbano e as guerras intermináveis em outras partes do mundo são financiados com o dinheiro dos seus impostos”, diz o texto. Os militares iranianos também pedem para que os estadunidenses imaginem situações semelhantes ocorrendo em seu próprio território; e que obriguem seu governo a “se distanciar de Israel”, afirmando que “em breve, a Palestina será libertada”.
Outro parte do documento é dedicada ao declínio dos Estados Unidos. A Guarda relaciona o custo da ampla presença militar norte-americana no exterior e de suas sucessivas guerras com o crescimento da dívida, a desigualdade econômica e a perda da capacidade industrial do país. O documento recupera o Afeganistão e o Iraque como exemplos de intervenções que provocaram enormes custos humanos e econômicos aos Estados Unidos.
Teerã frisa que o mundo inteiro espera que o povo norte-americano detenha o governo Trump. “Agora é a hora”, diz o texto, ao elencar medidas criticadas neste segundo mandato do republicano, como a política tarifária e a prioridade do seu governo dada às guerras.

A Guarda elenca algumas mudanças que os Estados Unidos devem realizar, entre elas: a desativação das bases militares pelo mundo e o retorno dos que nelas estão ao país, fim da ajuda a Israel, interrupção das guerras de intervenção e desmantelamento de estruturas utilizadas para promover golpes de Estado e desestabilizar outros países.
Os recursos economizados devem ser direcionados à pesquisa científica, à indústria e ao desenvolvimento de tecnologias avançadas nos Estados Unidos, sugerem os militares iranianos. Eles também pedem à população que escolham dirigentes com “conhecimento, integridade e honestidade”, afirmando que o país possui recursos suficientes para assegurar prosperidade à sua população sem precisar explorar outras nações.
A carta também pede que os norte-americanos pressionem seus representantes no Congresso para responsabilizar o governo pelas mortes de crianças iranianas, em particular, as vítimas do ataque à escola infantil, em Minab, no primeiro dia do conflito.
A Guarda também adverte que, caso Washington mantenha sua atual política, a reação contra os interesses norte-americanos poderá se ampliar internacionalmente e atingir economicamente toda a população. “Vocês, o povo americano, têm o poder de impedir esse destino sombrio”, diz o texto.
“Podemos viver juntos em coexistência pacífica”, acrescenta a Guarda, ao reiterar à população para que “remova do poder os políticos maus, enganadores e violentos que são responsáveis pelo estado atual dos Estados Unidos. Confiem seus assuntos aos sábios, não aos astutos. Certifiquem-se de que seus políticos entendam que o mundo mudou”.
A mensagem evoca, ainda, o retorno de Jesus Cristo e do Imam Mahdi, figura central da fé xiita, que, segundo o texto, estarão ao lado dos oprimidos contra os opressores. Neste dia, afirma a Guarda iraniana, “nós, o povo do Irã, gostaríamos de ver vocês, o povo americano, ao nosso lado”.
No texto, a Guarda Revolucionária se declara vencedora da guerra e diz que o confronto, iniciado em 28 de fevereiro, matou mais de 3.600 iranianos, “a grande maioria civis”, entre eles 400 crianças; além de atingir universidades, hospitais e escolas. Os militares citam perdas como o assassinato do então líder supremo Ali Khamenei e de integrantes de sua família.
Segundo a IRGC, Washington e Israel iniciaram a guerra com objetivos de mudança de regime e fragmentação territorial do Irã e, diante do fracasso, passaram a modificar sucessivamente as metas da ofensiva. O Irã atribui a Trump pelo menos 13 objetivos anunciados em diferentes momentos.
Entre eles estão: obter a rendição incondicional iraniana, assumir o controle da Ilha de Kharg e do petróleo do país, destruir as infraestruturas energética, industrial e nuclear, eliminar a capacidade iraniana de produzir mísseis e drones, controlar o Estreito de Ormuz e acabar com o apoio de Teerã aos grupos da chamada Frente de Resistência. Nenhum desses objetivos foi alcançado, afirma o texto.
O documento apresenta ainda uma extensa relação de perdas ds forças norte-americanas, como a neutralização de mais de 200 drones estratégicos, 30 caças, 12 aeronaves de transporte e reabastecimento, pelo menos uma aeronave AWACS, além de helicópteros, radares e sistemas de defesa aérea. A Guarda afirma ainda ter destruído ou danificado mais de 350 estruturas em instalações militares e reduzido a capacidade operacional de 18 bases norte-americanas a “quase zero”.
Também sustenta que o Irã passou a exercer controle operacional sobre o Estreito de Ormuz e obrigou navios militares norte-americanos a recuarem para o Oceano Índico.
Aos norte-americanos, a Guarda se define como uma força criada após a Revolução Islâmica de 1979 para proteger a independência, a soberania e as instituições do país, rechaçando a denominação de “organização terrorista” dada por Washington. Os militares afirmam que a classificação é uma represália à resistência do Irã contra as sucessivas tentativas norte-americanas de derrubar ou de enfraquecer o governo iraniano.
E, neste quesito, os militares recuperam, com fôlego e detalhes, cada uma dessas tentativas desde o golpe de 1953, contra o primeiro-ministro Mohammad Mosadedegh, até os dias atuais. A íntegra pode ser lida na agência Tasnim.