Segunda-feira, 8 de junho de 2026
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A cidade milenar de Tiro foi transformada em um verdadeiro cenário de guerra e devastação. O movimento do comércio e turismo deu lugar a ruas fantasmas, habitadas pelos ruídos dos bombardeios e sirenes das ambulâncias, na sequência de um aviso de evacuação forçada emitido pelo exército israelense.

O alerta também incluiu outras localidades da região, como Nabatieh, território localizado ao norte do rio Litani, que Israel tenta ocupar por meio de incursões terrestres e do uso de bombas de fósforo branco, arma considerada ilegal pela Convenção de Genebra.

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No dia 29 de maio, ao entrar na cidade por volta das 11h, a equipe de Opera Mundi presenciou o primeiro ataque do dia, próximo a um hotel. O contraste entre a coluna de fumaça e o azul cintilante do mar de Tiro fez com que os poucos habitantes que estão dormindo em barracas improvisadas em uma praça da cidade, se revoltassem. Para outros, restava apenas um olhar cansado e distante.

Durante o trajeto, uma senhora idosa observava a paisagem com um olhar triste e profundo, enquanto saltava devagar entre blocos de concreto e objetos pessoais empoeirados. Dizia a quem quisesse ouvir que o Líbano sempre conviveu com todas as comunidades religiosas – cristãos, muçulmanos, drusos – e que as pessoas sempre foram bem-vindas, exceto aquelas que invadem e ocupam suas terras de forma ilegal.

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“Abrimos nossas portas, oferecemos nossa generosidade. Amamos as pessoas, amamos a vida. E ainda nos chamam de terroristas, dizem que amamos a morte. Nunca! Isso tudo é propaganda e distorção. Temos jovens que foram martirizados, mas são pessoas com doutorado, instruídas, engenheiros. Não vou mandar meu filho para a morte só porque dizem que gostamos de morrer. Eu amo meu filho. Quero que ele viva, quero viver minha vida”, desabafou.

Estes ataques, parte da nova ofensiva militar de Israel na última semana, ocorreram no mesmo dia em que delegações do Líbano e de Israel iriam se reunir em Washington. O encontrou foi criticado pelo secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, que afirmou, com base na Constituição libanesa, que as negociações desrespeitam a carta magna do país.

Enquanto isso, Benjamin Netanyahu intensifica a ocupação no sul do Líbano, e seus ministros pedem que os subúrbios do sul de Beirute voltem a ser fortemente bombardeados. Bezalel Smotrich, ministro da Fazenda israelense, declarou que “para cada drone explosivo, dez prédios devem ser derrubados em Beirute”.

Já o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, exigiu o retorno a uma “guerra intensa” no Líbano e pediu que Netanyahu informasse ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que Israel vai retomar “operações em larga escala”.

Infâncias massacradas

Em uma visita ao hospital Jabal Amel, a reportagem do Opera Mundi conversou com familiares de crianças feridas durante os bombardeios à cidade de Maarakeh, no distrito de Tiro.

Pelos corredores, era possível ouvir o choro de Zainab, uma menina de três anos que perdeu o pai e o irmão, também uma criança. Sua mãe está internada no hospital Al Hiram, atingido por Israel neste domingo (31/05), e luta para sobreviver.

Aos prantos, um dos tios de Zainab mostrou no celular a foto do irmão dela, enquanto denunciava que o exército israelense não permitiu a entrada de equipes de paramédicos para resgatar os corpos de outras duas meninas alvejadas pela mesma explosão. “Vizinhos nos contaram que as galinhas do quintal estão comendo os corpos que ficaram lá”, disse.

No quarto ao lado, o garoto Ali, de 13 anos, falava com o olhar consternado de quem ainda tenta entender o que aconteceu. Com pernas e braços enfaixados, pediu um pouco de água ao pai, já que que não conseguia se mover sozinho.

Ali, de 13 anos, foi alvo de um bombardeio na cidade de xxx, no distrito de Tiro, sul do Líbano
Stefani Costa / Opera Mundi

Enquanto isso, a família no leito ao lado também lamentava a sorte de suas crianças. “Um míssil caiu em cima da nossa casa enquanto arrumávamos as malas para fugir”, contou Mahdi, de apenas nove anos. Além da avó de 74 anos, sua mãe e seu irmão também estão internados.

Na última semana, em média, 11 crianças foram mortas ou feridas por ataques israelenses no Líbano a cada 24 horas. Em apenas sete dias, 77 crianças foram vítimas de violência, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O cemitério de ambulâncias

Durante a visita ao Hospital de Jabal Amel, a equipe de Opera Mundi foi recebida pelo diretor da unidade, Wael Mroweh, que também é médico neurologista. Durante o encontro, a cidade de Tiro continuava sendo alvo de bombardeios.

Ele contou que os arredores do hospital já foram atacados seis vezes e que, naquele momento, um novo alerta estava em vigor. “Mas dessa vez não vamos evacuar”, disse ele, enquanto explicava as dificuldades que o centro de saúde vem enfrentando.

Israel tem ignorado acordos de cessar-fogo e mantido ataques quase diários contra o sul do Líbano desde março
Stefani Costa / Opera Mundi

“Quando os feridos chegam ao hospital, muitas vezes não temos equipes suficientes, porque os profissionais de saúde e as ambulâncias são atacados durante o resgate, muitas vezes com pacientes dentro”, afirmou.

Mroweh também contestou o argumento israelense de que há armas escondidas nas ambulâncias. “É uma mentira sem sentido”, ressaltou o neurologista, que recordou como o argumento também é utilizado para justificar a mesma postura das forças israelenses na Faixa de Gaza, contra a população palestina.

Neste domingo, equipes da Defesa Civil de Tiro foram obrigadas a abandonar seu centro de comando e se transferir para uma cidade vizinha, no distrito de Sidon, após receberem ameaças do exército israelense.

Desde o dia 2 de março, mais de 130 profissionais de saúde foram assassinados na região. Opera Mundi também presenciou um “cemitério de ambulâncias” antes de chegar ao hospital.

• A Polícia Civil de São Paulo realizou operação contra a produtora responsável pelo filme Dark Horse e organizações ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, investigando suspeitas de fraude em contrato de R$ 108 milhões para instalação de Wi-Fi gratuito em comunidades.

• Investigadores apuram possíveis irregularidades, superfaturamento, notas fiscais suspeitas e eventual uso cruzado de recursos públicos para financiar a produção do filme sobre Bolsonaro. Não houve prisões até o momento.

Leia em Opera Mundi:

De acordo com as convenções que regem o Direito Internacional Humanitário, além dos ataques a centros de saúde e de defesa civil, as ordens de evacuação forçada emitidas minutos antes dos bombardeios, sem tempo nem condições para criar um corredor seguro para a população, são consideradas crime de guerra.

Antes da despedida, o diretor Mroweh enviou uma mensagem a todos os profissionais de saúde, que, segundo ele, são verdadeiros heróis desta batalha: “quero que esta guerra acabe rapidamente, porque desde 1982 nunca tivemos descanso”.