Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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No vídeo gravado por Ali Rida Sbeity, o repórter britânico Steve Sweeney aparece reportando os desdobramentos mais recentes no Líbano ao lado de uma cratera na ponte Qasemyah, localizada a cerca de 75 quilômetros ao sul de Beirute, quando um míssil israelense atinge poucos metros de onde ele está. Nas imagens, que rapidamente viralizaram nas redes sociais, o jornalista é visto correndo para se afastar dos estilhaços. Ele conseguiu sobreviver a um ataque israelense que atingiu a poucos metros do ponto de onde realizava uma transmissão ao para a emissora russa RT.

Sweeney passou grande parte dos últimos dois anos reportando diretamente do sul do Líbano – região controlada majoritariamente pelo grupo armado libanês Hezbollah e que faz fronteira com os territórios ocupados da Palestina. A Opera Mundi, o jornalista descreveu o episódio como um ataque deliberado de Israel contra profissionais da imprensa e de, segundo ele, haver testemunhado crimes de guerra cometidos diariamente pelas forças israelenses em território libanês.

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“Os israelenses gostam de matar jornalistas. Vimos centenas serem mortos em Gaza. Agora, estamos vendo uma situação semelhante aqui no Líbano. A ponte já havia sido destruída – é possível ver pelas imagens que ela estava inacessível. Nem veículos nem pessoas conseguiriam atravessá-la. Ou seja, não havia um alvo militar ali”, afirmou ao ser questionado sobre a possibilidade do ataque israelense ter sido direcionado a um suposto alvo militar.

Sweeney e seu colega de trabalho Sbeity vestiam equipamento de proteção no momento do ataque e estavam identificados como jornalistas, com os dizeres PRESS (imprensa, em inglês) estampados no colete. Segundo o repórter britânico, o veículo utilizado pela equipe para chegar à região também estava devidamente sinalizado como pertence à imprensa. Para ele, essa identificação não só não impediu o ataque, como teria, inclusive, o motivado.

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Momento em que o jornalista britânico Steve Sweeney escapou de um míssil (Divulgação/ RT)

“Estávamos claramente identificados como imprensa. E é importante dizer: Israel possui uma das tecnologias militares mais avançadas do mundo, fornecida pelos Estados Unidos e outras potências ocidentais. E também possui sistemas de vigilância extremamente sofisticados, usam inteligência artificial. Sabem tudo o que se move no sul do Líbano – cada veículo, cada pessoa. Escutam conversas, leem mensagens, monitoram tudo o que fazemos. Não há qualquer dúvida de que sabiam que éramos jornalistas, que estávamos naquela ponte e que estávamos filmando. Foi claramente um ataque deliberado contra nós. É inconcebível pensar o contrário. E isso é um crime de guerra”.

No direito internacional humanitário, aplicável às guerras, jornalistas são reconhecidos como civis, devendo ser protegidos de ataques deliberados. Isso significa que ataques direcionados a jornalistas, quando identificados como tais, podem configurar crimes de guerra – especialmente quando não há objetivo militar legítimo que justifique a ação, ou quando princípios como proporcionalidade e precaução não são observados.

Para Sweeney, o uso do colete com identificação de imprensa – que, em tese, deveria oferecer maior garantia de proteção – na prática expõe os jornalistas a um risco maior de se tornarem alvos deliberados dos israelenses. O jornalista detalha que uma das estratégias recorrentes utilizadas pelo Exército de Israel é a de deslegitimar o status civil de jornalistas para justificar seus assassinatos. ‘’Na Palestina, centenas de jornalistas foram mortos, inclusive ao vivo. O que os israelenses fazem é rotular todos os jornalistas como terroristas. Rotulam os jornalistas como membros de organizações, como Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina. O mesmo acontece no Líbano, quando dizem que os profissionais são do Hezbollah ou seus apoiadores. E, claro, sabemos que isso é mentira”.

Em agosto de 2025, uma investigação publicada pela +972 magazine revelou a existência de uma unidade de inteligência do Exército israelense conhecida como “célula de legitimação”, encarregada de associar jornalistas em Gaza a grupos como o Hamas, legitimando ataques contra profissionais da imprensa a partir de seu enquadramento como alvos militares.

Desde outubro de 2023, mais de 22 profissionais da mídia foram mortos em ataques israelenses no Líbano. De acordo com o Comitê de Proteção aos Jornalistas, Israel foi responsável por 84 das 129 mortes de jornalistas em 2025, tornando-se o país que mais matou periodistas na história.

“Os israelenses gostam de matar jornalistas. Eles querem silenciar a verdade. Vimos centenas serem mortos em Gaza. Agora, estamos vendo uma situação semelhante aqui no Líbano. Se (o míssil) tivesse caído talvez um palmo mais para o lado, teria nos matado’’, afirmou.

Ao descrever os momentos que antecederam o ataque, o jornalista disse que ele e o videomaker Sbeity estavam na ponte Qasemyah após terem recebido autorização direta do Exército libanês, que mantém um posto nas proximidades. “Eles nos autorizaram a filmar ali. Disseram que era seguro”, disse.

Essa avaliação, explica Sweeney, não é arbitrária. Em contextos como esse, eventuais ataques israelenses próximos às posições do Exército libanês costumam ser precedidos por avisos indiretos, transmitidos por meio da UNIFIL – a missão das Nações Unidas no sul do Líbano – que então repassa a informação às forças locais. Nenhum alerta foi emitido naquele dia sobre a ponte em que a dupla estava.

No momento da gravação, o cenário tampouco parecia indicar uma ameaça iminente. “Eles (forças israelenses) estavam bombardeando a região. Nada fora do comum. Hoje, o som dos caças israelenses é constante no sul, você já nem reage mais”.

Sweeney saiu com ferimentos por estilhaços que atravessaram a parte superior de seu braço esquerdo. “Doía, mas, na hora, você não percebe. A adrenalina está alta, é tudo muito desorientador. Trata-se do roubo permanente e da ocupação de território soberano libanês. É uma operação de limpeza étnica”.

 

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Um post compartilhado por Steve Sweeney (@steve_sweeney_journalist)

O incidente da ponte não foi a primeira vez que o jornalista presenciou um ataque direcionado das forças israelenses contra jornalistas e outros civis no sul do Líbano. No Líbano desde 2024, pouco após o assassinato de Hassan Nasrallah – líder do Hezbollah por três décadas – em bombardeios israelenses, Sweeney testemunhou de perto a campanha de ataques de Israel ao sul do país e também a Beirute, entre os meses de setembro e novembro daquele ano.

Um cessar-fogo entrou em vigor em 27 de novembro de 2024, mas, segundo as Nações Unidas, foi violado mais de 15 mil vezes por Israel entre essa data e a eclosão de um novo ciclo oficial de confrontos contra o Hezbollah, em 2 de março de 2026. Em fevereiro de 2025, três meses após o suposto cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, Steve Sweeney cobria o retorno de civis às suas casas em Houla, no sul do Líbano, quando forças israelenses abriram fogo diretamente contra o grupo. “Não eram tiros de advertência – eram disparos para matar”.

O episódio, segundo Sweeney, não foi isolado, mas parte de um padrão mais amplo de violência e destruição na região. “Para colocar de forma muito simples, esta é uma guerra imperialista. É uma guerra travada pelos Estados Unidos, pela Grã-Bretanha, pelas potências ocidentais e conduzida por seus representantes – os israelenses. Trata-se do roubo permanente e da ocupação de território soberano libanês, sob alguma reivindicação bíblica sobre a terra. O que está se desenrolando diante dos olhos do mundo é uma operação de limpeza étnica“, disse.

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