Sábado, 11 de julho de 2026
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O contraste entre a orla costeira na estrada que liga Beirute ao sul do Líbano e os escombros de edifícios tombados que surgem ao longo da viagem impressiona. Mesmo com o cheiro de pó de alumínio que ainda insiste em pairar, a população da cidade de Nabatieh, no sul do Líbano, tenta regressar aos poucos, em busca de mais um recomeço.

Há dois meses, Opera Mundi esteve no centro da cidade. Entretanto, dessa vez, vários edifícios e casas que ainda estavam de pé na primeira visita foram bombardeados, incluindo um dos principais bancos da cidade e o complexo que abrigava os serviços de informações do Exército libanês. Bairros inteiros foram completamente terraplanados pela força das bombas de grande calibre.

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Abbas Fikr al-Din, prefeito de Nabatieh, conversou com a reportagem e traçou um panorama entre a destruição total e um possível cessar-fogo. De acordo com ele, bem como em 2024, os ataques visaram o centro comercial para atingir a economia da cidade e destruir o ânimo da população, forçando o abandono da região.

“Também alvejaram instituições oficiais libanesas, como o edifício da governadoria de Nabatieh e a sede do distrito, onde morreram doze agentes da Segurança do Estado. Ainda atingiram órgãos de telecomunicações estatais e grandes edifícios residenciais. O objetivo era claro: transformar a área numa zona morta e abandonada”, relata o gestor municipal.

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Abbas assumiu o cargo após o assassinato do seu antecessor, Ahmed Kahil, morto durante um bombardeio israelense que atingiu o edifício da instituição pública, em outubro de 2024. “O filho dele também foi morto nesta guerra atual. Este ano, a destruição e a devastação aumentaram, e o número de mártires cresceu significativamente”, lamenta.

Para entender o nível de destruição, os profissionais da Defesa Civil disseram que o uso de bombas de alto calibre, utilizadas para destruir estruturas subterrâneas fortificadas, explica a situação.

No mercado popular da cidade, uma zona de muito movimento, um único ataque aéreo foi capaz de destruir o quarteirão inteiro. Além disso, Israel também tem utilizado bombas de fósforo branco em alguns pontos da região, uma ação classificada como crime de guerra pelo Direito Internacional.

O prefeito da cidade garantiu que, aos poucos, aqueles que tiveram apenas danos leves em suas casas, estão regressando, mas a cidade ainda possui muitos “pontos fantasmas”, já que as agressões israelenses na região continuam.

“Cerca de 30% a 35% dos moradores já voltaram. Começamos por garantir a infraestrutura básica. Principalmente água e eletricidade. Esses são os dois serviços essenciais”, conta.

Devolver a mobilidade à Nabatieh também tem sido outra batalha. “Iniciamos uma grande campanha para reabrir as ruas, uma verdadeira operação de limpeza e remoção dos escombros das calçadas”, adianta Abbas, ressaltando que o trabalho não inclui os locais onde os edifícios desabaram, e que “até o fim de semana, queremos concluir cerca de 95% deste trabalho”.

O que restou do centenário Mercado Municipal de Nabatieh após dois bombardeios israelense, em 2024 e em 2026
Stefani Costa / Opera Mundi

Decisões políticas

Com um olhar triste e cansado, Khalil Abu Ali, proprietário de um pequeno café localizado ao lado do mercado central de Nabatieh, disse ter sido um dos primeiros a deixar a cidade nos dias de intensos bombardeios.

“Eles promoveram uma verdadeira devastação. Eu espero que a vida volte logo ao normal e que as pessoas reconstruam suas casas, seus meios de subsistência e estabelecimentos. Tenho certeza que esse é o desejo de todos”, lembra.

Apesar do impasse, Abbas Fikr al-Din acredita que é possível estabilizar a situação e alcançar um cessar-fogo legítimo, pois, segundo ele, em algum momento o exército israelense será obrigado a se retirar da “linha amarela” devido à pressão das potências regionais envolvidas.

Questionado sobre quando a população poderá voltar completamente, o prefeito é realista. “Isso depende, em grande parte, das decisões políticas”, pondera.

Sua convicção pessoal, no entanto, é de que o cessar-fogo continuará. Mas a cautela é uma sombra constante. “É um inimigo traiçoeiro e não se pode confiar nele. A traição faz parte da sua natureza. Tal como a distorção dos fatos e a traição contra as pessoas”, acredita.

O prefeito de Nabatieh, Abbas Fikr al-Din
Stefani Costa / Opera Mundi

Um acordo sob escombros

Durante a reportagem, Israel realizou um ataque com um drone contra um veículo na cidade de Mefdoun, distrito de Nabatieh, matando três pessoas e ferindo uma. Opera Mundi esteve na região, percorrendo o trajeto até a cidade de Tebnine, na fronteira com a “linha amarela” traçada ilegalmente pelas forças de ocupação israelenses.

O ataque aconteceu depois do memorando de cessar-fogo assinado entre o Irã e os Estados Unidos, que também previa a interrupção das agressões de Israel contra o Líbano e a retirada das tropas.

No dia 26 de junho, aviões de guerra israelenses realizaram outros dois ataques nos arredores de Nabatieh al-Fawqa, por volta das 7h30 da manhã, no último dia das celebrações da Ashura, uma das datas mais importantes do calendário islâmico. No mesmo dia, o governo libanês anunciou um acordo com Israel, mediado pelos Estados Unidos, na tentativa de pôr fim à guerra que já tirou a vida de mais de quatro mil libaneses.

No entanto, o tratado, que apenas favorece o lado israelense, já que a retirada das tropas dos territórios ocupados só será realizada mediante o desarmamento do Hezbollah, gerou comoção e revolta entre a sociedade civil, que realizou manifestações em várias cidades do Líbano, incluindo a capital Beirute. O Exército libanês, que nunca impediu a invasão israelense no sul, foi chamado para reprimir a população.

Em um dos pontos mais polêmicos do acordo assinado em Washington, o governo, liderado pelo presidente Joseph Aoun e pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, compromete-se a não apresentar queixas contra Israel em instâncias da Organização das Nações Unidas (ONU), nem a recorrer a tribunais internacionais, mesmo diante das contínuas agressões, da ocupação ilegal e dos inúmeros crimes de guerra, incluindo a morte em massa de civis, médicos e jornalistas, provocados pelos ataques israelenses.

Vinte partidos libaneses, dos comunistas aos mais liberais, também rejeitaram o acordo tripartido assinado em Washington. Para os críticos, na prática, o Líbano estaria a abdicar de instrumentos diplomáticos e mecanismos jurídicos internacionais de defesa dos seus cidadãos, o que acabaria por favorecer a impunidade de Israel no plano internacional, enfraquecendo a possibilidade de responsabilização.

O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, voltou a afirmar que o entendimento viola a própria Constituição do país, uma vez que o Estado nunca reconheceu oficialmente a criação de Israel, em 1948. Sublinhou ainda que desarmar a resistência libanesa é uma “proposta perigosa que ultrapassa todas as linhas vermelhas”.

O líder xiita também acusou o governo libanês de fazer “concessões gratuitas” por meio de negociações diretas, algo que legitima efetivamente a presença militar contínua de Israel no sul do país, abrindo caminho para uma anexação forçada do território.

O gabinete político do Movimento Amal, partido do presidente do Parlamento, Nabih Berri, também rejeitou o acordo entre o Líbano e Israel, afirmando que este entendimento é “desequilibrado, com a maioria das suas disposições a consolidar realidades que servem os interesses dos inimigos em detrimento do interesse nacional do Líbano”, acarretando “riscos políticos e de soberania”.