Quinta-feira, 16 de abril de 2026
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O avanço das operações de Israel no Líbano tem exposto questionamentos da posição do Exército libanês diante dos ataques. Em meio a bombardeios, deslocamentos e denúncias de violações, a ausência de uma resposta militar direta do Estado levanta o debate sobre sua capacidade — e disposição — de agir diante da escalada do conflito.

Um militar, que preferiu não se identificar por questões de segurança, relatou a Opera Mundi que os soldados recebem atualmente entre 80 e 100 dólares (entre R$ 400 e R$ 500) de salário e que os armamentos disponíveis estão totalmente ultrapassados. Ele também explicou que há uma forte divisão entre os militares: para alguns, essa guerra de Israel é contra o Hezbollah, e não contra o Exército Libanês ou contra o Líbano.

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“Se você perguntar para um soldado católico, ele terá um ponto de vista. Se entrevistar um xiita, eles vão aprofundar mais a questão. É um assunto muito delicado e complexo”. O mesmo soldado, de origem cristã, disse ainda que “ninguém se atreve a dar declarações à imprensa, até porque os militares não têm permissão para falar”, ressaltando que tais “atitudes” podem custar até a perda do posto.

Segundo Euclides Vasconcelos, professor de história e mestrando em Ciências Militares, a limitada ou inexistente ação do Exército Libanês diante de Israel pode ser atribuída a fatores materiais e políticos. Ele aponta a significativa dependência de auxílio internacional, frequentemente condicionado à não utilização em conflitos diretos contra Israel, como um limitador do poder de ação militar. Enquanto isso, o Exército israelense mantém supremacia aérea quase absoluta nos céus libaneses.

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“Adicionalmente, a profunda crise econômica do país compromete desde a manutenção básica do equipamento militar até o pagamento dos soldados, tornando o Estado libanês efetivamente incapaz de sustentar uma guerra convencional contra uma potência regional como Israel”, explicou.

Ataques de Israel ao lado do maior hospital público do Líbano, em Jnah
Stefani Costa

No campo político, a situação é ainda mais complexa. Vasconcelos recordou que o Líbano evita sistematicamente o confronto direto com Israel, abstendo-se frequentemente do papel de defensor do país e do seu próprio povo. Essa postura é influenciada pela percepção do Exército como um dos últimos pilares de unidade nacional em um país marcado por divisões sectárias profundas.

Para ele, há o temor de que um engajamento militar contra Israel seja interpretado como um alinhamento político ou uma frente única com o Hezbollah, grupo que, na prática, assume a função de confrontar as ações israelenses no país, exercendo o que consideram ser o direito à resistência.

“O medo constante de mergulhar o Líbano em uma nova guerra civil, de destruir sua infraestrutura estatal e até de fragmentar seu Exército leva o Estado e as Forças Armadas a frequentemente ‘fazer vista grossa’ às ações de Israel. Assim, eles se furtam ao papel de defensores nacionais, focando-se muito mais em garantir a ordem interna e a coesão social do que em proteger as fronteiras”.

A coordenadora especial da ONU para o Líbano, Jeanine Hennis-Plasschaert, defendeu na entidade internacional uma “solução definitiva” para o Hezbollah. Ela enfatizou que essa ação não deve apenas “abranger o armamento do grupo, mas também as suas redes financeiras e infraestruturas sociais” e deve envolver “todos os braços do Estado libanês”.

Hennis-Plasschaert apontou que, embora as Forças Armadas sejam fundamentais para que o Estado exerça o controle exclusivo sobre o uso da força, a “difícil realidade” de ter que lidar com uma “enorme disparidade” entre suas capacidades atuais e a amplitude de suas responsabilidades tem impedido esse processo.

Essa também tem sido a linha do primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, que, após um mês de guerra, solicitou maior apoio árabe e internacional, ao mesmo tempo em que pediu solidariedade nacional, rejeitando a retórica divisionista diante de uma “guerra devastadora imposta ao Líbano”.

Salam também reforçou que as ações israelenses apontam para objetivos mais amplos, incluindo ocupação expandida, zonas de proteção e deslocamento em massa, enfatizando a “necessidade de intensificar os esforços diplomáticos para deter as violações da soberania do Líbano e do direito internacional”.