Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

O Chile abriga a maior comunidade palestina fora do mundo árabe e também a maior da América Latina. Com a aproximação do primeiro turno das eleições presidenciais no país, as vozes dessa comunidade começam a serem ouvidas em um cenário em que o eleitorado terá que escolher entre a candidata do Partido Comunista (PCCh), Jeannette Jara, e o líder de extrema direita, José Antonio Kast, do Partido Republicano (PR).

Uma das integrantes dessa comunidade é a nutricionista Susana Giacaman, neta de imigrantes, que confessa seu orgulho em ser uma das cerca de 500 mil pessoas com ascendência palestina que vivem no Chile. Ela é militante da União Árabe da Região de Valparaíso, no litoral central do Chile, uma das zonas do país onde essa comunidade é mais numerosa, e também forma parte do movimento internacional BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções).

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Embora tenha participado de diversas organizações pela causa palestina ao longo da vida, ela conta que os últimos dois anos, nos quais a luta pela causa teve como objetivo principal as ações contra o genocídio mais documentado da história, a impulsionaram a uma militância mais atuante e mais presente nas ruas.

“Vemos relatos históricos de como indígenas foram assassinados na América Latina, e eles foram horríveis, e agora estamos vendo isso de novo: um grupo colonial assassinando pessoas simplesmente por supremacia e para tomar um território, para roubar uma terra e exterminar um povo nativo, neste caso, o palestino”, disse a Opera Mundi.

Mais lidas

Com o genocídio intensificado por Israel nos últimos dois anos, as relações bilaterais entre Santiago e Tel Aviv se tornaram tema de debate no primeiro turno das eleições presidenciais, onde os candidatos de direita se apresentam como aliados do sionismo, “especialmente Kast, Matthei e Kaiser”.

Além de Kast, a nutricionista se refere aos outros dois candidatos da extrema direita, que são Evelyn Matthei, da União Democrata Independente (UDI), e Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário (PNL).

“Basta ver como funciona o lobby no Congresso, os votos dos seus parlamentares (de direita), sua presença em eventos da comunidade judaica e seu alinhamento com suas pautas. Em outras palavras, eles (Kast, Matthei e Kaiser) são candidatos sionistas”, afirma.

Susana Giacaman pede a demais defensores da causa palestina no Chile que evitem votar em candidatos vinculados ao sionismo
Mauricio Leandro Osorio

Aliança entre o pinochetismo e Israel

A ativista pelos direitos humanos também recorda que o setor representado pelo trio de candidatos extremista foi o que sustentou a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). “Não podemos esquecer jamais que quando a ditadura pinochetista foi submetida a um embargo internacional de armas (em 1976), o país que rompeu o embargo e vendeu armas àquele regime sanguinário foi Israel. E o Chile tem até hoje uma direita intrinsecamente ligada ao sionismo”, disse Giacaman.

O papel de Israel como “maior distribuidor de armas para Pinochet” é um dos tópicos explorados pelo acadêmico Rodrigo Karmy, membro do Centro de Estudos Árabes da Universidade do Chile, em um artigo intitulado Israel e Pinochet, sobre o envolvimento da indústria de segurança israelense no país, bem como seus vínculos com agências de repressão e inteligência.

Karmy ressalta o fato de que o relacionamento entre o Chile e a indústria militar israelense não terminou com o fim da ditadura pinochetista, pois os governos democráticos aprofundaram esse relacionamento. Quase todas as forças policiais e o Exército agora usam armas e munições israelenses por regulamentação, sendo a pistola Jericho a mais comum. Ademais, Tel Aviv ainda é um ator central no fornecimento de suprimentos militares para as Forças Armadas chilenas.

De acordo com Karmy, “os territórios palestinos ocupados funcionam como um campo de testes para a indústria militar israelense”. Ele cita empresas como Elbit Systems, IAI e Rafael, que atualmente são as principais parceiras da indústria de segurança chilena. Segundo o estudo, essas empresas testam seus sistemas primeiro em Gaza e depois os exportam para o Chile e outros países.

Em junho deste ano, o presidente Gabriel Boric anunciou em seu discurso público anual que o Chile deixaria de comprar armas de Israel, instruindo seu gabinete a buscar novos fornecedores.

Desde então, o Chile explorou mercados na Turquia, Espanha e Reino Unido. Porém, para Susana Giacaman, o gesto não basta: “temos que exigir que nossos políticos parem de financiar o sionismo. Até os municípios devem rever seus contratos”.

Bandeira palestina tem aparecido em atos de campanha da candidata comunista Jeannette Jara
Mauricio Leandro Osorio

Palestina e o desafio eleitoral chileno

Para Susana Giacaman, o que aconteceu em Gaza e na Cisjordânia nos últimos dois anos “reavivou muitas feridas dentro da comunidade e muitas histórias que ouvimos de nossos ancestrais, e isso tocou em um ponto sensível”.

É por isso que tanto ela quanto organizações pró-palestinas no Chile reconhecem a postura “correta” do governo de Gabriel Boric em buscar mercados alternativos, num esforço para substituir o fornecimento da indústria de segurança israelense.

No entanto, essa postura é frágil. O governo Boric tomou essa medida menos de um ano após o término de seu mandato e diante da ameaça de uma vitória da extrema direita nas próximas eleições presidenciais, cenário que poderia levar a uma melhoraria das relações do Chile com o governo sionista de Israel.

Com o primeiro turno das eleições presidenciais marcado para o dia 16 de novembro, ativistas como Giacaman alertam para o perigo de um governo Kast e pedem para que os defensores da causa palestina façam “um voto com coerência, contrário a candidatos que apoiam o sionismo, para ajudar a Palestina”.

“Precisamos do desinvestimento israelense, especificamente do dólar, para interromper a produção de armas que continuam matando pessoas na Palestina. Portanto, nosso candidato deve ser sempre pró-Palestina e pró-BRICS. A luta dos oprimidos é transversal e, hoje, o voto também”, disse a militante da União Árabe de Valparaíso.

Por essa razão, tem se tornado comum que figuras conhecidas por sua defesa da causa palestina expressem sua adesão à campanha da candidata comunista Jeannette Jara, que foi ministra de Boric, e que representa demonstra uma postura a favor dos palestinos. Também é possível observar, com alguma frequência, a presença de bandeiras da Palestina durante os atos de campanha da representante da esquerda governista.