Cristãos palestinos celebram o Natal pela 1ª vez após genocídio: ‘que a vida ainda seja possível em Gaza’
A Opera Mundi, religiosos da igreja de São Porfírio, na Cidade de Gaza, relatam ‘raro alívio’ em meio a cessar-fogo; crianças falam em 'saudade’ das comemorações antes da ocupação israelense
Em Gaza, cristãos ortodoxos celebraram a véspera de Natal pela primeira vez em mais de dois anos, em meio ao genocídio israelense. Para uma comunidade de apenas algumas centenas de pessoas na região, a data — 7 de janeiro — era antes uma ponte anual de volta a Belém, aos locais sagrados e aos encontros familiares. Nos últimos dois anos, os bombardeios não cessaram em nenhuma rua de Gaza. Os cristãos se refugiaram na igreja e não tiveram a oportunidade de celebrar.
Dois anos após o início do genocídio, deslocamento em massa, bombardeios, destruição quase total, imenso sofrimento e horror, os cristãos palestinos em Gaza tentaram sentir alegria novamente. No entanto, alguns palestinos permanecem de luto, pois este feriado não representa alegria para as famílias dos mártires, mortos pela ocupação israelense.
Visitei a igreja de São Porfírio, no leste da Cidade de Gaza, em 7 de janeiro. Esta igreja foi atingida pela ocupação israelense em 19 de outubro de 2023, o que resultou na morte de 17 cristãos palestinos que ali se refugiavam.
Dentro da igreja, conversei para Opera Mundi com vários cristãos sobre o significado de celebrar o Natal ortodoxo após dois anos de perdas e genocídio.

Igreja de São Porfírio, na Cidade de Gaza
Huda Shaik/Opera Mundi
“Ser um cristão palestino significa ser parte essencial desta história e desta terra”
Segundo Elias Al-Jilda, de 60 anos, o Natal é “uma tentativa de me alegrar e renovar a vida”, bem como “uma declaração de que ainda estamos vivos e ainda existimos”.
“Simplesmente não havia espaço para a felicidade durante o genocídio nos dois anos anteriores”, diz ele. “Estávamos com muita fome, éramos muito perseguidos. A guerra tornou-se mais agressiva, mais brutal. Tentar sentir alegria em tais condições parecia impossível”, enfatiza.
Mas agora, no início de 2026, a comunidade se reúne novamente, e cautelosamente, sob o chamado cessar-fogo.
“É um momento de alívio, uma rara pausa em um genocídio que deixou a maior parte de Gaza em ruínas. “Esperamos que o cessar-fogo se mantenha e que as bombas parem. Esperamos que seja o começo do fim e o início de uma nova vida. Também esperamos que a vida real ainda seja possível em Gaza”, expressa.
Elias confirma que as pessoas em Gaza são capazes de retomar a vida e reconstruir Gaza mais uma vez, tal qual uma fênix. “Talvez esta seja a porta para a reconstrução, para reconstruir o que foi tirado, assim como a fênix que renasce das cinzas”, diz.
Ele descreve a profunda sensação de perda que vai além de pessoas e lugares. “Perdemos tudo o que estava ligado às memórias e ao passado, tudo o que estava relacionado aos laços sociais. Depois de perder amigos e vizinhos, cristãos e muçulmanos, sinto que estou em um lugar diferente, com pessoas que não são mais as mesmas”, continua Elias.
“O povo de Gaza é pacífico”, reitera. “Amamos a vida. Temos o direito de viver com dignidade. Nenhum povo deveria viver constantemente sob bombas, sem casa, sem comida, sem os direitos humanos mais básicos.”
Nada captura o paradoxo do cristianismo palestino como o lamento final de Elias, que diz que “somos os únicos cristãos no mundo que não conseguem chegar a Belém”. Belém, onde Cristo nasceu, fica a uma hora de carro de Gaza.
Questionado sobre o que significa ser um cristão palestino hoje, Elias fala com orgulho e profunda conexão.
“Ser um cristão palestino significa que sou parte essencial desta história e desta terra. Cristo nasceu nesta terra, e somos filhos e filhas desta terra. Estamos enraizados aqui e pertencemos a este lugar”, explica, acrescentando que a identidade deles está intrinsecamente ligada à própria terra: “somos parte dela, e ela é parte de nós”.
Elias termina enviando uma mensagem para o mundo. “Exorto o mundo a ser honesto consigo mesmo e com os ideais que proclama”, diz. “O mundo fala incessantemente sobre moral, valores e direitos humanos — mas essas palavras devem ser acompanhadas por práticas genuínas”.
Para ele, a essência da verdadeira ética reside em apoiar os oprimidos e rejeitar a injustiça onde quer que ela ocorra. “Nossa situação é clara como o dia”, enfatiza. “Há uma ocupação injusta e somos um povo que sofre sob ela. A comunidade global deve confrontar essa realidade de forma genuína.”

Bombardeios israelenses destroem estruturas na Cidade de Gaza
Huda Shaik/Opera Mundi
“Não consigo acreditar que sobrevivi a esse genocídio. Ainda estou viva”
Para Joody Al-Salfiti, de 17 anos, este Natal não se parece com os de antes da guerra. A alegria, o espírito, o conforto da segurança — tudo isso se desvaneceu sob a sombra da perda.
“Este ano, não consigo sentir o espírito natalino como antes da guerra, quando tudo estava bem e a atmosfera era alegre”, expressa. “Não houve perdas, nem destruição, nem famílias desabrigadas… nem mesmo a igreja foi danificada.”
Agora, Joody e sua família estão entre os muitos que não podem celebrar em suas próprias casas. “Não podemos nos visitar em nossas casas porque a maioria das pessoas perdeu suas casas. A maioria de nós está desabrigada dentro da igreja”.
Ela se lembra de como era o Natal antes da guerra — mais alegre, mais pleno, mais esperançoso. “As festas antes da guerra tinham mais alegria. Sinto muita falta dessa sensação”, diz.
Após sobreviver a dois anos de bombardeios, Joody ainda custa a acreditar que está viva. “Não consigo acreditar que sobrevivi a esse genocídio. Ainda estou viva”, afirma. “Este Natal me parece uma oportunidade de começar a curar toda a dor e perda que vimos durante a guerra.”
“Só desejo que esta guerra nunca volte — que termine completamente”, manifesta a jovem.
“Sempre que me lembro de como nos costumávamos visitar, eu choro”
Para Jeehan Tarazi, de 11 anos. Para ela, a alegria do último Natal não é completa por causa dos entes queridos que perdeu e por causa dos escombros e da destruição que dominam Gaza.
O que ela mais sente falta é da proximidade humana comum: no início da guerra, seu tio viajou para longe, enquanto os irmãos da esposa dele foram martirizados. “Sempre que me lembro de como costumávamos nos visitar, eu choro”, admite.
“Desejo que Gaza seja reconstruída para que eu possa caminhar pelas belas ruas da Cidade de Gaza, e não em meio aos escombros”, expressa Jeehan.

Entrada da igreja de São Porfírio, na Cidade de Gaza
Huda Shaik/Opera Mundi
“Nossas casas foram destruídas na guerra”
O Natal deste ano em Gaza não se parece em nada com o que ela se lembra. “Como família, rezamos hoje e vamos comemorar visitando parentes”, diz Ester al-Najjar, de 13 anos. “Mas, infelizmente, não poderemos visitá-los em suas casas, porque a maioria de nós está deslocada e vivendo na igreja. Nossas casas foram destruídas na guerra.”
Ester está entre as centenas de cristãos palestinos deslocados que se abrigam em uma igreja na Cidade de Gaza, um dos últimos refúgios após meses de bombardeios. Sua casa de infância agora está em ruínas.
Ainda assim, este Natal trouxe um pequeno vislumbre de emoção que ela pensava ter perdido: “Comecei a sentir um pouco de felicidade novamente”, diz ela cautelosamente.
Como muitas crianças em Gaza, Ester sonha com uma vida normal — de alegria, sem medo.
“Desejo que a vida volte a Gaza”, diz. “Que possamos celebrar os feriados futuros em melhores condições, que todos possamos estar seguros e em paz… e que a guerra nunca mais volte a Gaza.”
Por enquanto, seus desejos são simples, mas profundamente significativos, vindos de uma criança que já viu muito mais do que deveria.
Os cristãos em Gaza têm orgulho de serem palestinos, profundamente enraizados nesta terra. Eles têm orgulho de serem cristãos que carregam a cruz palestina — no próprio lugar onde Cristo nasceu e foi sepultado, uma terra que atrai pessoas de todos os cantos do mundo.
























