Os jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro autores de Sem Chão, vencedor de Melhor Documentário no Oscar de 2025, defenderam que há semelhanças do que ocorre em Gaza a partir das ações militares de Israel ao Holocausto, a perseguição e assassinatos aos judeus pelo regime nazista.
A fala ocorreu durante uma coletiva de imprensa no Festival de Veneza, após os cineastas lançarem seu novo documentário Naza, que reúne depoimentos de membros das Forças de Defesa de Israel (IDF) sobre o uso de inteligência artificial na identificação de alvos e nos ataques contra o enclave palestino.
Abraham e Szor afirmaram que, em determinado momento do filme, um dos entrevistados faz o seguinte questionamento: “eu acho que os nazistas são maus, então o que eu sou?”.
“Existem muitas diferenças, é claro, entre o Holocausto e o que está acontecendo em Gaza, mas uma coisa consistente nesses casos é a questão da responsabilização e da justiça, que é fundamental para avançarmos. O que é certo é que os padrões de desumanização são semelhantes”, afirmaram.
Segundo Abraham, o “muro de negação” em Israel é “espesso e resistente demais para ser penetrado ou atravessado”, e o documentário não deve provocar efeitos sobre o premiê Benjamin Netanyahu em vista das eleições legislativas de 27 de outubro.
“O tema do massacre dos palestinos, sobre o qual falamos no filme, não está exatamente em discussão nas eleições em Israel”.
O genocídio em Gaza teve início após a ofensiva do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, que deixou mais de 1,2 mil mortos em território israelense. Desde então, a resposta militar de Israel no enclave palestino provocou uma devastação de grandes proporções. Mais de 73 mil palestinos foram mortos e cerca de 174 mil ficaram feridos, enquanto ataques e operações terrestres destruíram áreas inteiras e reduziram grande parte de Gaza a escombros.

À agência de notícias AFP, os diretores disseram que o objetivo por trás do longa foi “ouvir, com o máximo de detalhes possível, como eram os sistemas para matar em Gaza e como funcionavam”.
O nome do documentário é emprestado de uma sigla militar usada pela inteligência israelense para indicar o número de civis que podem ser mortos durante um determinado ataque aéreo, ou seja, uma unidade de medida para as chamadas “baixas colaterais” da guerra.
Além de ser o único documentário em cartaz na competição principal do Festival, o longa é uma produção do jornal britânico Guardian e é fruto de três anos de investigação. A obra, que está na lista de concorrentes ao Leão de Ouro, descreve em detalhes como a vigilância em massa na Faixa de Gaza, onde toda a rede de telecomunicações é monitorada por Israel, foi combinada com tecnologia de inteligência artificial para identificar alvos.
Um dos destaques do documentário é mostrar como a inteligência artificial decide, com certa autonomia, se uma determinada residência deve ou não ser atacada. Matar um dirigente do Hamas pode custar a vida de uma família com seis crianças; destruir um prédio pode resultar na morte de até 50 civis.
(*) Com Ansa.