Em reunião com entidades judaicas, governo reafirma posição contra antissemitismo
Para Juliana Muniz, do grupo Vozes Judaicas pela Libertação, única organização antissionista na audiência, ‘é preciso atentar para quando o antissemitismo é fruto de conflação perigosa’
O Palácio do Planalto recebeu nesta quarta-feira (28/01) representantes da comunidade judaica para debater o enfrentamento ao antissemitismo no Brasil, um dia após celebração do Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto. Foram convidados pesquisadores de universidades brasileiras, rabinos, além de representantes de órgãos como o Instituto Brasil-Israel (IBI), a Confederação Israelita do Brasil (CONIB), o Museu do Holocausto de Curitiba, Casa do Povo, entre outros.
O coletivo Vozes Judaicas por Libertação (VJL) foi a única entidade antissionista presente no encontro. Consultada por Opera Mundi, a representante do VJL Juliana Muniz relatou ter pontuado no evento que o combate ao antissemitismo está necessariamente ligada ao cenário atual da Palestina, do genocídio promovido pelo Estado de Israel e da luta pela libertação do povo palestino.
“É preciso olhar para essa situação e se implicar. Isso é diferente de responsabilizar os judeus no Brasil pelo que está acontecendo na Palestina, mas entender que o aumento dos casos de antissemitismo estão, sim, ligados a uma falta de informação e principalmente a confusão perigosa entre judaísmo e sionismo, entre ser judeu e as práticas políticas do Estado de Israel”, afirmou.
Em sua exposição, denunciou ainda a “instrumentalização do antissemitismo pela extrema direita” que, por sua vez, tem como objetivo “silenciar críticas ao Estado de Israel, interromper o debate”.
“Para nós é importante garantir que haja o debate sobre Israel-Palestina e que haja, sim, o combate ao antissemitismo, que são coisas que precisam ser marcadas”, reiterou.
Segundo Muniz, o coletivo também manifestou apoio à retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), em junho de 2025, que deturpa o conceito do antissemitismo de forma que equipara as críticas feitas a Israel à discriminação contra judeus.
“Dos 11 exemplos que a definição da IHRA oferece para definir antissemitismo, sete se referem ao Estado de Israel, o que desloca o debate e favorece o silenciamento de críticas legítimas e a defesa do povo palestino”, enfatizou.
“Estamos em diálogo permanente com movimentos palestinos no Brasil e nos territórios palestinos. Desde o início do genocídio de Israel contra o povo palestino em Gaza, em outubro de 2023, participamos de dezenas de atos e atividades com o movimento de solidariedade palestino. Entendemos que isso não está dissociado do debate sobre antissemitismo, pelo contrário, é fundamental para seu enfrentamento real”, acrescentou.

Juliana Muniz representou o Vozes Judaicas por Libertação na audiência sobre antissemitismo no Brasil
Valdenio Vieira / SEAUD-PR
Iniciativa ‘desmistifica’ motivação antissemita no governo
Pelo governo brasileiro, participaram o vice-presidente Geraldo Alckmin, além das ministras Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos e da Cidadania, Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, a secretária-geral do Itamaraty Maria Laura e a assessora presidencial Clara Ant.
De acordo com o comunicado emitido pelo Planalto, Alckmin avaliou que o encontro deverá trazer “bons frutos e propostas” no avanço do combate ao antissemitismo.
“Nós devemos muito à comunidade judaica, seja na área empresarial, seja nas ciências, seja na medicina, seja na cultura. Ela enriqueceu o nosso país sob todos os aspectos. Vamos trabalhar para que a gente possa avançar ainda mais, prestando não apenas justiça à comunidade judaica, mas principalmente promovendo valores que são essenciais à civilização”, declarou o vice-presidente.
Por sua vez, Hoffmann informou que o encontro já estava previsto desde o ano passado, rejeitando que ele tenha sido articulado por qualquer razão levantada pela imprensa nos últimos dias. Ainda em seu discurso, a ministra lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar o Estado de Israel, em 2010, e destacou que o combate ao antissemitismo está dentro do compromisso do governo. Enfatizou ainda que o Brasil defende a solução de dois Estados.
Dweck apontou que o encontro serviu para “desmistificar a ideia de que possa haver qualquer motivação antissemita dentro do Poder Executivo”.
“Eu tenho tido encontros para discutir justamente essa visão equivocada que estava se formando na comunidade judaica de teria um antissemitismo enraizado no governo. Para mim, do ponto de vista pessoal, essa reunião é muito importante. Não existe uma barreira. O governo sempre esteve aberto a ouvir. Essa reunião acaba ajudando a quebrar essa visão totalmente errada”, explicou a ministra, que é judia.
No encontro, o presidente da CONIB, Claudio Lottenberg classificou a iniciativa do governo como “louvável” ao afirmar que a comunidade judaica passa por um “período sensível em termos de incremento da onda antissemita”.
A educação foi um dos pontos centrais da reunião. A professora da Universidade de São Paulo (USP), Lilia Schwarcz, que participou de forma remota, ressaltou a importância do ensino como sendo uma das ferramentas mais eficazes no combate ao antissemitismo.
“Precisamos pensar em políticas empáticas. Para isso é preciso trabalhar com o Ministério da Educação. O antissemitismo é um problema da democracia brasileira e dos limites da democracia brasileira e não apenas dos judeus”, disse a docente.

Audiência entre governo brasileiro e entidades da comunidade judaica em Brasília
Valdenio Vieira / SEAUD-PR
Agenda ministerial a organizações judaicas em São Paulo
O encontro ocorreu dois dias depois de a ministra Macaé cumprir uma agenda institucional em São Paulo, na segunda-feira (27/01). A autoridade passou por quatro organizações da comunidade judaica, no âmbito de uma visita ministerial organizada pela Associação Beit Midrash Massoret em conjunto com a Casa do Povo.
“Foi muito importante poder realizar essa visita. Nesta tarde, nós pudemos aprofundar pontos que foram levados para mim nesta visita, como a questão importante da gente trabalhar liberdade de expressão, debate político, como valores importantes, democráticos, que precisam ser protegidos. Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro precisa reconhecer que a comunidade judaica no Brasil tem uma história, e que a gente precisa pensar o trabalho que nós vamos desenvolver em torno do antissemitismo, a partir da experiência brasileira”, afirmou Evaristo no encontro de quarta-feira.
Em São Paulo, Opera Mundi questionou Evaristo se a pasta de Direitos Humanos já havia articulado, no decorrer dos mais de dois anos de genocídio em Gaza, algum programa semelhante à realizada em São Paulo e, também, se havia porventura pretensão em realizar um evento que prestigiasse o Dia da Nakba, em 15 de maio, que relembra a expulsão de palestinos de seu território em 1948.
À reportagem, a ministra afirmou ter tido “encontros” com a comunidade palestina. Não confirmou, no entanto, qualquer agenda em memória ao Dia da Nakba, em 15 de maio, mas garantiu que a pasta não tem “nenhuma dificuldade” em abordar a questão palestina e está “atenta e atuando”.
Questionada também sobre as acusações de antissemitismo feitas por parte da comunidade judaica contra o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, contrário ao genocídio promovido por Israel contra os palestinos, Evaristo reiterou estar representando o compromisso do governo com a luta contra o discurso de ódio e o antissemitismo, que classificou como uma “estratégia racista de segregação, hierarquização de pessoas e desumanização”.























