Lula nega adesão ao Conselho de Paz sem participação palestina
Em entrevista ao UOL, presidente também afirmou que sua preocupação é ‘fortalecer a democracia na Venezuela, não a volta de Maduro’
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva manifestou disposição em aderir ao chamado “Conselho da Paz” para a Faixa de Gaza, criado pelo seu homólogo norte-americano Donald Trump, porém, apenas sob a condição de que nele haja participação palestina. A posição foi dada em entrevista exclusiva ao portal UOL nesta quinta-feira (05/02).
“O Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você crie um conselho e que não tenha um palestino na direção”, afirmou o mandatário. “É muito estranho que a proposta que foi apresentada de reconstrução de Gaza seja mais um resort do que a reconstrução de Gaza. Eu quero saber quem é que vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bairros que foram detonados. Porque a vida de 75 mil de mulheres e crianças não retornará mais”.
Lula também relatou ter conversado diretamente com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, reiterando disposição em integrar o conselho. No entanto, destacou que “é preciso que os palestinos estejam na mesa”, caso contrário, “não é uma comissão de paz”.
Ainda sobre os Estados Unidos, o presidente brasileiro lembrou que na primeira semana de março tem uma visita a Washington, onde afirmou que terá a chance de conversar “olho no olho” com Trump. A viagem de Estado ocorrerá após as passagens do petista à Índia e à Coreia do Sul.
Ao afirmar que o Brasil e os Estados Unidos são as “duas maiores democracias do Ocidente”, Lula disse que, entre os países, “não tem tema proibido para discutir”, com exceção da “soberania”, sendo esta a única pauta inegociável. “Essa é sagrada”, defendeu.
“Nós temos que sentar na mesa, olhar um no olho do outro, ver quais são os problemas que afligem ele, quais são os problemas que me afligem. O que interessa para os Estados Unidos, o que interessa para o Brasil, e vamos trabalhar juntos. Vamos estabelecer acordos em que a gente possa trabalhar junto”, afirmou, mencionando abertura brasileira a “parcerias” com Washington, incluindo nas áreas de indústria, de exploração de minerais críticos e terras raras, investimentos, exportação, entre outras.

Presidente Lula defendeu mudança de postura histórica na política internacional da América Latina
Ricardo Stuckert/PR
Preocupação principal na Venezuela não é retorno de Maduro
Ao comentar a situação na Venezuela, atacada pelos Estados Unidos em 3 de janeiro, ação que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, Lula disse que a principal preocupação não é o retorno do líder venezuelano ao país, mas sim “o fortalecimento da democracia e a melhoria das condições de vida da população”.
Questionado sobre a possibilidade de retorno do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, à Venezuela, Lula respondeu que “a preocupação principal é a possibilidade de fortalecer a democracia na Venezuela” e criar condições para que os oito milhões de venezuelanos que saíram de seu país retornem.
“Há condições de fazer com que a democracia seja respeitada efetivamente e o povo possa participar efetivamente? O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não, se vai gerar emprego, se vai voltar a produzir 3,7 milhões de barris por dia”, afirmou.
Para Lula, a solução para a crise venezuelana deve partir do próprio povo do país. “Eu disse ao presidente Trump: quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles. Eles têm que assumir a responsabilidade”.
Ao UOL, Lula defendeu que Caracas e Washington “se entendam”. “”Quando o [Hugo] Chávez era presidente, eu dizia para ele que era extremamente importante que ele e [George] Bush se entendessem”, comparou.
Na análise do presidente, os países vivem sob uma “briga de compadre”, uma vez que Caracas “vendia gasolina para os Estados Unidos e os Estados Unidos compravam gasolina da Venezuela”.
Ao ampliar a análise para a América Latina, o presidente defendeu uma mudança de postura histórica na política internacional da região. Para o líder brasileiro, os latino-americanos precisam “criar coragem, criar instituições fortes entre si, montar um bloco para trabalhar conjuntamente com o resto do mundo”. Caso isso não seja feito, a região está “fadada a mais um século de pobreza e esquecimento”. “Depende de nós. Precisamos descolonizar a nossa cabeça”, acrescentou.
“Nós, latino-americanos, precisamos aprender que temos 525 anos de história para saber o que deu certo ou não na América Latina. Fomos colonizados por espanhóis e portugueses, pela indústria inglesa e pelos países ricos, com os Estados Unidos tendo muita influência”, declarou.
Lula também disse ter reforçado a Trump a visão de que a América do Sul deve ser tratada como uma região de paz. “O que estamos dizendo ao presidente Trump? A América do Sul é uma zona de paz, a gente não tem bomba atômica, arma nuclear. O que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos. A América Latina não pode continuar sendo pobre”, concluiu.
(*) Com Brasil247
























