Segunda-feira, 8 de junho de 2026
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Uma investigação feita pela emissora catari Al Jazeera publicada no sábado (23/05) constatou que mercadorias relacionadas ao setor militar de pelo menos 51 países, incluindo o Brasil, e territórios autônomos continuaram entrando em Israel mesmo após a Corte Internacional de Justiça (CIJ) alertar, em 26 de janeiro de 2024, sobre um risco plausível de genocídio na Faixa de Gaza.

Os registros alfandegários e dados de importação da Autoridade Tributária de Israel (ITA, na sigla em inglês) entre 2022 e 2025 analisados pela reportagem apontam que o fluxo de assistência militar internacional ao regime sionista, que inclui munição, explosivos, peças de armas e componentes específicos de veículos blindados, não apenas persistiu como se intensificou. 

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Os dados da ITA indicam que, entre outubro de 2023 e outubro de 2025, 2.603 remessas de mercadorias classificadas como relacionadas ao serviço militar entraram em Israel. O valor total foi de aproximadamente 885,6 milhões de dólares (cerca de cinco bilhões de reais). Segundo a investigação, 91% desse montante (cerca de 4,6 bilhões de reais) foi registrado após a decisão do CIJ. Nos 20 meses anteriores ao início do genocídio televisionado, o total importado havia sido de 388,1 milhões de dólares (cerca de 2,2 bilhões de reais).

O relatório aponta que entre as nações que mantiveram o envio desses suprimentos a Tel Aviv, algumas haviam declarado publicamente suspensões da venda de armas para território israelense e dezenas haviam ratificado a Convenção das Nações Unidas (ONU) sobre genocídio. Os cinco países que mais exportaram recursos bélicos ao Estado sionista após outubro de 2023 são Estados Unidos, Índia, Romênia, Taiwan e República Tcheca. Washington, maior fornecedor, representou 42% do valor total identificado, seguidos pela Índia, com cerca de 26%.

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O mais alto tribunal da ONU ordenou que Israel, em janeiro de 2024, tomasse todas as medidas necessárias para prevenir atos genocidas contra os palestinos na Faixa de Gaza, período em que os bombardeios israelenses ordenados pela gestão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já haviam acumulado mais de 26 mil mortos no território, sendo a maioria das vítimas mulheres e crianças.

O Brasil, que ressaltou publicamente o caráter vinculativo das medidas da CIJ e pediu seu cumprimento integral e imediato, enviou carregamentos no valor de 2,4 milhões de dólares (aproximadamente 13,6 milhões de reais) ao longo do genocídio, sendo quase 80% desse montante após janeiro de 2024.

À Al Jazeera, o Itamaraty disse que o país não aprovou novos pedidos de exportação de material de defesa para Israel desde 9 de fevereiro de 2023. Contudo, explicou que certas categorias, incluindo “componentes de armas de fogo, acessórios, munição de pequeno calibre, insumos de manufatura relacionados à defesa e equipamentos de treinamento militar”, não estão sujeitas à aprovação prévia da pasta.

O professor de direito internacional na London School of Economics, Stephen Humphreys, ouvido pela reportagem, afirmou a existência de “evidências suficientes” que colocam países fornecedores de armas em posição de cumplicidade em crimes internacionais, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Por sua vez, à reportagem, Gerhard Kemp, professor de direito penal da Universidade do Oeste da Inglaterra, disse que o suposto cessar-fogo alcançado em outubro de 2025 não mudou esse cenário legal, porque o regime sionista mantém o assassinato de palestinos em Gaza e a imposição de condições de vida destinadas a destruir o grupo.

“Alguns estados têm uma compreensão muito restrita do dever de prevenir genocídio e aguardam uma determinação judicial de que há genocídio em Gaza” , disse Kemp. “Mas a CIJ [Corte Internacional de Justiça] provavelmente levará vários anos para tomar tal determinação”.

A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado publicou um relatório em setembro de 2025 que conclui diretamente que Israel cometeu genocídio contra a população palestina em Gaza. O documento, citado por Kemp, ressalta que “os estados são obrigados a tomar medidas para garantir a prevenção de condutas que possam equivaler a um ato de genocídio, incluindo a transferência de armas que são usadas ou provavelmente serão usadas por Israel para cometer atos genocidas”.

Fluxo de assistência militar internacional ao regime sionista não apenas persistiu como se intensificou durante genocídio em Gaza
X/@IDF

Países que anunciaram restrições, mas mantiveram envios

A reportagem da Al Jazeera apontou outras nações que anunciaram publicamente embargos ou suspensões parciais e continuaram a ter remessas registradas como originadas de seus territórios.

A Espanha, um dos países europeus com as críticas mais contundentes contra o Estado genocida de Israel, disse em janeiro de 2024 que o país não vendia armas ao regime sionista desde outubro de 2023. No entanto, os dados alfandegários israelenses registraram 99 remessas da nação, no valor de 5,9 milhões de dólares (aproximadamente 33,6 milhões de reais), até outubro de 2025.

O Canadá formalizou em março de 2024 a suspensão de novas autorizações de exportação, após votação parlamentar. Mesmo assim, 23 remessas canadenses entraram em Israel ao longo do genocídio, sendo 19 delas após a votação, totalizando cerca de 458 mil dólares (aproximadamente 2,6 milhões reais).

Na França, o presidente Emmanuel Macron pediu a suspensão das entregas de armas em outubro de 2024. Apesar disso, a reportagem revelou que 25 remessas entraram em Israel após o anúncio, somando 13,7 milhões de dólares (aproximadamente 78 milhões de reais).

O Reino Unido suspendeu 29 licenças de exportação em setembro de 2024, mas manteve cerca de 350 licenças ativas. Segundo a Al Jazeera, as remessas sem relação com peças de aeronaves continuaram chegando em Tel Aviv, incluindo uma de 535 mil dólares (aproximadamente 3 milhões de reais) em junho de 2025.

“Não há como Israel sozinho ter sustentado a intensidade de seu bombardeio massivo em toda a Faixa de Gaza”, disse Patrick Wilken, pesquisador da Anistia Internacional. “Israel tem dependido de uma cadeia global de suprimentos de armas, munições e serviços de apoio, principalmente fornecidos pelos Estados Unidos, mas apoiados por muitos outros Estados”.

(*) Com Telesur