Ministra dos Direitos Humanos declara apoio à luta contra antissemitismo
Durante visita de Macaé Evaristo a entidades judaicas, na véspera do Dia da Memória do Holocausto, grupos sionistas e antissionistas expressam divergências sobre antissemitismo
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, reforçou nesta segunda-feira (26/01) o compromisso do governo no combate ao discurso de ódio contra os judeus, no âmbito de uma agenda cumprida na região central de São Paulo, no bairro Bom Retiro, onde visitou organizações da comunidade judaica na véspera do Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto.
A visita ministerial foi organizada pela Associação Beit Midrash Massoret, sinagoga e casa de estudo da Vila Madalena, em conjunto com a Casa do Povo, instituição fundada por judeus comunistas na década de 1950. A agenda iniciou-se pela tarde na instituição beneficente judaica Ten Yad, onde a ministra teve almoço. Em seguida, ouviu o testemunho de vítimas sobreviventes do Holocausto na União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social (Unibes). A sua terceira passagem foi no Memorial do Holocausto de São Paulo e, por fim, na Casa do Povo, onde reuniu com diversos movimentos e grupos.
Grupos como Instituto Vladimir Herzog, Judias e Judeus pela Democracia SP (JJPD) e Vozes Judaicas pela Libertação (VJL) e Comissão Arns, entre outros, estiveram presentes. A Confederação Israelita do Brasil (CONIB) também compareceu, mas não discursou.
No evento, abordaram-se temas diversificados, como a emergência da extrema direita no mundo, a repressão policial no Brasil, o direito à moradia e a resistência contra o racismo. Destacaram-se o combate ao antissemitismo e o genocídio na Palestina.
Polêmica
O encontro acabou marcado pela divergência entre os dois principais grupos judaicos presentes: o JJPD, frequentemente identificado com a esquerda sionista, e o VJL, que se reivindica antissionista.
Representando o JJPD, Lia Vainer disse que após o 7 de outubro de 2023 os judeus passaram a sofrer o que descreveu como “um processo de exclusão em espaços progressistas que até então haviam sido territórios de militância e de construção coletiva”. Ainda alegou que setores da esquerda passaram a usar a crítica ao governo de Israel “para traduzi-la em ódio contra os judeus”.
“O crescimento do Judias e Judeus pela Democracia se explica, em grande parte, pela necessidade de afirmar pertencimento político de esquerda, uma ética judaica humanista e alinhada aos direitos humanos, ao combate ao racismo e à luta pela democracia”, afirmou, ressaltando que esse comportamento presente em ambientes progressistas seria “espelho da mesma instrumentalização feita pela direita, que usa o combate ao antissemitismo como justificativa para silenciar denúncias de violações de direitos humanos contra os palestinos”.
Por sua vez, a representante Olívia, do VJL, denunciou o “genocídio palestino”, termo evitado pela representante do JJPD, e ressaltou a distinção entre antissionismo e antissemitismo. “Muitas vezes a memória do Holocausto e a luta contra o antissemitismo são instrumentalizadas como forma de silenciar as críticas ao Estado de Israel”, disse. “A melhor maneira de honrar a memória das pessoas da minha família que foram vítimas de um genocídio e de honrar o que a tradição judaica tem de melhor é a solidariedade para pessoas que estão hoje sofrendo um genocídio”.
O VJL defendeu que “a solidariedade deve ser prática”, mencionando o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), conhecido por propor a ruptura de laços comerciais com Israel, entre outras medidas. O coletivo propôs que o Ministério de Direitos Humanos abrace iniciativas dessa plataforma. “É a mesma estratégia que teve sucesso em derrotar o apartheid na África do Sul”, destacou. “Apoiamos o governo brasileiro na decisão de vetar a importação de produtos originários de assentamentos ilegais da Cisjordânia, medida coerente com a decisão da Corte Internacional de Justiça.”
Durante a intervenção de Montero, vários integrantes do JJPD se levantaram em protesto e saíram da sala, o que lhes valeu críticas do diretor da Casa do Povo, Benjamin Seroussi.
O presidente do Instituto Herzog, Ivo Herzog, também interveio na reunião. Iniciou o seu discurso registrando que o pai, Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar brasileira, havia sobrevivido ao Holocausto e que o governo de Israel tem que ser observado com “muita preocupação”, por usar a memória do Holocausto “como um escudo para fazer atrocidades nos dias de hoje”.
“Sinto que, infelizmente, os governos de Israel são os grandes promotores do antissemitismo. E aqueles que ousam criticar suas atrocidades são ditos contra o povo de Israel, contra Israel, contra o judeu”, declarou.
A ministra deixou para falar ao final, retomando o compromisso do governo com políticas de combate ao racismo, e aceitando publicamente o convite do VJL para um encontro sobre o BDS, entre outros temas.
“Estamos num momento da história do mundo em que aquele acordo da Carta de Princípios dos Direitos Humanos foi, eu vou usar a palavra popular, ‘rifada’ por grupos que hoje detêm a hegemonia em determinados países”, afirmou. “Eles acham que vamos esquecer tudo o que a gente combinou e pactuou até aqui, da necessidade de respeito à soberania, à autodeterminação dos povos”.
Agenda do governo
Durante a visita ministerial, Macaé Evaristo foi questionada por Opera Mundi se, em algum momento nos mais de dois anos de genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza, a pasta articulou algum programa semelhante com entidades palestinas. A ministra afirmou ter tido “encontros” com a comunidade palestina, e que “não coaduna com os princípios dos direitos humanos colocar uma comunidade contra a outra”.
Opera Mundi também perguntou se o Ministério de Direitos Humanos está articulando algum evento que prestigie o Dia da Nakba, em 15 de maio, que relembra a expulsão de palestinos de seu território em 1948. Evaristo não confirmou o planejamento de atividades a esse respeito, mas garantiu que a pasta não tem “nenhuma dificuldade” em abordar a questão palestina e está “atenta e atuando”.

Ministra de Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo se emociona ao falar de Anne Frank durante visita ao Memorial do Holocausto de São Paulo
Opera Mundi
Questionada sobre as acusações de antissemitismo feitas por parte da comunidade judaica contra o presidente brasileiro Lula, contrário ao genocídio promovido por Israel contra os palestinos, a ministra reiterou estar representando o compromisso do governo com a luta contra o discurso de ódio e o antissemitismo, que classificou como uma “estratégia racista de segregação, hierarquização de pessoas e desumanização”.
“Eu acho que esse não é o posicionamento do Brasil, não é o posicionamento do governo do presidente Lula”, declarou, reforçando que “o presidente brasileiro tem se posicionado como defensor da vida humana e da paz”.
“Queremos construir espaço de diálogo, trabalhar pro fim da cultura de ódio no mundo, poder avançar e entender quais são os problemas que essa comunidade enfrenta com discurso de ódio, preconceito e discriminação; a gente fará com todas as pessoas, com todas as comunidades, todas as populações”, concluiu.

Organizadores da agenda ministerial e ministra Macaé Evaristo na Casa do Povo
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