Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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O documentário Notas sobre um Desterro, em exibição no circuito de festivais, nasceu em 2018 de maneira prosaica, com o convite de uma agência de turismo curitibana para que o cineasta Gustavo Castro participasse de uma excursão cristã a Israel. O “disfarce de turista cristão”, como ele definiu em debate após exibição do filme no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, na noite de quarta-feira (26/11), permitiu que ele documentasse o cotidiano e os hábitos de uma série de personagens palestinos durante sua estadia. Sem que a equipe de produção tivesse planejado.

Notas sobre um Desterro tornou-se assim o primeiro filme brasileiro a tratar da questão de dentro do próprio território palestino sequestrado por Israel.

Em 2023, enquanto o diretor paranaense trabalhava na edição do futuro Notas sobre um Desterro, precipitou-se uma nova onda genocida movida por Israel, que mudou completamente o rumo do filme. A ideia inicial era focalizar sem maiores motivações políticas o núcleo familiar do casal formado por Mohammad Abdel Latif, palestino que viveu 14 anos no Brasil até 1999, e Ruayda Rabah, brasileira filha de palestinos e irmã do atual presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah.

Os acontecimentos atuais inviabilizaram qualquer uso mais ameno do material captado, e Castro então dividiu o filme em dois blocos: um documentando o dia a dia da família Latif Rabah e de outros personagens – inclusive integrantes de uma comunidade de samaritanos e um padre católico ortodoxo – e outro trazendo a história para o massacre atual perpetrado por Israel e seus patrocinadores ocidentais.

No bloco pré-2023, mostram-se as limitações e obstáculos impostos por Israel à liberdade de ir e vir de palestinos, e o padre esmiúça o racismo explícito que orienta o regime de apartheid regido por sionistas que “rasgaram nossa Pátria em pedaços”. No Brasil, Ualid Rabah explica o modo como Israel tornou Gaza hermeticamente fechada e isolada do mundo e traça paralelos e diferenças entre o holocausto judeu entre europeus de um século antes e a esterilização e o extermínio em massa de palestinos movido por Israel, Estados Unidos e apoiadores mundo afora.

Como Castro demarca, o bloco pós-2023 apoia-se em imagens do genocídio, que tem sido amplamente documentado pelas próprias vítimas.

‘Notas sobre um Desterro’ trata da questão de dentro do próprio território palestino
Divulgação

Seis anos após as filmagens originais, as consequências drásticas do que foi exibido até então em circunstâncias de “relativa tranquilidade” (na definição do diretor) descortinam-se numa edição feérica de imagens extremas, que vão das caricaturas de árabes, palestinos e muçulmanos comercializadas por Hollywood e pelos desenhos animados norte-americanos, passando por passagens grotescas protagonizadas por figuras políticas como Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Elon Musk, até o desenlace que desaba em imagens de bombardeios, destruição, matança e uma sequência irrespirável de corpos mortos de crianças palestinas.

Sem ascendência palestina ou israelense, Gustavo Castro afirma que o que aproximou-o do tema em 2018 foi o interesse pelas questões do colonialismo, em todas as suas manifestações. “Este filme tem o objetivo de fazer uma reumanização do povo palestino, reumanizar aquilo que foi desumanizado ao longo do tempo”, disse.

“A obra traz aquele bloco que a gente chama de construção da imagem do Oriente pelo Ocidente. Desde o início, pela fotografia dos franceses, aquele povo foi retratado como ‘pitoresco’, ‘exótico’. Depois o cinema, já no início do século 20, começa a criar a imagem do ‘bárbaro’, que logo vira o ‘terrorista’ e que logo é confundido com o que os produtores sionistas de Hollywood construíram. A partir dessa imagem, é possível que você normalize a barbárie que acontece hoje, e o filme tem o objetivo de causar esse choque nas pessoas. Em todas as sessões a gente tem percebido que ficam bastante impactadas e abaladas”.

Comemorando o fato de cerca de mil pessoas já terem visto Notas sobre um Desterro nos festivais pelo Brasil e no exterior, Gustavo negocia uma estreia em data ainda indefinida do filme no circuito comercial de cinemas e prevê que o documentário acabe por chegar às plataformas de streaming – “mas não vai ser na Netflix, nem na Amazon”, como ele explicita, por motivos amplamente conhecidos.