Palestinos acreditam que Conselho de Paz está ‘distante da realidade’ em Gaza
Al Jazeera afirma que cidadãos do enclave 'não medem paz pela criação de comitês, mas sim pela cessação de bombardeios e entrada de alimentos', que não ocorrem sob violência israelense
Cidadãos palestinos acreditam que o Conselho de Paz, proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump para a Faixa de Gaza, lançado nesta quinta-feira (22/01), está “distante da sua realidade”, segundo reportou a Al Jazeera.
De acordo com o correspondente da emissora catari, Tareq Abu Azzoum, que falou a partir da Cidade de Gaza, as pessoas em Gaza “não medem a paz por comitês ou conselhos, mas sim pela cessação dos bombardeios, pela entrada de alimentos e pela capacidade das crianças de sobreviverem às noites mais difíceis” — que não tem ocorrido.
“Existe um sentimento profundo entre os palestinos de que eles estão sendo tratados como um problema a ser administrado, e não como pessoas com direitos a serem plenamente considerados”, acrescentou o correspondente.
A composição do novo conselho também provocou indignação entre palestinos, especialmente após a nomeação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como integrante do grupo. Segundo ele, a escolha foi recebida com choque e revolta por amplos setores da sociedade palestina.
“Ele é visto como responsável por assassinatos em massa, deslocamentos forçados e pela destruição da vida civil”, afirmou o jornalista. Na avaliação de Abu Azzoum, a presença de Netanyahu no conselho levanta questionamentos profundos sobre a legitimidade da iniciativa: “Dessa perspectiva, como alguém acusado desses crimes pode ser considerado um pacificador?”, questionou.

Além das críticas dentro da sociedade, autoridades palestinas reagiram com forte preocupação à criação do Conselho da Paz
RS/Fotos Públicas
Já Nida Ibrahim, jornalista da Al Jazeera para a Cisjordânia ocupada, lembrou que os próprios palestinos “estão ausentes deste Conselho de Paz” e até mesmo “do comitê que foi designado para atender às necessidades cotidianas da Faixa de Gaza”.
“Qualquer nome sugerido pela Autoridade Palestina era vetado por Israel, o que dá uma ideia da situação com que os palestinos têm lidado, não apenas agora, mas há décadas. As potências internacionais incluem uma potência militar ocupante à frente dos comitês e associações de tomada de decisão – mas não os próprios palestinos”, escreveu a correspodente.
Ibrahim lembrou que a economia da Faixa de Gaza não é o ponto principal, mas sim a vinculação de “qualquer progresso econômico ou assistência aos palestinos a uma tábua de salvação política” ou a “um caminho que os conduza à independência da ocupação militar israelense e à soberania sobre suas terras”.
Além das críticas dentro da sociedade, autoridades palestinas reagiram com forte preocupação à criação do chamado Conselho da Paz, avaliado como uma possível estrutura paralela capaz de enfraquecer o papel das Nações Unidas na mediação de conflitos internacionais.
O tema foi tratado nesta semana em encontros diplomáticos, nos quais representantes da Palestina deixaram claro que não aceitam a substituição de organismos multilaterais já consolidados. Segundo informações divulgadas pela Al Jazeera, a ministra das Relações Exteriores e Expatriados da Palestina, Varsen Aghabekian Shahin, abordou o assunto durante uma reunião com representantes do consulado do Reino Unido. Na ocasião, ela enfatizou que “qualquer estrutura ou órgão institucional transitório não deve servir como substituto das Nações Unidas”.
As reações refletem o temor de que o conselho da paz não apenas fragilize o sistema multilateral liderado pela ONU, como também legitime figuras associadas a políticas e ações amplamente condenadas pelos palestinos, aprofundando a desconfiança em relação a novos arranjos diplomáticos apresentados como instrumentos de promoção da paz.
(*) Com Brasil247























