'Pura mentira': em Gaza, palestinos veem anúncio de segunda fase do cessar-fogo como farsa
No mesmo dia em que Trump anunciava presidir 'Conselho da Paz', forças israelenses mataram uma mulher em Khan Younis e um adolescente de 14 anos na Cisjordânia
Os palestinos em Gaza receberam com ceticismo e descrença o anúncio de Donald Trump sobre o início da “segunda fase” do acordo de cessar-fogo. A declaração contrasta com a realidade no terreno: uma crise humanitária em aprofundamento e ataques israelenses que não cessaram.
“Eles nem sequer começaram a primeira fase ainda. Como podem começar a segunda?”, disse Fayeq al-Helou à emissora catari Al Jazeera. “Não queremos que seja como das outras vezes, apenas palavras no papel”.
Em Gaza, muitos consideram o cessar-fogo uma farsa. Enquanto há demora no atendimento às necessidades básicas, a situação humanitária continua a se deteriorar rapidamente – um cenário amplamente documentado por ONGs e agências da ONU.
Jaber Mohammed afirmou que o anúncio era “pura mentira”. “Estamos sofrendo há dois anos e agora começamos o terceiro”, disse ele. “Estamos sofrendo com a falta de comida e bebida, e com os preços altos”, acrescentou.
Em paralelo ao anúncio da segunda fase do acordo de trégua, as forças de ocupação israelenses continuam os ataques. Uma mulher palestina foi morta e outras ficaram feridas na madrugada desta sexta-feira (16/01) por disparos israelenses em Khan Younis, ao sul da Faixa de Gaza, conforme relatado pela agência palestina WAFA.

Israel continua os ataques mortais em Gaza enquanto o acordo avança para a segunda fase
RS/Fotos Públicas
Na vila de Al-Mughayyir, a leste de Ramallah na Cisjordânia, forças israelenses invadiram a localidade, levando a confrontos. Durante os embates, que incluíram intensos disparos de munição real contra moradores, foi morto o adolescente Mohammed Saad Na’san, de 14 anos, atingido nas costas e no peito.
Na área de Masafer Yatta, colonos armados atacaram pastores palestinos. Quando as forças israelenses chegaram ao local, agrediram moradores e pastores e detiveram quatro palestinos, segundo o ativista Osama Makhamreh à WAFA. Na noite de quinta-feira (15/01), o exército israelense também atirou em um cidadão palestino e deteve outro perto da entrada da cidade de Beita, ao sul de Nablus.
Pelo menos 451 palestinos foram mortos desde que o cessar-fogo entrou em vigor em outubro do ano passado. E, desde o início da recente agressão em 2023, cerca de 71.441 pessoas foram mortas e 171.329 ficaram feridas pelas forças israelenses em Gaza.
Em comunicado oficial o porta-voz do Movimento Hamas, Hazem Qassem, afirmou nesta sexta-feira (16/01) que “o governo israelense continua sua política de sabotar o acordo de cessar-fogo e obstruir os esforços declarados para estabilizar a calma em Gaza”.
O anúncio de Trump e o “Conselho da Paz”
Trump anunciou na noite de quinta-feira (15/01) que presidirá um órgão chamado de “Conselho da Paz” para governar Gaza. “É com grande honra que anuncio a formação do CONSELHO DA PAZ”, escreveu o republicano na rede social Truth Social. Ele não mencionou os nomes dos membros do conselho, dizendo que os detalhes “serão anunciados em breve”.
O líder da Casa Branca também reiterou que o processo avançou para a segunda fase de um acordo para pôr fim à guerra. “Entramos OFICIALMENTE na próxima fase do Plano de Paz de 20 Pontos para Gaza”, disse ele.
PEACE THROUGH STRENGTH. https://t.co/yys48p3AZm pic.twitter.com/cKLz0XGLUx
— The White House (@WhiteHouse) January 16, 2026
Trump afirmou que, como presidente do conselho, apoia a formação de um comitê tecnocrático palestino para administrar Gaza durante um “período de transição” – comitê este que, em sua visão, estaria “firmemente comprometido com um futuro PACÍFICO”.
Em sua publicação, Trump fez uma série de exigências e ameaças: afirmou que os Estados Unidos, em colaboração com o Egito, a Turquia e o Catar, “garantiriam o desarmamento do Hamas” e deu um ultimato ao grupo: “O Hamas deve honrar IMEDIATAMENTE seus compromissos, incluindo a devolução do último corpo a Israel, e proceder sem demora à desmilitarização completa. Como já disse antes, eles podem fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil”.























