Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios ocupados, disse ao jornal britânico The Guardian que as iniciativas para reconhecer um Estado palestino não devem distrair os Estados-membros de impedir a morte em massa e a fome em Gaza. “É claro que é importante reconhecer o Estado da Palestina. É incoerente que ainda não o tenham feito”, afirmou.
A representante argumentou que o debate prolongado em torno da criação de um Estado palestino não produziu nenhum progresso político até agora, apenas permitiu a disseminação de assentamentos israelenses ilegais em territórios ocupados, o que praticamente excluiu a possibilidade de um Estado palestino. “O território foi literalmente devorado pelo avanço da anexação e da colonização”.
Esta semana, a Austrália juntou-se ao Reino Unido, Canadá, França e outros países no compromisso de reconhecer um Estado palestino na Assembleia Geral das Nações Unidas no próximo mês. A relatora especial alertou que a criação de um Estado palestino não deve “desviar a atenção de onde ela deveria estar: o genocídio”.
Albanese solicitou um embargo a todas as vendas de armas para Israel e a cessação de acordos comerciais, além de cobrar a responsabilização pelos crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelos quais o Tribunal Penal Internacional acusou altos funcionários israelenses. Ela também pediu a retirada completa de Israel dos territórios ocupados até o prazo de 17 de setembro, estabelecido pela Assembleia Geral da ONU.
“Acabar com a questão da Palestina em conformidade com o direito internacional é possível e necessário: acabar com o genocídio hoje, acabar com a ocupação permanente este ano e acabar com o apartheid“, disse ela. “É isso que garantirá liberdade e direitos iguais para todos, independentemente de como queiram viver – em dois Estados ou em um Estado; eles terão que decidir”.
Francesca Albanese é reconhecida como defensora dos direitos palestinos. Seus relatórios técnicos, acusando Israel de operar um “regime de apartheid” e cometer “atos de genocídio”, frequentemente anteciparam que grandes grupos de direitos humanos internacionais e israelenses chegariam às mesmas conclusões.
No mês passado, o governo Trump sancionou a relatora por seu apoio declarado aos direitos palestinos e pelo que autoridades norte-americanas chamaram de “promoção vergonhosa” da ação do TPI contra autoridades israelenses.

Albanese descreveu a crescente divisão global em relação às ações de Israel em Gaza como “a luta suprema” e caracterizou as sanções dos EUA contra ela como um sinal não de força, “mas de culpa”.
“Os EUA são um país de contradições, repleto de ideais e princípios e, ainda assim, conspirando contra os valores democráticos”, disse ela. “Aqueles que estão no poder – democratas ou republicanos – sempre foram guiados por esse tipo de lógica supremacista em relação aos outros, e essa estratégia está traindo abertamente os valores americanos de democracia, de liberdades fundamentais, e realmente nivelando tudo o que eles vêm pregando”.
Ela também criticou o secretário-geral da ONU, António Guterres, por não condenar com mais veemência a “violação sem precedentes” dos privilégios e imunidades tradicionalmente concedidos aos representantes da ONU.
Albanese descreveu a recente reunião do Grupo de Haia – uma conferência de 30 nações realizada na Colômbia para definir medidas práticas para que os Estados-membros da ONU tomem medidas em apoio ao fim da ocupação por Israel – como “uma força ética dentro do sistema”, que ela disse ser “baseada no respeito básico ao direito internacional e na honra ao multilateralismo, o que me parece o ingrediente básico para ter uma comunidade internacional funcional”.
A relatora observou que a guerra de 21 meses de Israel em Gaza provocou uma “profunda mudança” nas visões globais do conflito. “Vemos milhões de pessoas indo às ruas e pedindo o fim do genocídio, e elas estão sendo espancadas, presas e detidas sob acusações de terrorismo, enquanto aqueles que são procurados pelo TPI por crimes de guerra estão sendo recebidos e autorizados a sobrevoar o espaço europeu e ocidental“, disse ela. “Isso é um absurdo. Este é o fim do Estado de Direito”.
Mas ela demonstrou otimismo em relação à mudança no discurso em torno das ações de Israel. “Uma nova geração inteira agora fala a linguagem dos direitos humanos”, disse ela. “Para mim, isso é um sucesso por si só”.
“Todos sabem o que Israel fez com eles nos últimos 77 anos”, disse ela. “Eles já fizeram história – e não por meio da violência, como alguns tentam retratá-los –, mas com sua perseverança, seus princípios e sua confiança no sistema judiciário, que não tem sido seu aliado”.