Comunicando a Palestina vem combater desinformação e preconceito no Brasil
Instituto Palestino de Diplomacia Pública cria site, com guia prático em português, para abordagem ética e responsável de temas palestinos
Lançado em São Paulo na sexta-feira, 28 de novembro, com a presença do escritor Milton Hatoum, o site Comunicando a Palestina chega ao Brasil, em português, apenas um mês depois do lançamento original em inglês. Iniciativa liderada e hospedada pelo Instituto Palestino de Diplomacia Pública (PIPD, em inglês), com sede em Ramallah, na Cisjordânia, a ferramenta almeja o alcance global e prepara também versões em francês, espanhol, árabe e, mais adiante, mandarim.
Concebido como um guia prático de apoio a jornalistas, ativistas, figuras públicas, acadêmicos, artistas, educadores, formuladores de políticas públicas, agentes humanitários, criadores de conteúdo etc., o Comunicando a Palestina reúne material rico e documentação caudalosa sobre as estratégias de informação da política sionista e genocida na Palestina.
O site defende uma abordagem ética e responsável dos temas palestinos, priorizando o combate à desinformação e aos preconceitos que dominam a máquina de propaganda coordenada em nível planetário por Israel e Estados Unidos.
A ferramenta foi apresentada em São Paulo pela jurista e ativista palestina Rula Shadeed, diretora do PIPD, que explicou a motivação da iniciativa: “por que criamos o Comunicando a Palestina? Geralmente, os projetos de colonização matam pessoas, mas também precisam matar sua história e suas vozes. O colonizador trabalhou muito para apagar as histórias e identidades do nosso povo”.

Ferramenta foi apresentada em São Paulo pela jurista e ativista palestina Rula Shadeed, diretora do PIPD
Pedro Sanches / Opera Mundi
Para ela, é imperioso enfrentar e combater a escassez de vozes palestinas na cobertura midiática sobre a região: “em vez de tentar encontrar palestinos, que são muitos e podem contar suas próprias histórias ou explicar a situação, as pessoas sempre buscam outra pessoa para falar sobre os palestinos. Esquecem de convidar palestinos, ou, quando convidam um palestino, convidam também um israelense, porque as pessoas vão acreditar no israelense e não no palestino”.
Reformular, engajar, visualizar
“Em contextos de colonização, opressão e racismo sistêmico, a comunicação é usada como arma para silenciar, distorcer e apagar histórias, identidades e narrativas inteiras”, afirma o texto de apresentação do site, que está organizado em três grandes campos: Reformulando, Engajando e Visualizando.
O primeiro propõe questionar e reformular os enquadramentos predominantemente negativos impostos à população palestina. “Por serem tão difundidos, nos acostumamos com eles e deixamos de perceber o quanto moldam nosso pensamento. Na realidade, eles são moldados por estruturas de poder cultural e político mais amplas, exercendo influência significativa sobre a opinião pública, os comportamentos sociais e as decisões políticas diretas”, diz o texto.
Essa primeira seção esquadrinha narrativas falsas, prejudiciais e desumanizantes orquestradas pelo sionismo, recomendando rejeitar a prática do “dois-ladismo”, desconstruir as narrativas correntes de “conflito religioso”, “crise humanitária” e o clichê do “terrorista” (que, segundo o site, mascara a violência do Estado imperialista israelense), libertar-se de estereótipos reducionistas como “o violento”, “a vítima passiva” e “o herói”, e assim por diante.
O site esmiuça o maniqueísmo por trás de falsas equivalências estabelecidas entre Israel e Palestina. Segundo o texto, “dentro da narrativa de ‘dois lados’, qualquer resistência palestina é enquadrada como ‘terrorismo’, enquanto a agressão israelense é retratada como ‘autodefesa’. Os protestos palestinos são descritos como ‘confrontos’, enquanto a repressão israelense é descrita como ‘dispersão de manifestantes’”.
O Comunicando a Palestina também denuncia a falácia de referir genocídio como “conflito” e de localizar a religião, e não o colonialismo, como motivação central para a “guerra” em curso. “Essa formulação sugere falsamente que todos os palestinos e árabes são muçulmanos e que todos os judeus são sionistas. Reduz uma realidade política e colonial e um suposto ‘conflito’ religioso”, argumenta o site.
Como consequências, a tática sionista induz à impressão equivocada de que a realidade vigente é insolúvel e imutável; apaga a diversidade religiosa palestina; distorce e reduz o judaísmo a uma ideologia colonialista; e usa acusações genéricas de “antissemitismo” como armas para difamar e criminalizar qualquer opositor ao sionismo como antissemita. A narrativa da “crise humanitária”, propagada por políticos, mídia, academia e organizações de ajuda humanitária, confina a luta palestina a temas de pobreza, subdesenvolvimento e fome, apagando os interesses coloniais por trás da realidade.
Combate à desinformação
Para cada um dos tópicos listados, Comunicando a Palestina oferece sugestões práticas e estratégias de combate à desinformação e ao preconceito. Um exemplo: “Quando as forças de ocupação israelenses demolem uma casa palestina, a comunicação dessa história deve centrar-se na experiência da família que sofreu tal injustiça, incluindo seu impacto socioeconômico e psicológico, e sua resistência contra ela. Além disso, deve-se destacar como as demolições fazem parte de uma política sistêmica para esvaziar a terra de seu povo e colonizá-la”. O site reivindica a ênfase na resistência coletiva, mais que no sofrimento individual e no vitimismo.
Quanto à disseminação do estereótipo do “terrorista”, Comunicando a Palestina recomenda: “Nenhuma comunicação deve empregar a narrativa ‘terrorista’ que tem sido explorada pelas potências imperiais para encobrir suas agressões. Reconheça que essa narrativa está enraizada em percepções racistas e orientalistas que retratam os povos oprimidos, particularmente muçulmanos e árabes, como ‘inerentemente violentos’”.
Não por coincidência, como observam Rula Shadeed e a coordenadora do PIPD no Brasil, Badra el Cheick, esse estereótipo encontra ampla equivalência no modo como mídia e instituições brasileiras retratam suas populações periféricas rotineiramente, mas em particular em situações como a chacina policial no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em outubro passado.
“A ideia é explicar também para brasileiros como a colonização é perigosa e sua relação com a opressão que está acontecendo no Brasil”, afirma Shadeed. “Porque há uma relação muito grande, que as pessoas não sabem. Se não fosse assim, não estaríamos aqui hoje. Diferente de Cuba, por exemplo, o Brasil está apoiando um colonizador, o Estado israelense, em questões como energia, petróleo e outras”. Aqui, como lá, o PIPD prega a explicitação do racismo de fundo para transformar o estado de coisas.

Comunicando a Palestina traz abecedário de termos problemáticos em permanente atualização
© Nikolas Gannon / Comunicando a Palestina
Na seção Reformulando, o Comunicando a Palestina enumera dicas práticas para combater a exclusão; desafiar a desinformação; resistir à repressão; combater a censura institucionalizada; resistir à apatia e à autocensura; e assim por diante. As recomendações incluem rejeitar a normalização da violência e do genocídio e respeitar a autonomia e a centralidade palestinas, focando nas vozes palestinas e destacando sua autonomia e expertise, entre muitas ações possíveis e necessárias.
“Recuse eufemismos e use terminologia precisa”, sintetiza o documento. “Chame a injustiça pelo seu nome. Identifique o autor do crime e evite linguagem passiva. (…) Uma linguagem precisa e direta respeita as pessoas afetadas e responsabiliza os infratores”.
Por fim, a seção Visualizando enfatiza o poder de manipulação da comunicação audiovisual, listando clichês utilizados amplamente por TV, cinema, fotografia etc. “Israel há muito tempo tem como alvo jornalistas, fotógrafos, cineastas e artistas palestinos, com a intenção de apagar a realidade palestina”, denuncia.
O site traz à tona casos como o da fotojornalista palestina Fatima Hassouna, assassinada em abril deste ano, logo após o anúncio da exibição de um documentário sobre seu trabalho no Festival de Cannes. “O assassinato de Fátima não é um ataque isolado. O genocídio de Israel em Gaza é o mais mortal para jornalistas na história moderna, com mais mortos do que nas duas guerras mundiais, nas guerras do Vietnã, da Iugoslávia e do Afeganistão juntas”, afirma o texto.
Abecedário de termos
Em sua passagem pelo Brasil, Rula Shadeed chama jornalistas brasileiros à responsabilidade de denunciar e de não se curvar à cumplicidade do silêncio diante de mais essa política de extermínio. Entre várias ferramentas práticas oferecidas pelo Comunicando a Palestina, há um abecedário de termos problemáticos, em permanente atualização, com sugestões de substituição por terminologia ética, justa e despreconceituosa.
Assim, reivindica-se a troca de “conflito árabe-palestino” por “ocupação colonial sionista”, “ocupação militar israelense” ou “apartheid israelense”; “ataque aéreo” por “bombardeio” ou “atentado aéreo”; “conflito” ou “guerra civil” por “colonialismo sionista” ou “violência colonialista”; “confronto” por “repressão” e “protesto palestino”; “crise” por “genocídio”; “território disputado” por “anexado/ocupado”.
“Nós vamos chegar lá”, promete Rula Shadeed, referindo-se à necessidade de elaboração de um processo de (re)educação integrado a instituições locais de ensino sobre a realidade palestina no Brasil.























