‘Thiago Ávila está preso em Israel por tempo indeterminado’, denuncia esposa
Ativista da flotilha humanitária está detido em Ashkelon sem acusação formal, com marcas de agressão e em greve de fome; Lara Souza cobra posicionamento firme do presidente Lula
O brasileiro Thiago Ávila e o palestino-espanhol Saif Abukeshek, ativistas da Flotilha Global Sumud, foram sequestrados em águas internacionais por forças israelenses e desembarcaram neste domingo (03/05) no porto de Ashdod. Eles estão presos na Prisão de Shikma, em Askalan, sem acusação formal.
“Hoje aconteceu a primeira audiência, na qual foram apresentadas cinco acusações diferentes relacionadas a uma suposta ‘associação por terrorismo e colaboração com o inimigo em período de guerra’. No entanto, não foram prestadas queixas formais e Thiago pode ficar preso por tempo indeterminado”, explicou à Opera Mundi a psicóloga e esposa de Ávila, Lara Souza.
Ela afirmou que o brasileiro está com assistência jurídica de duas advogadas da Adalah, uma ONG de advogados palestinos que atua lá.
“É importante termos mobilizações públicas e estamos organizando atos ao redor do mundo para que falem não só sobre a liberdade de Thiago e Saif, mas também que comentem sobre as violações do Estado israelense, que falem sobre os presos palestinos que também estão condenados injustamente e ilegalmente”, denunciou.
Souza rechaçou a situação alegando que “não podemos permitir que um Estado realmente acredite que pode sequestrar cidadãos de 55 países em águas internacionais e entregar alguns deles para outro país, desembarcando eles lá e depois levar dois cidadãos presos para fazer interrogatório de forma absolutamente arbitrária e ilegal, sem nenhum embasamento legal”, complementou.
A Global Sumud Flotilha é uma missão humanitária civil, composta por médicos, jornalistas e ativistas, em cerca de 50 embarcações, que leva mantimentos, medicamentos e alimentos para Gaza.

Thiago Ávila detido em Israel
Reprodução / Al Jazeera
Confira a entrevista na íntegra de Lara Souza a Opera Mundi sobre o sequestro e prisão ilegal de Thiago Ávila por Israel:
Opera Mundi: Lara, quais informações você tem sobre as condições atuais da detenção de Thiago Ávila? Como foi a audiência? Ele está tendo acesso à assistência jurídica, e há alguma acusação formal já apresentada contra ele pelas autoridades israelenses?
Lara Souza: Thiago está preso numa prisão em Ashkelon, uma cidade israelense que tem um presídio conhecido pelas condições severas e por abrigar muitos palestinos presos.
Hoje aconteceu a primeira audiência, na qual foram apresentadas cinco acusações diferentes relacionadas a uma suposta “associação por terrorismo e colaboração com o inimigo em período de guerra”. No entanto, não foram prestadas queixas formais, e sim apenas suspeitas. Então, ele está detido para interrogatórios e ainda não sabemos qual vai ser a acusação formal contra ele.
Dessa forma, a defesa está colocando em primeiro lugar a ilegalidade do processo, uma vez que Thiago não é cidadão israelense, não estava em território israelense, mas em águas internacionais, e foi sequestrado e levado para o território. Isso é algo que Israel não tem autoridade para fazer, nem para realizar interrogatórios. Ou seja, ele não poderia estar preso.
A advogada de Thiago falou claramente que “ele está preso sem justificativa e que não há evidências sólidas sobre nenhuma das acusações”. Eles não têm um processo bem embasado. Mas, ainda assim, o juiz estendeu a prisão por mais dois dias para continuar esses interrogatórios. Também foi solicitado contato com a família, mas o juiz negou.
Diante dos precedentes de ativistas estrangeiros detidos em flotilhas anteriores, há risco efetivo de Thiago ser processado criminalmente em Israel sob acusações de ‘atividades ilegais’? Qual seria a pena prevista nesses casos?
A situação atual em que Thiago e Saif se encontram é muito diferente das flotilhas anteriores. Em geral, quando as pessoas são interceptadas nas embarcações humanitárias, isso costuma ocorrer na chamada “zona laranja”, ou seja, próximo ao território israelense, em uma área de bloqueio. Por conta disso, Israel justifica a interceptação alegando que as pessoas estavam tentando entrar no território israelense, e isso é tratado como um delito imigratório.
Dessa vez, eles não estão sendo julgados por delito imigratório. Tanto a audiência de hoje quanto a de terça-feira serão na corte de direitos civis. A possibilidade agora é de criminalização do direito penal. Como as acusações são diferentes – apesar de relacionadas ao mesmo tema de associação com terrorismo – ainda não sabemos qual pena pode decorrer. Nesse caso, o Estado israelense é extremamente imprevisível.
O que sabemos é que hoje ele está preso por tempo indeterminado. Justamente por não haver uma formalização da queixa, eles podem ficar presos pelo tempo que a corte israelense considerar justificável para manter interrogatórios. A gente não tem previsão de quando essas queixas vão ser formalizadas, e não existe um prazo máximo de detenção.
Como está sendo a atuação do Estado brasileiro? O Itamaraty está concedendo alguma assistência?
Eu entrei em contato com a Embaixada Brasileira ainda antes de Thiago chegar ao território israelense, quando fomos informados de que ele e Saif tinham sido separados dos outros participantes. A gente não tinha certeza se eles seriam levados, porque não houve uma comunicação formal das forças israelenses às embaixadas – foi anunciado apenas pelas redes sociais.
Quando eu contatei a embaixada, eles me responderam prontamente, dizendo que compreendiam que se tratava de uma ação ilegal das forças israelenses, um sequestro, um crime, e que Thiago teria toda a assistência necessária se ele, de fato, fosse levado para Israel. Disseram que já iriam formalizar o pedido de assistência consular.
Eles de fato fizeram contato. No momento em que Thiago chegou, não puderam ter contato antes – só foi autorizada a assistência consular quando ele já estava na prisão. Mas, desde o primeiro dia, eles fizeram a visita consular, entraram em contato comigo e com o Itamaraty para repassar as informações, acompanharam a audiência hoje e novamente me procuraram para me manter informada. Também estão em contato com as advogadas. O Itamaraty também está acompanhando e informado.
Nós, enquanto organização da Global Sumud Flotilla, estamos em contato com o Itamaraty. Estamos tentando uma reunião, mas ainda não conseguimos. Eles estão informados do caso, fizeram algumas notas públicas, mas a gente ainda não sabe quais foram os resultados efetivos dessas negociações e desses posicionamentos.
Há alguma informação sobre o estado de saúde de Thiago neste momento?
Ontem, depois das visitas consulares e jurídicas, tanto a advogada quanto a embaixada entraram em contato comigo para dizer que Thiago estava com muitas marcas de agressão no corpo e no rosto. Falaram que ele relatou situações de espancamento, tortura, ameaças psicológicas e ameaças de que iriam jogá-lo do barco em alto-mar, além de ameaças à nossa família aqui no Brasil. Houve muitas agressões na cabeça.
A advogada me falou que ele ficou temporariamente sem conseguir enxergar pelas agressões na cabeça, e só algum tempo antes de encontrá-la ele tinha retomado a visão. Hoje a gente viu ali nas fotos, né? As fotos foram divulgadas pela imprensa israelense. Em algumas, ele parece ter menos marcas; em outras, da imprensa externa (não israelense), as marcas de agressão aparecem bem mais.
Mas as informações da embaixada brasileira e da advogada são de que ele estava com muitas marcas de agressão. A embaixada me informou ontem que ele tinha recebido um atendimento médico inadequado, e que estava insistindo para que ele recebesse acompanhamento e tratamento adequados, mas não obteve resposta nem retorno sobre isso.
Apesar disso, me disseram que Thiago está bem, calmo, forte. Ele negou todas as acusações, porque são todas falsas. Está confiante de que as coisas vão dar certo. Mas, em questão física, também me trouxeram que ele estava com muitas dores no ombro. Ele está em greve de fome desde o sequestro na quarta-feira.

Thiago Ávila e Lara Souza
Arquivo pessoal / Lara Souza
Por fim, Lara, o que você e a família de Thiago esperam, neste momento, do governo brasileiro como um todo?
Bom, a primeira coisa que a gente espera é um posicionamento mais firme. Apesar de o governo ter feito nota conjunta com a Espanha logo no primeiro dia, e de ter feito algum posicionamento, a gente não teve ainda uma manifestação firme do presidente Lula que mencione Thiago pelo nome. A Espanha fez um posicionamento público que fala do Saif. O presidente de Cuba fez um discurso público nomeando Thiago. E a gente ainda não viu isso do nosso próprio governo. O nosso próprio governo ainda não falou sobre o seu cidadão que está preso ilegalmente pelo Estado israelense. Então, a primeira coisa que nós esperamos é isso: um posicionamento público mais firme do governo brasileiro em relação a Thiago.
Mas, principalmente, a gente espera que sejam feitas articulações que deem algum resultado, que tragam o Thiago para casa. Porque a gente tem recebido muitas respostas nesse sentido – “nós estamos tentando”, “nós estamos fazendo o possível” – mas Thiago é um cidadão brasileiro que foi sequestrado em águas internacionais e está preso ilegalmente, sem sequer ter uma acusação formal contra ele. Então a gente espera que o governo de fato aja para trazer o seu cidadão para casa, e que faça o que for preciso para isso.
Se for preciso romper relações, aplicar alguma sanção, ter um posicionamento mais firme sobre a violação que Israel está cometendo contra um cidadão brasileiro. A gente espera que sejam feitas negociações que, de fato, tragam algum resultado, que não sejam simplesmente uma resposta protocolar de que “estão fazendo o possível”.
Esse também é um dos motivos pelos quais estamos pedindo – e já protocolamos junto a vários parlamentares – uma reunião com o Itamaraty, para que a gente possa, de fato, entender o que está sendo feito para trazer o Thiago para casa.
























