Quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Compartilhe:

Durante uma conversa com jornalistas realizada em Madri, o embaixador da Palestina na Espanha, Husni Abdel Wahed, analisou a situação nos territórios palestinos, especialmente na Faixa de Gaza, que foi alvo de uma operação militar israelense que durou dois anos (entre outubro de 2023 e outubro de 2025) e resultou em mais de 65 mil mortes de civis.

Segundo ele, o cenário continua sendo grave e as invasões territoriais não podem ser tratadas como algo normalizado no cenário internacional.

E-mail

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.

Canal do WhatsApp O mundo em movimento direto no seu celular.
Siga
TV Opera Mundi Opinião, contexto e coragem jornalística.
Sintonize

“O que está acontecendo na Palestina é um experimento de laboratório para o resto do mundo. Tudo o que se fizer ali pode se estender a outras regiões se isso for normalizado”, afirmou o diplomata, de 66 anos.

Wahed argumentou que os acontecimentos no território palestino não devem ser analisados de forma isolada.

Cobertura especial Veja os resultados do 1° turno das Eleições Acompanhe

“Tudo está interconectado. Dependendo de como os fatos se desenrolem na região, isso poderá ser aplicado em outros lugares no futuro. Se o mundo tolerar o que está acontecendo, a escala poderá ser ainda maior em outros países e sem consequências significativas”, advertiu.

Durante o evento na capital espanhola, o embaixador mencionou um tema vigente na Europa: “agora ouvimos falar de uma possível anexação da Groenlândia por parte dos Estados Unidos. Que garantias temos de que Trump não queira, no futuro, anexar também o Canadá e o Panamá?”.

“Trump acredita que pode fazer o que quiser e que ninguém irá se opor. Quem poderia enfrentar o presidente dos Estados Unidos e suas políticas? Qualquer um poderia fazê-lo mas, logicamente, teria de pagar um preço muito alto. Então, quem está disposto a pagar esse custo?”, questionou.

Conselho de Paz

A criação de um conselho para administrar a reconstrução do enclave palestino – por iniciativa do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos – também foi tema do encontro em Madri. A iniciativa foi batizada como Conselho da Paz.

Wahed ironizou a proposta, ao afirmar que Gaza, apesar de sua reduzida dimensão territorial, estaria sendo tratada como se precisasse da gestão de vários chefes de Estado.

“Vocês sabem que a Faixa de Gaza tem 360 quilômetros quadrados, uma extensão semelhante à de qualquer outra cidade, mas que, segundo a visão de Trump, precisaria da participação de numerosos líderes mundiais”, ironizou.

De acordo com a Casa Branca, o objetivo do Conselho de Paz é debater questões como “o fortalecimento da capacidade de governança, as relações regionais, a reconstrução, a atração de investimentos, o financiamento em larga escala e a mobilização de capital”.

Para o embaixador palestino, no entanto, a iniciativa tem motivações políticas.

“O presidente Trump está usando esse Conselho para tentar aproximar alguns líderes de suas próprias políticas. Inicialmente, o objetivo era a reconstrução e a governança da Faixa de Gaza, mas agora parece que Trump quer desviá-lo para outros interesses e fins”, avaliou o representante palestino.

Postura de Lula

Trump convidou vários líderes para fazer parte do “Conselho de Paz”, muitos dos quais ainda não confirmaram sua participação. Entre eles estão o premiê espanhol Pedro Sánchez e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Sobre o convite ao mandatário brasileiro, o embaixador declarou à Opera Mundi que confia em sua postura em favor da causa palestina.

“Lula é um líder que demonstrou grande dignidade como dirigente do povo brasileiro. Não se deixou chantagear e agiu de acordo com seus princípios e com os interesses do Brasil. Por isso, merece toda a nossa confiança e respeito”, afirmou.

Embaixador palestino na Espanha participou de conversa com jornalistas em Madri
Lucila Runacles

Situação na Palestina

O embaixador também destacou o agravamento da crise humanitária na Faixa de Gaza, explicando que antes de 7 de outubro de 2025 entravam diariamente cerca de 600 caminhões com alimentos no território. Atualmente, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), esse número não chega a 200 caminhões por dia.

“O genocídio na Palestina continua, embora os meios de comunicação já não falem do que acontece na região. As pessoas continuam morrendo de fome e de frio, literalmente. A ajuda humanitária prometida não está entrando”, lamentou.

Além disso, Wahed denunciou a destruição total do sistema educacional na região. “A devastação é brutal. Todo o sistema educacional da Faixa de Gaza foi destruído, incluindo as 16 universidades que existiam, assim como todas as bibliotecas e centros culturais”, revelou.

Futuro

Ao analisar as perspectivas para a Palestina e para a comunidade internacional, o diplomata lançou um alerta pessimista.

“Não vejo uma perspectiva positiva para toda a humanidade, incluindo o povo palestino, se essas políticas que estão sendo impostas continuarem”, frisou.

Wahed concluiu dizendo que, para ele, a única alternativa é uma reação mais firme da comunidade internacional. “Se as políticas atuais impostas pelos Estados Unidos continuarem, a verdade é que o futuro será sombrio para todos. Precisamos enfrentar essa nova doutrina de política internacional”, acrescentou.

“Se observarmos o que ocorreu no início do século 20, veremos como o fascismo e o nazismo avançaram diante da passividade global. Algo muito semelhante está se repetindo agora. É necessário agir imediatamente, não apenas pela Palestina, mas por toda a humanidade”, completou.

Mais lidas