Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

Durante uma conversa com jornalistas realizada em Madri, o embaixador da Palestina na Espanha, Husni Abdel Wahed, analisou a situação nos territórios palestinos, especialmente na Faixa de Gaza, que foi alvo de uma operação militar israelense que durou dois anos (entre outubro de 2023 e outubro de 2025) e resultou em mais de 65 mil mortes de civis.

Segundo ele, o cenário continua sendo grave e as invasões territoriais não podem ser tratadas como algo normalizado no cenário internacional.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

“O que está acontecendo na Palestina é um experimento de laboratório para o resto do mundo. Tudo o que se fizer ali pode se estender a outras regiões se isso for normalizado”, afirmou o diplomata, de 66 anos.

Wahed argumentou que os acontecimentos no território palestino não devem ser analisados de forma isolada.

Mais lidas

“Tudo está interconectado. Dependendo de como os fatos se desenrolem na região, isso poderá ser aplicado em outros lugares no futuro. Se o mundo tolerar o que está acontecendo, a escala poderá ser ainda maior em outros países e sem consequências significativas”, advertiu.

Durante o evento na capital espanhola, o embaixador mencionou um tema vigente na Europa: “agora ouvimos falar de uma possível anexação da Groenlândia por parte dos Estados Unidos. Que garantias temos de que Trump não queira, no futuro, anexar também o Canadá e o Panamá?”.

“Trump acredita que pode fazer o que quiser e que ninguém irá se opor. Quem poderia enfrentar o presidente dos Estados Unidos e suas políticas? Qualquer um poderia fazê-lo mas, logicamente, teria de pagar um preço muito alto. Então, quem está disposto a pagar esse custo?”, questionou.

Conselho de Paz

A criação de um conselho para administrar a reconstrução do enclave palestino – por iniciativa do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos – também foi tema do encontro em Madri. A iniciativa foi batizada como Conselho da Paz.

Wahed ironizou a proposta, ao afirmar que Gaza, apesar de sua reduzida dimensão territorial, estaria sendo tratada como se precisasse da gestão de vários chefes de Estado.

“Vocês sabem que a Faixa de Gaza tem 360 quilômetros quadrados, uma extensão semelhante à de qualquer outra cidade, mas que, segundo a visão de Trump, precisaria da participação de numerosos líderes mundiais”, ironizou.

De acordo com a Casa Branca, o objetivo do Conselho de Paz é debater questões como “o fortalecimento da capacidade de governança, as relações regionais, a reconstrução, a atração de investimentos, o financiamento em larga escala e a mobilização de capital”.

Para o embaixador palestino, no entanto, a iniciativa tem motivações políticas.

“O presidente Trump está usando esse Conselho para tentar aproximar alguns líderes de suas próprias políticas. Inicialmente, o objetivo era a reconstrução e a governança da Faixa de Gaza, mas agora parece que Trump quer desviá-lo para outros interesses e fins”, avaliou o representante palestino.

Postura de Lula

Trump convidou vários líderes para fazer parte do “Conselho de Paz”, muitos dos quais ainda não confirmaram sua participação. Entre eles estão o premiê espanhol Pedro Sánchez e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Sobre o convite ao mandatário brasileiro, o embaixador declarou à Opera Mundi que confia em sua postura em favor da causa palestina.

“Lula é um líder que demonstrou grande dignidade como dirigente do povo brasileiro. Não se deixou chantagear e agiu de acordo com seus princípios e com os interesses do Brasil. Por isso, merece toda a nossa confiança e respeito”, afirmou.

Embaixador palestino na Espanha participou de conversa com jornalistas em Madri
Lucila Runacles

Situação na Palestina

O embaixador também destacou o agravamento da crise humanitária na Faixa de Gaza, explicando que antes de 7 de outubro de 2025 entravam diariamente cerca de 600 caminhões com alimentos no território. Atualmente, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), esse número não chega a 200 caminhões por dia.

“O genocídio na Palestina continua, embora os meios de comunicação já não falem do que acontece na região. As pessoas continuam morrendo de fome e de frio, literalmente. A ajuda humanitária prometida não está entrando”, lamentou.

Além disso, Wahed denunciou a destruição total do sistema educacional na região. “A devastação é brutal. Todo o sistema educacional da Faixa de Gaza foi destruído, incluindo as 16 universidades que existiam, assim como todas as bibliotecas e centros culturais”, revelou.

Futuro

Ao analisar as perspectivas para a Palestina e para a comunidade internacional, o diplomata lançou um alerta pessimista.

“Não vejo uma perspectiva positiva para toda a humanidade, incluindo o povo palestino, se essas políticas que estão sendo impostas continuarem”, frisou.

Wahed concluiu dizendo que, para ele, a única alternativa é uma reação mais firme da comunidade internacional. “Se as políticas atuais impostas pelos Estados Unidos continuarem, a verdade é que o futuro será sombrio para todos. Precisamos enfrentar essa nova doutrina de política internacional”, acrescentou.

“Se observarmos o que ocorreu no início do século 20, veremos como o fascismo e o nazismo avançaram diante da passividade global. Algo muito semelhante está se repetindo agora. É necessário agir imediatamente, não apenas pela Palestina, mas por toda a humanidade”, completou.