Os bombardeios com que Israel quebrou a trégua em Gaza na madrugada de terça-feira (18/03) já mataram mais de 900 pessoas, incluindo 130 crianças, entre as quais diversos bebês. Isso significa que as crianças representam uma de cada três vítimas fatais dos ataques recentes.
É o maior número de mortes infantis em um só dia em todo o último ano de guerra, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). E as vítimas devem aumentar já que mais de 600 feridos não conseguem atendimento médico porque a maioria dos hospitais está destruída. Sem contar os que permanecem soterrados sob os escombros.
Os ataques continuaram pela noite, vitimando outros 14 palestinos em Rafah e Yunis, no sul do enclave.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, garantiu que isso é “apenas o começo”. Segundo ele, a partir de agora, as negociações com o Hamas “só ocorrerão sob fogo”.
“O Hamas deve entender que as regras do jogo mudaram”, disse Israel Katz, ministro da defesa israelense, durante uma visita a uma base militar. Ele insistiu na libertação dos reféns sem que Tel Aviv cumpra com a sua parte na segunda etapa do acordo. “Os portões do inferno se abrirão e o Hamas enfrentará todo o poder das forças de Israel no ar, no mar e em terra”, ameaçou.
A diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell, denunciou que o alto número de crianças mortas (e de mulheres) não é casual porque “alguns ataques atingiram abrigos temporários onde crianças e famílias dormiam”.
Os principais alvos dos bombardeios foram acampamentos, escolas e abrigos no sul do enclave, área supostamente mais segura.

Russell lembrou ainda que as bombas não são as únicas ameaças que as crianças enfrentam em Gaza. Depois de 18 dias de bloqueio à entrada de ajuda humanitária por Israel, alimentos, medicinas e outros gêneros de primeira necessidade começam a acabar, trazendo de volta a fome, como denunciou a própria UNICEF há poucos dias.
Como Israel também cortou o fornecimento de energia elétrica, a principal usina de dessalinização está parada, reduzindo a quantidade de água potável.
A UNICEF pediu o restabelecimento imediato do cessar-fogo e apelou aos países “com influência para que o utilizem para garantir que a situação não se deteriore ainda mais”.
“Todas as partes devem respeitar o direito internacional humanitário, permitindo o fornecimento imediato de ajuda humanitária, a proteção de civis e a libertação de todos os reféns”, frisou Russell.
Muitos avaliam que Netanyahu retomou os ataques apenas para se manter no poder. De momento, a volta da guerra já possibilitou o retorno do líder de extrema direita Itamar Ben-Gvir como Ministro da Segurança Nacional. Ele havia abandonado o governo de coalizão por discordar do cessar-fogo. E Netanyahu, que responde a acusações de corrupção, foi autorizado nesta terça-feira a não comparecer a uma audiência “devido à retomada da guerra”.