Sábado, 10 de outubro de 2026
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No marco dos três anos do genocídio perpetrado por Israel na Faixa de Gaza, ativistas das mais diversas causas, incluindo movimentos trabalhistas, LGBTQIAPN+, independentes, além de universitários, realizaram na Coreia do Sul diversas marchas em apoio à causa palestina. Na capital Seul, militantes que integram o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) sul-coreano organizaram neste sábado (03/10) uma manifestação com uma série de intervenções que centraram críticas à aliança histórica do país com Estado israelense, sustentando como prioridade máxima a suspensão imediata das exportações de armas, cooperação industrial e intercâmbio de tecnologia militar.

A Opera Mundi, o ativista sul-coreano Yu Ji apontou os dados do Centro de Paz e Desarmamento da Solidariedade do Povo pela Democracia Participativa (PSPD, na sigla em inglês), que registram que o valor total das exportações de armas da Coreia do Sul para Israel em 2023 somou aproximadamente US$ 16,2 milhões (quase R$ 85 milhões) e cerca de US$ 6 milhões (cerca de R$ 31 milhões) entre janeiro e agosto de 2024. Os períodos condizem com a gestão do ex-presidente autodeclarado anticomunista Yoon Suk Yeol, do Partido do Poder Popular, que foi sentenciado à prisão perpétua por liderar uma insurreição ao decretar a lei marcial em dezembro de 2024.

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Já no governo do atual presidente Lee Jae Myung, do Partido Democrático da Coreia, em 2025, as estatísticas da World Integrated Trade Solution (WITS) do Banco Mundial demonstram que o valor das exportações sul-coreanas para Israel de produtos classificados como armas, munições e componentes foi de US$ 1,49 milhão (cerca de R$ 7,8 milhões), com o regime sionista ocupando a 7ª posição entre os países de destino.

Para Yu Ji, apesar de algumas declarações condenatórias de Lee contra as hostilidades de Israel, a política externa sul-coreana em relação ao regime sionista segue a mesma linha diplomática estabelecida pelas administrações anteriores desde o fim da Guerra Fria e os Acordos de Oslo, independentemente do partido no poder. Isso porque a Coreia do Sul é essencialmente subordinada aos Estados Unidos.

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“Os comunicados do Ministério das Relações Exteriores [da Coreia do Sul] mostram que, há décadas, o governo repete declarações de apoio à solução de dois Estados, com menções genéricas ao apoio ao direito do povo palestino à autodeterminação e à preocupação com a expansão dos assentamentos, mas sem qualquer conteúdo substancial”, disse.

Além do apoio direto em tecnologia militar e armas, Yu Ji denunciou que “equipamentos pesados, como as escavadeiras da HD Hyundai Construction Equipment”, são utilizados na construção de assentamentos ilegais e na destruição dos meios de subsistência e locais onde vivem comunidades indígenas em Gaza e na Cisjordânia ocupada. “Escavadeiras fabricadas na Coreia do Sul também foram utilizadas na destruição da sede da UNRWA [Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina] em Jerusalém”.

Em agosto, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) invadiram o Centro de Operações de Qalandiya, uma instalação utilizada pela UNRWA na cidade de Kafr Aqab, em Jerusalém Oriental – considerada parte do território palestino, mas ocupada militarmente por Israel. Na ocasião, os soldados ordenaram a evacuação do complexo, expulsando à força todos os funcionários do órgão humanitário.

A HD Hyundai é um conglomerado sul-coreano que possui negócios que incluem construção naval, máquinas pesadas e equipamentos de construção. De acordo com uma apuração da Anistia Internacional publicada em março de 2025, houve registros de ao menos 32 carregamentos de máquinas da corporação para a distribuidora israelense EFCO entre outubro de 2021 e outubro de 2023, além de 12 carregamentos de equipamentos para a empresa israelense Emcol.

A Anistia Internacional também confirmou que máquinas da HD Hyundai estavam sendo utilizadas para demolir propriedades palestinas na Cisjordânia ocupada, principalmente após outubro de 2023.

“Já se passaram mais de dez anos desde que recebemos informações sobre a comunidade de Masafer Yatta, local que também foi apresentado no documentário No Other Land (vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2025), e temos continuamente levantado essa questão junto à HD Hyundai. Mesmo assim, a empresa continua se recusando a realizar uma diligência em direitos humanos”, lamentou o ativista.

Para além da venda de munições por parte de Seul, as empresas israelenses de armamentos e tecnologias estão profundamente envolvidas no fornecimento de componentes essenciais e no desenvolvimento tecnológico de armas sul-coreanas avançadas, promovidas sob o slogan “K-defense” (“K-bangsan”), conforme Yu Ji.

O sistema de proteção ativa utilizado no tanque K-2, que intercepta armas antitanque de curto alcance, como foguetes e mísseis guiados; o sistema de comando e controle do veículo de combate de infantaria AS-21; e o radar do novo caça KF-21 são alguns exemplos dos dispositivos fornecidos por empresas israelenses à Defesa sul-coreana ou que são desenvolvidos em tarefas conjuntas.

A troca entre entre Coreia do Sul e Israel deriva do Acordo de Livre Comércio, em vigor desde dezembro de 2022, que menciona setores como aeroespacial e cibersegurança entre as áreas de cooperação tecnológica. Conglomerados como Samsung, Hyundai, SK e LG, as maiores do país asiático, também já adquiriram ou investiram em startups israelenses de tecnologia.

A imprensa local revelou recentemente que fundos do Sistema Nacional de Pensão da Coreia do Sul e as reservas cambiais do país estão investidos em diversos ativos públicos e privados israelenses, incluindo títulos do governo sionista, empresas de armamentos e instituições financeiras que apoiam a construção de assentamentos. Subsidiária da Companhia de Óleo da Coreia do Sul (KNOC), a Dana Petroleum participa de um consórcio envolvido no projeto de exploração de campos de gás marítimos do Ministério da Energia de Israel em águas territoriais pertencentes à Palestina.

“Isso constitui uma grave violação da soberania do povo palestino e um ato de pilhagem de recursos”, denunciou o ativista.

Ativistas pró-Palestina na Coreia do Sul assistem às intervenções no âmbito da manifestação organizada pelo movimento BDS em Seul
Opera Mundi/Rocio Paik

O apoio pró-Israel na Coreia do Sul

“Independentemente dos intercâmbios militares, políticos e econômicos, o grupo que mais fortemente apoia Israel na Coreia do Sul são os protestantes de direita anticomunistas influenciados pelos Estados Unidos”, destacou Yu Ji. Na Assembleia Nacional, chegou-se a criar uma Associação Parlamentar de Amizade Coreia-Israel, da qual participam alguns legisladores de partidos de extrema direita.

“Esses grupos foram profundamente influenciados teológica e culturalmente pelas igrejas cristãs dos Estados Unidos. As doutrinas do chamado sionismo cristão de linha dura também fazem parte dessa influência. Recentemente, discursos islamofóbicos e de exclusão de refugiados também frequentemente acabam levando ao apoio a Israel. Nesse aspecto, há várias semelhanças com o surgimento de forças políticas pró-Israel observado em países sul-americanos como o Brasil”.

Na avaliação do ativista do movimento BDS, à medida que Israel perde apoio popular e diplomático nos países ocidentais devido ao genocídio na Palestina e ao envolvimento direto na guerra contra o Irã, o regime precisa diversificar suas fontes de fornecimento de armas. “Acreditamos que Israel buscará utilizar a Coreia do Sul, um país aliado dos Estados Unidos, como um importante ponto de apoio diplomático na Ásia Oriental”, disse.

Para Sahar Kalloub, é inadmissível que o governo sul-coreano não tenha cortado todos os laços com a ocupação israelense. A jornalista palestina, que há menos de um mês migrou para Seul com o intuito de morar com o seu marido – este que, por sua vez, passou três anos esperando pelo reconhecimento como refugiado palestino na Coreia do Sul –, protagonizou uma das intervenções a microfone aberto na marcha de sábado no centro da capital. A Opera Mundi, contou ter deixado Gaza apenas alguns dias antes de Israel intensificar suas agressões em outubro de 2023, após ganhar uma bolsa de estudos na Irlanda para fazer seu mestrado

“Meus estudos começaram junto com o genocídio. Toda a minha família continuou em Gaza. No primeiro ano do genocídio, não tínhamos comunicação. Foi catastrófico”.

A família de Sahar continua em Gaza. Segundo ela, o Exército de Israel, enquanto segue cometendo crimes humanitários, fechou todas as fronteiras para impedir a saída de cidadãos do território.

“O genocídio entra em seu terceiro ano. É uma vergonha para a humanidade e para o mundo que isso continue acontecendo. É uma vergonha que não tenha sido interrompido e que os crimes de Israel contra o meu povo continuem até hoje”, disse.

O movimento BDS na Coreia do Sul

A solidariedade à causa palestina e as pressões por boicote, desinvestimento e sanções contra Israel ainda não conquistaram apoio expressivo na sociedade sul-coreana. O grupo Solidariedade à Paz na Palestina (PPS) na Coreia do Sul surgiu em 2003, em meio à invasão norte-americana do Iraque, e se consolidou como uma organização independente que manteve acesa a bandeira solidária à causa palestina no país.

De acordo com o ativista Yu Ji, algumas vitórias do grupo foram obtidas no campo do boicote, como por exemplo impedir a presença de embaixadas ou instituições culturais israelenses em eventos como festivais internacionais de cinema documental e paradas do orgulho. “Mas, até o momento, essa influência segue circunscrita a um círculo restrito, conduzido por um pequeno contingente de ativistas, intelectuais e artistas”.

“Acredito que, por questões de interesse e prioridade popular, o anti-imperialismo raramente desloca seu foco para além dos problemas da divisão da nação coreana, do confronto militar na Península Coreana e da dependência sul-coreana dos Estados Unidos”, avaliou o ativista do movimento BDS, destacando que, portanto, continuar abordando a questão palestina também permite ao movimento social sul-coreano sair de seu foco nacionalista e refletir sobre como os problemas da região e do povo, estes que estão diretamente “relacionados à dominação mundial do imperialismo norte-americano e ao papel desempenhado por regimes reacionários que funcionam como seus agentes em regiões estratégicas”.

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