Ataques da Ucrânia servem de alerta, mas não significam enfraquecimento da Rússia, avaliam especialistas
Segundo Rose Martins e Marco Fernandes, Moscou deve se preocupar sobre como conflito de longo prazo está afetando sua economia, mesmo com vantagens no campo de batalha
Entre os meses de maio e junho, uma série de ataques com drones realizados pelas forças da Ucrânia contra território da Rússia e cidades do Donbas ocupadas pelo Exército russo foram bem sucedidas e levantaram especulações em meios de imprensa do mundo inteiro sobre se seriam um indício de que Kiev estaria mudando o equilíbrio do conflito que desde o seu início, em fevereiro de 2022, tem se mostrado bastante favorável a Moscou.
Um dos ataques mais importantes dessa série ocorreu no dia 18 de junho e atingiu uma refinaria de petróleo nas proximidades da capital russa, além de alguns alvos civis. O episódio acompanhou um padrão das investidas ucranianas, que costumam variar seus alvos entre localidades civis e plantas pertencentes à infraestrutura energética russa.
Segundo Marco Fernandes, analista geopolítico e membro do Conselho Popular do BRICS, “nos últimos dois ou três meses, a Ucrânia nitidamente conseguiu aumentar a eficácia de seus ataques com drones contra a Rússia, atingindo inúmeras refinarias de petróleo, o que tem afetado a capacidade de refino do país, que já enfrenta escassez de combustíveis em algumas regiões e a suspensão de exportações.
O acadêmico também lembra que Kiev lançou recentemente “ataques mais ousados a Moscou e São Petersburgo, ou ações claramente terroristas, como o ataque ao dormitório de uma faculdade em Starobelsk (Lugansk) que matou 21 jovens, a maioria moças estudantes de pedagogia”.
“Uma das hipóteses de alguns analistas é que essa maior eficácia pode estar relacionada ao avanço do uso de ferramentas de IA. É notória a atuação da Palantir, empresa que hoje é quase uma extensão do Pentágono, do lado ucraniano. O fato de que algumas fábricas tenham sido transferidas para países europeus e, portanto, estão mais protegidas contra os ataques russos, também é um fator vantajoso. Além disso, mais fábricas europeias passaram a produzir drones para Kiev”, analisa.
Já a analista internacional Rose Martins sustenta que “a Ucrânia vem multiplicando os ataques ao território russo e atingindo a infraestrutura energética do país, mas é preciso avaliar se isso resultou numa mudança no campo de batalha ou no enfraquecimento da força militar russa. E a resposta é não”.
“A Rússia ainda tem superioridade no campo de batalha e não enfrenta problemas graves com abastecimento de material militar. Uma outra dimensão dessa novidade é o que isso pode trazer como consequência política para Putin, uma vez que abala o cotidiano da população. No entanto, ainda não há nenhum indício de que os ataques ucranianos se traduziram em problemas políticos pra ele”, avalia Martins.
Por sua vez, Fernandes lembra que “se é verdade que a nova onda de ataques de drones ucranianos abriu um novo capítulo da guerra, e causou danos inéditos no território russo, também é claro que a Rússia continua avançando, ainda que lentamente, na conquista de territórios no Donbas, bem como seus recentes ataques massivos a Kiev e outras cidades ucranianas certamente tem infligido perdas importantes de infraestrutura urbana e militar”.
Problemas internos da Ucrânia
Outro contraponto ao incremento das ações ucranianas é “a perda de apoio financeiro dos Estados Unidos, ainda que compensada em parte pelo aumento do apoio europeu”, que, segundo Fernandes, foram “um golpe para as pretensões de Kiev”.
“A essa altura do campeonato, o país já tem dívidas que devem levar décadas para serem pagas, se é que um dia serão, já perdeu centenas de milhares de soldados (talvez alguns milhões), e viu milhões de seus cidadãos deixarem o país. A economia já foi devastada e o que sobrar do país deverá ser fatiado pela BlackRock e conglomerados de empresas estadunidenses e europeias”, adverte.
Para o analista, “os inúmeros escândalos de corrupção do núcleo duro do governo que continuam a acontecer só complicam ainda mais a situação de Zelensky, que pode terminar muito mal quando isso tudo acabar”.
“Por fim, não há imagem mais reveladora da trágica situação do país do que os frequentes vídeos mostrando agentes das Forças Armadas ucranianas, literalmente, sequestrando cidadãos nas ruas, ou mesmo na porta de casa diante da família, para serem levados à força para os fronts de guerra. Não se pode ganhar uma guerra na qual seus soldados foram sequestrados para lutar. A Ucrânia há muito deixou de ser um país e se tornou um mero instrumento do Ocidente em sua cruzada para tentar enfraquecer a Rússia”, acrescenta.
Mudança de quadros
Rose Martins também destaca as recentes mudanças no governo ucraniano, como um indício de que, apesar dos ataques recentes parecerem uma mudança de cenário positiva para o país, os problemas dentro do seu próprio gabinete continuam sendo um problema para o presidente Volodymyr Zelensky.
Entre essas mudanças, a mais importante foi a crise no Ministério da Defesa com a saída de Mykhailo Fedorov após somente sete meses no cargo. Ao se tratar de um dos políticos mais populares da Ucrânia, sua demissão gerou protestos não apenas em Kiev como em várias cidades do país.
“Está em desenvolvimento uma mudança de quadros na Ucrânia, com a substituição do ministro da Defesa, defensor e implementador dessa estratégia de ataques com drone de médio e longo alcance. A ver quem irá substitui-lo e o que isso vai significar na estratégia de guerra”, salienta a analista internacional.

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Economia russa
As agressões lançadas por Kiev nas últimas semanas não ficaram sem resposta por parte de Moscou, embora elas tenham sido imediatas, como em outras etapas do conflito de quatro anos e meio entre os dois países.
Segundo o analista geopolítico Marco Fernandes, “o aumento das perdas russas por ataques ucranianos nos últimos meses praticamente obriga a Rússia a escalar os ataques contra a Ucrânia”.
“Na verdade, nos últimos meses, parece que tem crescido na Rússia o clamor de alguns setores da sociedade por ataques mais incisivos contra a Ucrânia, e até mesmo contra alguns países europeus. O Kremlin, inclusive, tem sinalizado que não descarta essa hipótese”, observa.
Outro elemento a se considerar no conflito e a crescente desconfiança por parte do governo de Vladimir Putin com o papel dos Estados Unidos como mediador de um possível acordo, e com a promessa do presidente norte-americano Donald Trump de buscar um desfecho definitivo para a guerra.
“É interessante pra Washington e Bruxelas manter Moscou encalacrada em uma guerra sem fim, com poucos recursos financeiros e humanos disponíveis. Isso mantém os russos com menos capacidade de investir em tarefas mais estratégicas, como a reindustrialização do país e uma política externa voltada a fortalecer o BRICS e outras iniciativas”, avalia Fernandes.
Nesse sentido, o analista faz uma ressalva a respeito do atual momento da economia russa, que estaria dando sinais de alerta.
“Depois de três anos seguidos de crescimento razoável, com o PIB chegando a crescer 4,1% em 2025, a economia está patinando esse ano. Houve queda de 0,2% no PIB no primeiro trimestre e as previsões russas para o resultado anual não são nada otimistas – o crescimento pode ficar abaixo de 1%”, observa.
Para Fernandes, “trata-se de uma situação que aumenta a tensão no país, agravada pelo avanço dos ataques ucraniano, e que pode resultar em mais pressão para que o Kremlin tome medidas militares mais assertivas contra Kiev, com intuito de resolver militarmente o conflito, ou finalmente obrigar a Ucrânia a sentar para negociar o fim do conflito”.
























