Em quatro anos, Ucrânia foi usada como bucha de canhão do Ocidente, avalia especialista
Para Rose Martins, operação militar russa tem caráter 'defensivo' no contexto pós-Guerra Fria, respondendo às ameaças de EUA e OTAN
No âmbito dos quatro anos da operação especial da Rússia na Ucrânia, completados nesta terça-feira (24/02), a analista internacional Rose Martins sustentou que o conflito inicialmente travado por Moscou no território ucraniano, na realidade, mira a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) juntamente com os Estados Unidos. Após a primeira ofensiva em 24 de fevereiro de 2022, o Ocidente, que naturalmente tinha a Rússia como adversária, “usou” a Ucrânia.
“O que leva a Rússia a iniciar esse conflito é dar uma resposta à relação que tem o elemento estrutural no sistema internacional, nas relações internacionais: a rivalidade entre duas potências”, disse. “Essa é uma guerra em que a Ucrânia é utilizada como bucha de canhão. Essa é uma guerra dos Estados Unidos, auxiliada por seus parceiros europeus, e sendo instrumentalizada pela OTAN”.
A posição da especialista se deu no programa 20 Minutos, apresentado pelo fundador de Opera Mundi, Breno Altman. A discussão percorreu as causas estruturais e o atual estágio da guerra, além das dinâmicas geopolíticas e os possíveis cenários do futuro.
Na entrevista, Martins ressaltou que o conflito, para a Rússia, tem um caráter defensivo e existencial, sendo que ele se insere no processo pós-Guerra Fria, período em que a OTAN, sob liderança norte-americana, se expandiu em direção às fronteiras russas, ignorando os alertas de Moscou.
A analista abordou sobre suas expectativas iniciais de um conflito rápido, mas apontou que a Rússia “subestimou” a ajuda militar e o engajamento do Ocidente fornecidos à Ucrânia, em especial os europeus. Por outro lado, Martins explicou que 2025 foi um ano marcante para o Kremlin, que registrou seus maiores avanços territoriais, utilizando-se intensamente de drones e mísseis para atacar a infraestrutura ucraniana.
Quatro anos depois, a especialista avaliou que a Rússia ainda não atingiu todos os seus objetivos estratégicos. Ela explicou que, embora tenha consolidado o controle da Crimeia e avançado significativamente sobre as regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, Moscou não exerce controle total sobre esses territórios. Quanto à capacidade da Ucrânia de reverter a situação militarmente, Martins afirmou que isso seria possível apenas com um envolvimento direto da OTAN com o uso de armas nucleares táticas, cenário que provocaria uma resposta por parte da Rússia à altura.
Objetivo de Trump
O retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em 2025, alterou a dinâmica do conflito, de acordo com Martins. Quando comparada à gestão do democrata Joe Biden, a principal mudança foi a redução do financiamento direto a Kiev, transferindo o ônus financeiro para a Europa. De acordo com a analista, a estratégia do republicano é “neutralizar” a Rússia enquanto ator no sistema internacional para concentrar esforços no que considera o principal adversário: a China.
“Não tem como gastar força com os dois lados, de fazer um confronto duplo. Para isso, é preciso, digamos que amaciar a Rússia, e tirá-la da esfera de influência da China. Algo nesse momento praticamente impossível”, afirmou.
Sobre o papel da China, Martins destacou sua atuação ambígua, mas crucial. Embora Pequim não forneça armas abertamente, é um dos principais pilares de sustentação da economia russa, absorvendo sua energia, fornecendo itens de “uso duplo” (civil e militar) e realizando comércio em moedas locais para driblar sanções ocidentais.
Em relação às negociações para um acordo de paz em curso, a Rússia exige o reconhecimento de suas conquistas territoriais e a neutralidade da Ucrânia – com a limitação das forças armadas. Já Kiev se recusa a ceder territórios, mantendo uma esperança de reverter o quadro por meio de ajuda externa.
Na entrevista, Martins apontou que a hipótese de um novo avanço sobre a Ucrânia não está descartada, uma vez que consolidar o controle sobre o Donbass, por exemplo, pode não significar o fim definitivo da guerra se o governo ucraniano continuar resistindo.
























